Peru vive reta final de apuração com Fujimori e Sánchez separados por 18 mil votos
O Peru amanhece neste domingo (14) sem saber quem será seu próximo presidente. Com 98,5% das urnas apuradas, Keiko Fujimori e Roberto Sánchez seguem separados por apenas 18.488 votos, em uma disputa que expõe a desconfiança nas instituições e o desgaste da política no país.
Uma eleição decidida no limite e sob desconfiança
A contagem avança em ritmo lento desde a noite de sexta-feira (12) e mantém o país em suspensão. Com praticamente todos os votos contabilizados, Keiko Fujimori, candidata de direita, aparece com 50,051% dos votos válidos. Roberto Sánchez, de esquerda, soma 49,949%. A diferença, inferior a 0,2 ponto percentual, alimenta a tensão política e o temor de contestações judiciais.
A disputa se concentra agora nas últimas atas locais e nos votos do exterior, que historicamente pesam em eleições apertadas no Peru. Na diáspora, onde 95,1% das urnas já foram processadas, Fujimori lidera com folga: tem 63,3% dos votos, contra 36,6% de Sánchez. Cada pacote de cédulas que chega dos consulados pode redefinir, voto a voto, o quadro desta madrugada.
Desde segunda-feira (8), a apuração se transforma em uma montanha-russa. Sánchez chegou a abrir vantagem de cerca de 50 mil votos naquele dia, quando 95,7% das urnas estavam apuradas. Ao longo da semana, a diferença encolheu, inverteu de lado e voltou a crescer, em um movimento que refletiu a entrada gradual dos votos urbanos tardios e, sobretudo, dos peruanos que vivem fora do país, mais inclinados a Fujimori.
O vai-e-vem numérico reforça a sensação de fragilidade do sistema político. “Esta é uma eleição sem liderança sólida, com grande desconfiança no sistema eleitoral”, avalia o analista político Jeffrey Radzinsky. Para ele, “a figura do presidente da República perdeu peso no imaginário coletivo”, depois de anos de crises, renúncias e quedas sucessivas de mandatários.
Crise de legitimidade e país fraturado
O contexto ajuda a explicar o clima de nervosismo que domina Lima e outras grandes cidades. Em uma década, o Peru escolhe agora seu nono presidente. Quatro ex-chefes de Estado estão presos por corrupção. O atual pleito nasce dessa sucessão de rupturas e tenta, sem sucesso, recompor alguma estabilidade. A percepção, porém, é de que o novo governo já começa cercado de questionamentos.
As campanhas de Fujimori e Sánchez refletem essa crise de confiança. Urpi Torrado, CEO da empresa de pesquisas Datum Internacional, resume o sentimento nas ruas: grande parte do voto é de rejeição, não de entusiasmo. “Muitos peruanos escolhem o que consideram o menos pior”, afirma. A leitura ajuda a entender por que nenhum dos dois consegue construir uma maioria confortável, mesmo em um cenário de polarização intensa.
Fujimori disputa a Presidência pela quarta vez. Herdeira política do ex-presidente Alberto Fujimori, morto na prisão, ela aposta em uma agenda de linha dura contra o crime, evocando o período em que o pai enfrentou o terrorismo, mas também convivendo com o peso de um legado marcado por violações de direitos humanos e denúncias de corrupção. Sua base mais fiel se concentra em setores que priorizam segurança e ordem, além de parte da classe média urbana.
Sánchez tenta ocupar o lugar deixado pela esquerda de Pedro Castillo, hoje preso. Menos estridente que o antigo aliado, moderou propostas econômicas que assustavam investidores e classe média, reduziu o tom de confronto com o empresariado e acenou ao centro. A promessa é de reformas graduais, com foco em serviços públicos e combate à desigualdade, sem ruptura abrupta com o modelo econômico.
O eleitor, porém, parece pouco convencido. Pesquisas ao longo da campanha mostraram rejeições altas para os dois lados. Em bairros populares de Lima, o relato se repete: a escolha é feita “sem gosto”, na tentativa de evitar o adversário. A sensação de que qualquer governo será fraco alimenta apostas de que a crise não termina com o anúncio do vencedor.
Governo sob pressão antes mesmo de começar
O eleito herdará um Congresso fragmentado, em que nenhuma força política tem maioria estável. Essa divisão se mostrou letal para os últimos presidentes, derrubados por processos de impeachment relâmpago ou empurrados à renúncia diante de bloqueios permanentes a suas pautas. Quase metade dos cidadãos acredita que o próximo chefe de Estado também não concluirá o mandato de cinco anos.
A agenda que aguarda o futuro governo combina desafios imediatos. A criminalidade cresce nas grandes cidades, com relatos diários de extorsões, sequestros relâmpago e circulação de facções estrangeiras. A economia dá sinais de cansaço, com desaceleração do investimento e queda de confiança empresarial diante do quadro de instabilidade. A desilusão com a política aprofunda o afastamento entre a população e as instituições.
Nesse cenário, cada voto conta, mas também cada gesto após o anúncio do resultado. Um desfecho com margem tão estreita pode alimentar pedidos de recontagem, denúncias de fraude e batalhas judiciais. A lembrança de pleitos recentes na América Latina, marcados por protestos de rua e tentativas de deslegitimar tribunais eleitorais, está presente em analistas e em embaixadas estrangeiras em Lima.
As campanhas mantêm cautela pública enquanto acompanham, minuto a minuto, a atualização dos dados. Aliados de Fujimori observam com atenção o avanço da apuração no exterior, onde a candidata lidera desde o início. A equipe de Sánchez mira sobretudo as regiões andinas e áreas rurais, que em eleições passadas garantiram viradas na reta final.
Reta final em aberto e um país à espera
A contagem oficial entra nas últimas horas sem garantia de desfecho rápido. A autoridade eleitoral trabalha para concluir a apuração com segurança jurídica, sob pressão de prazos políticos e da ansiedade nas ruas. Cada atualização da porcentagem de urnas processadas, mesmo que suba apenas 0,1 ponto, ganha repercussão imediata nas redes sociais e nos canais de notícia.
Enquanto o número final não chega, o Peru se vê obrigado a encarar a pergunta que a eleição já cristaliza: qualquer que seja o vencedor, haverá espaço político para governar? A resposta não virá apenas das urnas, mas da disposição de Congresso, partidos e sociedade em aceitar o resultado e reconstruir alguma confiança num sistema que muitos consideram esgotado.
