Comissão da ONU acusa Israel de manter genocídio em Gaza após cessar-fogo
Relatório divulgado nesta segunda-feira (26) aponta continuidade de ataques contra civis e denuncia crimes contra a humanidade na Cisjordânia; governo israelense rejeita as acusações

A Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU concluiu que Israel continuou praticando atos classificados pelo grupo como genocidas na Faixa de Gaza, mesmo depois do cessar-fogo firmado em outubro de 2025. O novo relatório, divulgado nesta segunda-feira (26), aponta a continuidade de operações militares contra áreas povoadas e acusa autoridades israelenses de manter ações destinadas a destruir, total ou parcialmente, a população palestina do território.
O documento também denuncia uma escalada de violações na Cisjordânia ocupada, incluindo mortes de civis, deslocamentos forçados, tortura e violência sexual. Israel contesta as conclusões da investigação e afirma que as acusações buscam deslegitimar o país.
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Comissão da ONU aponta continuidade de ataques em Gaza
Segundo os investigadores, as forças israelenses continuaram utilizando bombardeios, artilharia, drones e disparos de armas de fogo em regiões densamente povoadas, apesar do acordo de interrupção das hostilidades mediado pelos Estados Unidos.
O relatório afirma que as operações provocaram novas mortes e ferimentos entre civis palestinos e que as ações identificadas demonstram a continuidade de uma política de destruição da população de Gaza.
Os especialistas também questionam o avanço das tropas israelenses sobre áreas próximas à chamada Linha Amarela, demarcação estabelecida durante o processo de cessar-fogo para separar zonas sob controle militar israelense de áreas onde permanece concentrada a população palestina.
Para a comissão, a expansão desse controle territorial amplia os riscos enfrentados pelos moradores e compromete a possibilidade de uma trégua duradoura.
Relatório denuncia crimes contra a humanidade na Cisjordânia
Além da situação em Gaza, a investigação apresenta acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade na Cisjordânia ocupada, incluindo extermínio, perseguição, tortura, estupro e outras formas de violência sexual.
De acordo com os dados apresentados, seis palestinos morreram em ataques aéreos na Cisjordânia entre 2008 e 6 de outubro de 2023. Já entre 7 de outubro de 2023 e 30 de setembro de 2026, o número chegou a 254 mortos.
A comissão afirma que palestinos foram alvo de ações discriminatórias relacionadas à nacionalidade, origem étnica, gênero e idade. O documento também denuncia ataques contra crianças e a destruição de residências.
Segundo o relatório, operações militares iniciadas em janeiro de 2025 provocaram o maior deslocamento de palestinos na Cisjordânia desde 1967. Em agosto de 2026, aproximadamente 34.176 pessoas permaneciam deslocadas.

Israel rejeita acusações de genocídio
O governo israelense rejeitou o relatório e contestou a credibilidade da comissão responsável pela investigação.
O embaixador de Israel em Genebra, Daniel Meron, classificou o documento como parte de uma campanha de desinformação destinada a prejudicar a imagem do país e questionar seu direito de existir e de se defender.
Israel também rejeitou anteriormente as conclusões da comissão sobre genocídio em Gaza e nega as acusações de crimes sexuais atribuídas às suas forças de segurança.
As conclusões divulgadas representam a avaliação de uma comissão independente criada no âmbito das Nações Unidas. Elas não equivalem, por si só, a uma condenação judicial definitiva por um tribunal internacional.
Investigação também critica a Autoridade Palestina
O relatório não se limita às ações israelenses. Os investigadores também acusam a Autoridade Palestina de violações de direitos humanos na Cisjordânia, incluindo repressão a opositores e falhas na investigação de abusos cometidos por suas forças de segurança.
Segundo a comissão, jornalistas e defensores dos direitos humanos também foram atingidos pela violência, enquanto pessoas que expressaram opiniões contrárias às autoridades palestinas enfrentaram perseguições.
O documento recomenda investigações independentes e medidas para garantir a responsabilização de agentes envolvidos em possíveis violações.
Guerra começou após ataques do Hamas em 2023
O conflito teve início em 7 de outubro de 2023, quando integrantes do Hamas e de outros grupos armados palestinos atacaram o sul de Israel, matando aproximadamente 1.200 pessoas e sequestrando reféns, segundo dados israelenses.
Israel respondeu com uma ofensiva militar de grande escala na Faixa de Gaza. Desde então, o território enfrenta uma grave crise humanitária, marcada por destruição de infraestrutura, deslocamentos e dificuldades de acesso a alimentos, água e atendimento médico.
Segundo autoridades de saúde de Gaza, mais de 74 mil palestinos morreram durante a ofensiva israelense. Os números são atribuídos às autoridades locais e não representam uma contagem independente realizada pela comissão.
O cessar-fogo negociado em outubro de 2025 buscava interromper os confrontos e estabelecer condições para uma retirada gradual das forças israelenses, além de permitir avanços na assistência humanitária e nas negociações políticas.

O que acontece após a divulgação do relatório?
As conclusões deverão integrar as discussões da Assembleia Geral das Nações Unidas e ampliar o debate internacional sobre a responsabilização por possíveis crimes cometidos nos territórios palestinos ocupados.
A comissão recomenda que Israel interrompa as violações identificadas, cumpra suas obrigações previstas no direito internacional e adote medidas para proteger a população civil.
O documento também solicita providências à Autoridade Palestina para investigar denúncias contra seus próprios agentes e assegurar a proteção de jornalistas, ativistas e outros civis.
O presidente da comissão, Srinivasan Muralidhar, deverá apresentar as conclusões aos representantes dos países-membros da ONU. A implementação das recomendações dependerá de decisões políticas, diplomáticas e, eventualmente, de procedimentos judiciais internacionais.


