Ultimas

Trump adia assinatura de acordo com Irã após ataque de Israel a Beirute

Donald Trump adia, na manhã deste domingo (14), a assinatura de um acordo com o Irã após um ataque militar israelense em Beirute, mas garante que o documento ainda será formalizado hoje. O presidente dos Estados Unidos diz estar “muito insatisfeito” com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e afirma que a ofensiva “abalou” as negociações.

Crise em tempo real às vésperas da caneta

Trump conta que recebe a notícia do ataque cerca de uma hora antes do horário marcado para a assinatura, prevista para o fim da manhã de domingo. A informação chega quando sua equipe já prepara o protocolo para oficializar um memorando de entendimento com Teerã, ponto central da estratégia da Casa Branca para reduzir tensões com o regime iraniano.

Em entrevista exclusiva ao jornalista Barak Ravid, analista de política e assuntos globais da CNN, o presidente relata o choque diante da decisão de Israel. “Ligaram para mim e disseram: ‘Senhor, Israel está atacando Beirute’ — uma hora antes de assinarmos o acordo. Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. É muito ruim”, afirma, segundo relato também veiculado pelo canal israelense Channel 12.

O ataque não interrompe as negociações, mas força uma pausa delicada em um processo que Trump tenta vender como avanço histórico. “Estávamos programados para assinar o acordo esta manhã, e o ataque israelense em Beirute o atrasou. Acho que a assinatura ainda acontecerá mais tarde hoje, dentro de algumas horas. Mas o ataque israelense abalou as coisas”, diz o republicano.

O presidente já havia sinalizado desconforto horas antes, em publicação na Truth Social, sua plataforma de mensagens. No texto, critica de forma direta o aliado. O ataque a Beirute, escreve, “não deveria ter acontecido” diante da iminente assinatura do memorando com o Irã.

Tensão entre aliados e recado a Netanyahu

A reação pública de Trump expõe fissuras na relação entre Washington e Jerusalém em um momento de alta sensibilidade diplomática. Os dois países mantêm cooperação militar estreita há décadas e, sob governos anteriores, costumam alinhar discursos em crises no Oriente Médio. Desta vez, o presidente americano opta por jogar luz sobre o desacordo com o gabinete de Netanyahu.

Segundo Trump, ele fala diretamente com o premiê israelense depois do ataque e não suaviza o tom. O presidente afirma a Barak Ravid que comunica a Netanyahu estar “muito insatisfeito” com a decisão de lançar uma ofensiva justamente quando o entendimento com o Irã se aproxima da formalização. A conversa ocorre poucas horas depois de a equipe do premiê divulgar sinais de apoio ao esforço diplomático de Washington.

A operação em Beirute, ainda sem balanço oficial detalhado, entra no radar de chancelerias europeias e de aliados dos Estados Unidos na região. Embaixadas na capital libanesa acompanham o impacto imediato, enquanto especialistas avaliam o risco de escalada militar envolvendo o Hezbollah, aliado central do Irã no Líbano. Em 2023, conflitos pontuais na fronteira norte de Israel já haviam elevado o nível de alerta da ONU na área.

O acordo que Trump tenta fechar com Teerã busca estabelecer limites concretos para o programa nuclear iraniano e criar canais de verificação por agências internacionais. A Casa Branca apresenta o memorando como primeiro passo de um pacote mais amplo, com metas escalonadas em prazos de 6, 12 e 24 meses para reduzir atividades sensíveis e ampliar inspeções em instalações estratégicas.

Ao se aproximar da assinatura, o governo americano calcula ganhos políticos internos e externos. Um entendimento com o Irã serviria como vitrine de liderança em ano eleitoral e responderia à pressão de aliados europeus, que defendem estabilidade maior nas rotas de petróleo do Golfo Pérsico. O ataque em Beirute, porém, reabre dúvidas sobre a capacidade de Washington de conciliar sua aliança histórica com Israel e a tentativa de redesenhar o equilíbrio de forças na região.

Impacto regional e futuro do acordo

O adiamento de algumas horas cria um vácuo em que cada gesto é medido. Em Teerã, diplomatas avaliam se o ataque representa um sinal de fragilidade política de Trump diante de Netanyahu ou apenas um ruído tático. Em Beirute, autoridades libanesas tentam conter a percepção de que seu território volta a ser palco de disputas indiretas entre potências regionais.

Analistas de Oriente Médio lembram que a relação entre Estados Unidos, Israel e Irã é marcada por ciclos de aproximação e confronto desde a Revolução Islâmica de 1979. O acordo nuclear de 2015, que limitava o enriquecimento de urânio iraniano em troca da suspensão gradual de sanções, rui em 2018 após a decisão do próprio Trump de retirar os EUA do pacto. A tentativa de 2026 representa, na prática, um reposicionamento do presidente em relação a sua própria política externa.

O episódio deste domingo adiciona uma camada de incerteza a esse movimento. Se o memorando for assinado ainda hoje, como Trump insiste, o recado ao Irã será de que o governo americano mantém o curso apesar da pressão de um aliado-chave. Caso novas ações militares ocorram nas próximas semanas, o ambiente pode se deteriorar a ponto de paralisar a implementação de cláusulas já negociadas, como a liberação gradual de ativos iranianos congelados no exterior.

No tabuleiro interno israelense, o ataque a Beirute também tem efeito calculado. Netanyahu governa sustentado por uma coalizão de direita e extrema direita que vê o Irã como ameaça existencial e enxerga qualquer concessão como risco imediato à segurança do país. Um gesto de força militar, mesmo a poucas horas de um acordo entre Washington e Teerã, fala também ao seu público doméstico e pode ser usado para mostrar autonomia em relação à Casa Branca.

Para Trump, o desafio agora é traduzir essa turbulência em ganho político concreto. Se entregar um texto assinado ainda neste domingo, poderá argumentar que não cede a pressão e que impõe limites simultâneos a Teerã e a Jerusalém. Se o cronograma escorregar para os próximos dias, precisará convencer aliados e adversários de que o recuo é tático, não sinal de enfraquecimento. A resposta pode definir não só o futuro do acordo com o Irã, mas também o contorno da influência americana no Oriente Médio pelos próximos anos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *