Neymar volta aos treinos e reacende esperança da Seleção na Copa
Neymar volta a treinar com a Seleção Brasileira nesta quarta-feira (17), em Nova York, um mês após estiramento na panturrilha direita. A reaparição em campo muda o humor do grupo às vésperas da Copa do Mundo.
Retorno cercado de segredo e comoção
O relógio marca pouco depois das 10h no CT do Red Bulls, em Nova York, quando Neymar enfim cruza o gramado principal. A cena é de final de torneio, não de treino. Mais de 500 jornalistas se espremem atrás das grades metálicas, câmeras erguidas, celulares no limite da extensão dos braços. O maior astro midiático da Seleção reaparece, sorri, solta um simples “bom dia” e provoca um empurra-empurra imediato na busca por cada palavra.
Um mês antes, o estiramento na panturrilha direita parecia colocar em risco a presença do camisa 10 na Copa do Mundo de 2026. A comissão técnica falava em cautela, em prazos elásticos, em retorno progressivo. No campo, no entanto, a imagem é bem diferente da de um jogador ainda em adaptação. Neymar corre, chama o jogo, divide bolas, trava finalizações. Em poucos minutos de atividade aberta, deixa claro que não volta hoje ao futebol. Parece apenas voltar aos olhos do público.
O protocolo do treino tenta seguir um roteiro didático. Neymar é apresentado ao grupo no círculo central como se fosse um recém-chegado. Passa pelo tradicional “corredor polonês”, recebe tapas leves e chutes de brincadeira dos companheiros, repete gargalhadas de quem, oficialmente, está de volta após 30 dias de recuperação. A coreografia diverte, mas não esconde a sensação de que algo vinha acontecendo longe das câmeras.
A Seleção treina desde o início de junho nos arredores de Nova York, sempre com portões fechados e controle rígido de acesso. As imagens liberadas pela CBF mostram apenas exercícios físicos e treinos táticos sem o camisa 10. Dentro de campo, a história parece outra. O nível de intensidade que Neymar apresenta nesta manhã não combina com um primeiro trabalho depois de um mês parado. No futebol de alto rendimento, milagre não existe. Há planejamento, há silêncio e há estratégia.
Pressão externa, bastidores e a aposta em quatro atacantes
O retorno do craque acontece um dia depois de atuações exuberantes de Messi, Mbappé e Haaland em seus respectivos jogos pela Copa. O contraste amplifica o peso sobre a Seleção Brasileira, que ainda busca uma vitória convincente e convive com críticas à falta de protagonismo no Mundial. A chegada de Neymar ao treino funciona como resposta simbólica: o Brasil volta a colocar seu principal nome no tabuleiro.
A movimentação no CT deixa isso evidente. Integrantes da comissão técnica reforçam o discurso de calma, mas a presença da estrela muda o clima na prática. Jogadores se aproximam com frequência, trocam sorrisos, dividem conversas rápidas em inglês e espanhol com colegas de clubes europeus. O treino, que dura pouco mais de 1h30, tem a imprensa liberada por apenas 15 minutos. Mesmo assim, é tempo suficiente para flagrar um esboço de time que explica parte do plano de Carlo Ancelotti.
No campo mais afastado das câmeras, o treinador monta um time com Bruno Guimarães e Casemiro protegendo a frente da zaga. À frente deles, quatro atacantes: Luiz Henrique, Matheus Cunha, Endrick e Vinicius Júnior. Raphinha é poupado outra vez, desgastado após uma temporada longa pelo Barcelona, com mais de 50 jogos em nove meses. Danilo ocupa a vaga de Ibañez, muito criticado depois da atuação insegura contra Marrocos.
Ancelotti desenha um Brasil agressivo, com amplitude pelos lados e liberdade para o centroavante circular. O técnico insiste com Endrick, ainda que o atacante sinta incômodo físico e seja dúvida. Caso não tenha condições, Matheus Cunha tende a ser mantido como referência, mas o italiano não abre mão da ideia de quatro peças ofensivas. Quer gols, claro, mas insiste internamente em outra palavra: desempenho. A Copa não perdoa atuações mornas, sobretudo quando o elenco tem um craque em contagem regressiva para sua última participação em Mundial.
Neymar entra nesse cenário como acelerador de expectativas. A comissão trabalha com a possibilidade concreta de utilizá-lo já na sexta-feira, contra o Haiti, às 16h (horário de Brasília), na Filadélfia. A tendência é que comece no banco, com previsão de 15 a 30 minutos em campo, dependendo do andamento do jogo e da resposta física. O adversário é visto como o mais frágil do grupo, e a ordem é clara: o Brasil tem obrigação de vencer e convencer, com placar elástico.
Risco calculado, moral elevado e a “última dança” de Neymar
A volta antecipada de um jogador que se recupera de lesão sempre traz uma pergunta incômoda: vale o risco? Médicos e fisiologistas da Seleção garantem que a panturrilha direita está cicatrizada e que os exames de imagem não mostram resquícios do estiramento. O histórico, porém, não permite ingenuidade. Neymar convive com lesões em fases decisivas desde 2014, quando a joelhada nas costas o tirou da semifinal contra a Alemanha, no Mineirão. Em 2018 e 2022, problemas no pé e no tornozelo limitaram o rendimento em momentos-chave.
Desta vez, o discurso ao redor dele é diferente. Aos 34 anos, o camisa 10 assume que disputa sua última Copa do Mundo em alto nível. O retorno aos treinos, registrado em fotos e vídeos que correm o mundo em minutos, vira também peça de narrativa. A Seleção precisa mostrar vigor ofensivo e organização. Neymar precisa provar que ainda é capaz de decidir uma campanha inteira. Ambos entram em campo com algo a recuperar: o time, o respeito competitivo; o jogador, a imagem de líder técnico confiável sob pressão.
O impacto no vestiário aparece nas conversas reservadas. Jovens como Endrick e Vinicius Júnior tratam o retorno do ídolo como combustível emocional. A presença diária de um jogador com mais de 100 gols pela Seleção, campeão da Liga dos Campeões e protagonista em clubes europeus, altera a régua interna de cobrança. A simples ideia de dividir o ataque com Neymar muda mentalidades, eleva ambições e diminui margens para atuações discretas.
Fora de campo, a resposta é imediata. Em menos de duas horas, as principais manchetes esportivas da Europa e da América do Sul destacam o treino em Nova York. Portais italianos, espanhóis e ingleses descrevem a volta do brasileiro como “catártica”, “decisiva” e “fundamental” para o equilíbrio da Copa. Nas redes sociais, vídeos do primeiro toque de bola do camisa 10, do “bom dia” aos jornalistas e do corredor polonês somam milhões de visualizações ainda pela manhã.
O Brasil entra na reta final de preparação pressionado por um histórico recente irregular em Mundiais, sem título desde 2002. A equipe de Ancelotti tenta encontrar identidade em tempo recorde, combinando experiência e juventude, controle e explosão. Neymar, de novo, é o fio condutor dessa tentativa. A sexta-feira contra o Haiti deve oferecer apenas uma amostra do que o craque pode entregar fisicamente. A pergunta que o treino desta quarta deixa no ar é outra: a Seleção conseguirá acompanhar o ritmo da “última dança” de seu principal jogador antes que o relógio da Copa chegue ao fim?
