Peru vive tensão após vantagem mínima de Keiko Fujimori na apuração
Keiko Fujimori assume vantagem mínima na disputa presidencial do Peru nesta quinta-feira (18), com 99,38% das urnas apuradas. O presidente Roberto Sánchez contesta o cenário e seu partido convoca protestos nas ruas.
Apuração apertada expõe país dividido
A contagem oficial coloca Fujimori, candidata da coalizão de direita, com 50,107% dos votos válidos. Sánchez, que tenta a reeleição pela esquerda, aparece com 49,893%. A diferença gira em torno de poucos milhares de votos num universo de milhões de eleitores, o que alimenta a disputa por cada boletim e cada ata de votação.
O resultado parcial muda o clima em Lima e em outras grandes cidades. Dirigentes do partido de Sánchez afirmam que não vão reconhecer os números divulgados pelo órgão eleitoral até que todas as denúncias sejam analisadas. Em comunicado à imprensa, um dos porta-vozes da sigla declara que “não aceitaremos um resultado manchado por irregularidades” e chama apoiadores às ruas “em defesa da vontade popular”.
Disputa reabre feridas da política peruana
A reta final da apuração revive disputas antigas no país andino. De um lado, Fujimori tenta se afastar da sombra do pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, símbolo de um governo que combinou combate duro a grupos armados com denúncias de corrupção e violações de direitos humanos nos anos 1990. Do outro, Sánchez se apresenta como defensor de reformas sociais e maior presença do Estado, mas chega à eleição desgastado por crises econômicas, conflitos com o Congresso e questionamentos sobre a eficácia de seu governo.
A votação de domingo já nasce marcada por forte polarização. Bairros populares e regiões rurais, tradicionalmente mais alinhados à esquerda, puxam a votação de Sánchez. Distritos de maior renda em Lima e parte do empresariado se inclinam para Fujimori, vista por essas camadas como aposta de estabilidade econômica e de freio a mudanças mais profundas no modelo vigente.
O cenário atual repete um padrão recente da política peruana, em que presidentes enfrentam baixa popularidade, choques constantes com o Legislativo e sucessivas crises de confiança nas instituições. A mobilização de jovens, movimentos sociais e grupos críticos ao governo reforça uma sensação de fadiga democrática, em que boa parte do eleitorado vota mais por rejeição ao adversário do que por entusiasmo com o próprio candidato.
Risco de instabilidade cresce com anúncio de protestos
O anúncio de que o partido de Sánchez não respeitará o resultado parcial acende o alerta entre analistas, investidores e governos estrangeiros. Protestos convocados para os próximos dias devem se concentrar na capital, mas há risco de bloqueios de estradas e paralisações em regiões já marcadas por conflitos sociais. “A margem apertada é combustível para narrativas de fraude, mesmo sem provas consistentes”, avalia um cientista político ouvido pela reportagem.
As primeiras reações no mercado financeiro local já indicam volatilidade. Empresários temem que uma escalada de confrontos afete investimentos, obras de infraestrutura e cadeias de exportação de minérios e produtos agrícolas, pilares da economia peruana. Sindicatos e organizações camponesas, por sua vez, veem nas manifestações uma chance de pressionar por mudanças em políticas sociais, trabalhistas e ambientais, independentemente de quem seja declarado vencedor.
A tensão também testa a capacidade das instituições eleitorais de manter transparência e credibilidade. Organismos de observação internacional acompanham a apuração e pedem calma aos dois lados. Em reservadas conversas diplomáticas, representantes de países vizinhos expressam preocupação com o risco de derrapagem democrática em mais um ponto sensível da América do Sul.
Próximos passos e incertezas no horizonte
O órgão eleitoral ainda precisa concluir a contagem de votos remanescentes, incluindo atas contestadas e seções onde a apuração sofre atraso logístico. Recursos formais devem se acumular nas próximas horas, tanto de aliados de Fujimori quanto de apoiadores de Sánchez. A lei prevê prazos para análise de cada contestação, o que pode estender o impasse por dias e deixar o país em compasso de espera.
Autoridades de segurança se preparam para atos de rua contínuos, tentando equilibrar o direito de manifestação com a proteção de prédios públicos e serviços essenciais. Setores moderados, dentro e fora da política, defendem uma saída negociada que reduza a temperatura e preserve a confiança no processo eleitoral. O desfecho, porém, depende de como os dois campos vão administrar a derrota de um lado e a vitória apertada do outro. Em meio a resultados tão próximos, a pergunta que ecoa em Lima é se o Peru encontrará uma forma de aceitar as urnas sem aprofundar ainda mais suas fraturas internas.
