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Suíça vai às urnas para decidir limite de 10 milhões de habitantes

Os suíços vão às urnas neste domingo (14) para decidir se o país deve limitar sua população a 10 milhões de habitantes até 2050. A votação, fruto de iniciativa popular, transforma em plebiscito nacional o embate sobre imigração, crescimento econômico e sustentabilidade em uma das democracias mais ricas da Europa.

Um teto para um país em rápido crescimento

A proposta, apoiada pelo Partido Popular Suíço (SVP, na sigla em alemão), surge após duas décadas de crescimento demográfico acelerado. Em 2002, a Suíça tinha 7,3 milhões de habitantes. Hoje são 9,1 milhões, dos quais 27% nasceram no exterior. O partido de direita apresenta a iniciativa como um freio necessário à pressão sobre moradia, transportes, serviços públicos e meio ambiente.

Os defensores afirmam que o país “perde o controle” sobre a imigração. “A imigração descontrolada está fazendo com que a Suíça não seja mais a Suíça”, diz Nils Fiechter, deputado do SVP no parlamento do cantão de Berna, de 29 anos. Para ele, a origem de problemas como escassez de moradias, trens lotados, escolas e serviços sociais sobrecarregados está diretamente ligada à entrada de estrangeiros.

O governo federal, a maioria dos demais partidos, entidades empresariais e sindicatos reagem com dureza. Chamam a proposta de “iniciativa do caos” e alertam para o risco de ruptura com a União Europeia e de falta aguda de mão de obra em setores essenciais. A Suíça não integra o bloco europeu, mas depende de uma teia de acordos bilaterais, entre eles o da livre circulação de pessoas, hoje em xeque.

Nas ruas, a disputa aparece em cartazes, debates locais e conversas em trens lotados. Muitos eleitores associam o crescimento populacional a aluguéis que disparam, seguros de saúde mais caros e congestionamentos diários. Outros veem na proposta um atalho perigoso para canalizar frustrações econômicas contra migrantes, sem atacar causas estruturais como o mercado imobiliário aquecido e a reforma da previdência.

Como o limite funcionaria — e quem seria afetado

O texto em votação determina que a população residente não deve ultrapassar 10 milhões de pessoas até 2050. Quando o país atingir 9,5 milhões de habitantes, o governo seria obrigado a adotar medidas para conter o crescimento. Entre as possibilidades aparecem a limitação de concessão de asilo, o fim do direito de reunificação familiar para trabalhadores estrangeiros e a revisão de tratados internacionais que facilitem a entrada de pessoas.

Se o teto de 10 milhões for alcançado, acordos que preveem a livre circulação de pessoas com a União Europeia teriam de ser rescindidos. O cenário alarma o empresariado suíço, que se apoia na integração com o mercado europeu para manter competitividade. “A UE ainda é, de longe, o parceiro comercial mais importante para a Suíça”, afirma Rudolf Minsch, economista-chefe da Economiesuisse, principal associação patronal do país. Ele alerta que uma ruptura poderia colocar em risco relações comerciais e regulatórias construídas ao longo de décadas.

A preocupação é concreta em setores como turismo e saúde. Cerca de metade dos trabalhadores de hotéis suíços é imigrante. Hospitais e casas de repouso também dependem fortemente de mão de obra estrangeira para suprir plantões e cuidados de longa duração. Num país em que 20% da população tem mais de 65 anos, economistas e sindicatos veem a chegada de jovens trabalhadores do exterior como parte da solução para financiar aposentadorias e cobrir a falta de profissionais qualificados.

Para a social-democrata Helin Genis, de 31 anos, eleita para o conselho da cidade de Berna e filha de imigrantes turcos, o plebiscito desloca o foco. “Não são os migrantes que determinam os níveis de aluguel. Não são os migrantes que aumentam os prêmios de seguro saúde. Nem são os migrantes que tomam decisões políticas sobre habitação, infraestrutura ou investimento social”, afirma. Ela vê a iniciativa como uma forma de desviar a atenção de reformas internas difíceis e de alimentar divisões identitárias.

A disputa em torno da proposta ecoa experiências internacionais bem distintas. Nenhum país fixou, até agora, um teto absoluto de população como o sugerido pelos suíços. A China tentou, por décadas, conter o crescimento com a política do filho único, hoje abandonada em meio ao envelhecimento acelerado. Democracias maduras na Europa e na América do Norte discutem limites para a entrada de migrantes, mas não cravam um número máximo de habitantes em suas constituições ou leis básicas.

Democracia direta em teste e medo de isolamento

O referendo sobre o teto de 10 milhões acontece em 14 de junho de 2026 e volta a expor a singularidade da democracia direta suíça. No sistema político do país, ativistas precisam reunir 100 mil assinaturas para levar quase qualquer tema a uma votação nacional. Dessa vez, o resultado pode mexer com os pilares da política migratória, com o modelo de bem-estar social e com o posicionamento internacional da Suíça.

Pesquisas recentes indicam corrida apertada. Levantamentos apontam 52% de intenção de voto contrária à proposta, 45% a favor e uma fatia relevante de indecisos. A margem é pequena o suficiente para alimentar incerteza, sobretudo em um país acostumado a reviravoltas de última hora em plebiscitos. A decisão sobre o teto populacional se torna, assim, um termômetro do humor da sociedade diante da imigração e da globalização.

O debate extrapola a fronteira migratória e entra na geopolítica. A Suíça sente os efeitos de um mundo mais tenso. O país paga mais caro por combustível desde a invasão russa da Ucrânia e acompanha com apreensão conflitos no Oriente Médio. Exportadores suíços também enfrentam tarifas punitivas dos Estados Unidos, que chegaram a 39% para alguns produtos, ainda sem acordo definitivo para redução a 15%. Nesse cenário, parte do establishment teme que um confronto com Bruxelas isole ainda mais o país.

Cartazes contra o limite populacional exploram esse medo. Neles, um Donald Trump caricatural aparece ao lado das silhuetas de Vladimir Putin e Xi Jinping, sob a pergunta: “Romper com a Europa, em um momento como este?” O recado mira eleitores moderados que valorizam a neutralidade suíça, mas não querem ver o país desancorado de seus vizinhos europeus em meio a turbulências globais.

O parlamentar social-democrata Jon Pult resume essa angústia. Seu maior temor, diz, é ver a Suíça “sozinha neste mundo instável e perigoso”. Para ele, a tentativa de fixar um teto populacional pode desencadear um efeito dominó de rupturas diplomáticas e econômicas difícil de reverter. Já Fiechter rejeita a ideia de isolamento como “alarmismo” e insiste que os acordos com a Suíça seguem “inteiramente do interesse da UE”.

O que está em jogo no dia seguinte à votação

O resultado do referendo pressionará o governo suíço a se reposicionar. Se a iniciativa for aprovada, Berna terá de desenhar, em poucos anos, um conjunto de medidas para frear a curva demográfica. Isso envolve renegociar tratados com a União Europeia, redesenhar políticas de asilo, rever regras de reunificação familiar e recalcular projeções para o mercado de trabalho e a previdência.

Uma vitória do “não” não encerra o debate. O plebiscito já cristaliza preocupações reais com o custo de vida, o acesso à moradia e a sobrecarga da infraestrutura urbana. A pressão por respostas concretas tende a crescer, inclusive entre quem rejeita o teto de 10 milhões. A disputa entre a visão de Fiechter, que diz querer proteger “um lugar onde vale a pena viver, seguro e próspero”, e a de Genis, que defende investir em serviços públicos fortes e moradia acessível, continuará a moldar a política suíça.

O plebiscito deste domingo testa até que ponto um país disposto a consultar seus cidadãos sobre quase tudo aceita também impor um limite a si próprio. A resposta, qualquer que seja, será observada por governos que enfrentam dilemas parecidos sobre envelhecimento, pressão migratória e sustentabilidade. A pergunta que permanece após a contagem dos votos é se o futuro de um país cabe, de fato, em um número fixo.

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