Celina Leão: superlotação, falta de médicos e filas por cirurgias desafiam sua nova gestão no DF
Governadora promete ampliar equipes, entregar novas unidades e reduzir o tempo de espera por procedimentos; problemas estruturais e denúncias de falhas no atendimento seguem entre os principais desafios da rede pública.

Reeleita para governar o Distrito Federal pelos próximos quatro anos, Celina Leão (PP) terá como um dos principais desafios reorganizar a rede pública de saúde. Hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) enfrentam problemas de superlotação, falta de profissionais, filas para cirurgias e dificuldades estruturais.
A crise ganhou maior repercussão em julho de 2026, após seis mortes em unidades públicas de saúde serem associadas a denúncias de possível negligência. Na ocasião, Celina reconheceu o sucateamento da rede e afirmou que seria necessário melhorar a qualidade do atendimento.
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Apesar de medidas anunciadas pelo governo, como a convocação de profissionais e a ampliação da capacidade de atendimento, os problemas persistiram. Para o próximo mandato, a governadora promete reduzir o tempo de espera por cirurgias, ampliar o quadro de médicos e entregar novas unidades.
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Entenda os principais problemas da saúde pública do DF
A superlotação é um dos problemas mais persistentes da rede. Em novembro de 2025, dados obtidos pelo portal G1 por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostraram que o pronto-socorro do Hospital Regional de Taguatinga (HRT) operou acima da capacidade máxima por pelo menos um ano. Em alguns meses, a ocupação ultrapassou 250% .
A situação também atinge as UPAs. Dados do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), divulgados em julho de 2026, apontaram que 11 das 13 unidades operavam com mais pacientes internados do que a capacidade regular. Na UPA Ceilândia II, a taxa de ocupação chegou a 400%.
Outro gargalo são as filas para procedimentos. O Mapa Social da Saúde do Ministério Público registra mais de 33 mil solicitações de cirurgias eletivas.
Em entrevista à TV Globo após a reeleição, em 27 de outubro, Celina afirmou que pretende reduzir o tempo de espera e defendeu que pacientes não aguardem mais de dois meses por cirurgias, a depender da gravidade e do procedimento.
“Você não pode deixar uma pessoa esperar, dependendo da gravidade ou do tipo de cirurgia, mais do que dois meses. O que a gente está trabalhando é tempo de espera”, afirmou.
A governadora também prometeu entregar cinco UPAs até o fim do ano e destacou o programa Prontuário do Paciente, que prevê a unificação digital do histórico dos usuários da rede pública.
Mortes e denúncias ampliaram pressão sobre a rede
Em menos de um mês, entre junho e julho de 2026, seis mortes em hospitais e UPAs do DF levaram familiares a denunciar possíveis falhas no atendimento. Os casos envolveram:
- Vilmar Pereira da Silva, de 49 anos, que morreu sem receber atendimento na UPA do Recanto das Emas, em 20 de junho;
- Luciana Ferreira, de 34 anos, que perdeu a primeira filha durante o parto, em 29 de junho;
- Maria Vitória, de cinco meses, que morreu após ser extubada acidentalmente durante transferência hospitalar, em 6 de julho;
- Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, que morreu durante o parto no Hospital de Samambaia, em 10 de julho;
- Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, que morreu na calçada do Hospital de Base, em 12 de julho;
- Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, que morreu durante o parto no Hospital Regional de Samambaia, em 13 de julho.
Na época, o secretário de Saúde, Juracy Cavalcante, afirmou que os casos estavam sendo investigados, mas classificou os episódios como “fatos isolados”.
Após as denúncias, Celina reconheceu problemas na estrutura e na falta de médicos. A governadora também mencionou mudanças no protocolo de atendimento pré-natal e afirmou que não toleraria falhas na assistência.
Déficit de médicos e dificuldade para contratar
A falta de profissionais é outro desafio. Em janeiro de 2025, um levantamento apontou déficit de 996 médicos em diferentes especialidades da rede pública do DF. A carência atingia áreas como clínica médica, anestesiologia, radiologia e pediatria. Os intensivistas eram a exceção.
Em julho de 2026, após a repercussão das mortes, Celina anunciou a intenção de convocar 508 profissionais, entre médicos generalistas e especialistas. A governadora, porém, reconheceu a dificuldade para preencher as vagas: em um processo seletivo com 114 oportunidades, apenas 34 profissionais haviam tomado posse.
A última convocação ocorreu em 26 de outubro, quando a Secretaria de Saúde chamou 116 candidatos aprovados para vagas temporárias de médico generalista, com contratos de um ano, sem possibilidade de prorrogação.
O secretário Juracy Cavalcante afirmou que o governo estudava melhorar a remuneração para atrair profissionais. Celina também disse que a contratação de especialistas depende de salários mais competitivos, especialmente em áreas como anestesiologia, ginecologia e oncologia.
“Eu preciso melhorar um pouco o salário porque, se não, eu não consigo contratar”, afirmou a governadora.
Estrutura e gestão também estão sob questionamento
Além da falta de médicos, a rede enfrenta denúncias relacionadas às condições de trabalho e à estrutura das unidades.
Em outubro de 2026, funcionários e ex-funcionários do Hospital de Base denunciaram problemas no setor de Anatomia Patológica. Vídeos mostraram sujeira, falhas na proteção dos trabalhadores e recipientes improvisados para armazenar órgãos.
Também houve denúncias sobre ambulâncias contratadas pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF). Trabalhadores relataram problemas como pneus carecas, documentação vencida, macas soltas e falhas mecânicas.
O instituto administra unidades importantes da rede, como o Hospital de Base, o Hospital Regional de Santa Maria e todas as UPAs do DF. Seu modelo de gestão é alvo de questionamentos recorrentes. Em dezembro de 2025, o Tribunal de Contas da União apontou falhas no uso de recursos federais, incluindo problemas em processos de contratação e indícios de irregularidades em serviços.
Durante a campanha, Celina afirmou que pretende reduzir gastos administrativos do Iges-DF. Seu adversário, Leandro Grass (PT), defendeu devolver a gestão do instituto à Secretaria de Saúde.
O que Celina promete para a saúde
No plano de governo apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Celina estabeleceu como prioridades reduzir o tempo de espera, fortalecer a atenção primária, modernizar hospitais e valorizar os profissionais.
Entre as propostas estão:
- ampliar o programa Opera-DF, voltado à redução das filas de cirurgias;
- fortalecer as Unidades Básicas de Saúde (UBSs);
- construir sete novas UPAs, em Águas Claras, Água Quente, Guará II, Taguatinga, Estrutural, Arapoanga e Ceilândia;
- avançar na construção de hospitais em regiões como Guará, São Sebastião, Ceilândia, Recanto das Emas e na área oncológica;
- implantar o IntegraSaúde e um Centro de Diagnóstico e Imagem;
- reestruturar carreiras, melhorar salários e ampliar a contratação de profissionais;
- expandir os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para todas as regiões administrativas;
- ampliar o atendimento odontológico, inclusive com unidades móveis nas escolas públicas.
As propostas se somam à promessa de entregar novas UPAs e reduzir a espera por cirurgias. A execução dessas medidas e a capacidade de resolver problemas históricos da rede estarão entre os principais pontos de cobrança sobre a próxima gestão.


