Papa Leão XIV abençoa torre central da Sagrada Família em Barcelona
O papa Leão XIV celebra nesta quarta-feira, 10 de junho de 2026, a missa solene que marca a bênção da torre central recém-concluída da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona. A cerimônia transforma o templo inacabado de Antoni Gaudí em palco de um espetáculo de luzes, fogos de artifício e disputas urbanas que extrapolam os limites da fé.
Fé, monumento e cidade sob os refletores
Barcelona se volta para a Sagrada Família enquanto o pontífice, sentado em um trono branco diante da igreja, inaugura a nova torre coroada por uma cruz iluminada. No céu, fogos de artifício desenham o rosto de Gaudí, morto em 10 de junho de 1926, como se o arquiteto voltasse por instantes ao canteiro de obras que marcou sua vida.
Leão é o terceiro papa a visitar o templo, em construção há 144 anos, e encontra uma basílica que mistura devoção, turismo em massa e tensão social. Dentro da igreja, autoridades civis e religiosas acompanham a missa. Do lado de fora, moradores penduram fitas pretas nas janelas em protesto contra a possibilidade de perder a casa em nome da expansão da obra.
Na homilia, o pontífice compara o avanço lento da construção ao percurso humano. “Esta igreja é um único edifício feito de muitas pedras”, diz. “Uma casa que cresce continuamente ao longo dos anos seguindo um único plano.” As palavras ecoam sob colunas que lembram árvores e vitrais que lançam cores sobre o piso, enquanto a plateia acompanha o show de luzes projetadas nas fachadas que parecem um recife de coral esculpido.
O evento marca a conclusão da torre central, resultado de décadas de cálculo estrutural, debates arquitetônicos e disputas sobre a fidelidade ao projeto original. Um dos responsáveis pela obra, o arquiteto Mauricio Cortés, trabalha no templo há 20 anos, metade do tempo dedicado por Gaudí. “Estou na metade do caminho”, brinca, diante da perspectiva de ao menos mais uma década de trabalhos nas torres remanescentes.
Turismo em alta, moradores sob pressão
A bênção da nova torre chega em um momento em que a Sagrada Família consolida a posição de ícone global, comparado pelo governo municipal a um “Taj Mahal da Europa”. O templo recebe mais de 5 milhões de visitantes por ano e injeta dinheiro em hotéis, restaurantes, comércio e serviços que orbitam o monumento. A cada grande cerimônia, o fluxo aumenta.
Esse sucesso, porém, tem custo alto para quem vive no entorno imediato. Alugueis sobem, apartamentos se convertem em hospedagem para turistas e o trânsito de entregadores e grupos organizados domina calçadas estreitas. “A situação aqui é horrível”, afirma Salvador Barroso, representante da Associação dos Afetados pela Sagrada Família, que mora em um prédio em frente ao templo. Ele teme que o imóvel seja demolido para abrir espaço à chamada Fachada da Glória, planejada como entrada monumental voltada para a avenida alguns metros abaixo.
Barroso diz que muitos moradores combinam pendurar laços pretos nas janelas durante a visita papal. “Não vejo como um bom cristão poderia aceitar isso”, afirma, em referência à possibilidade de deslocamento de centenas de famílias. Em um prédio vizinho, um grande cartaz mostra construções sendo esmagadas por uma bota em forma de Sagrada Família.
A fundação responsável pela basílica sustenta que apenas cumpre o desenho de Gaudí. Segundo o presidente do conselho de construção, Esteve Camps, a igreja “não vai recuar desse plano” e segue “à risca” o projeto original, que previa uma ampla escadaria ligando a fachada principal ao nível inferior da avenida. A prefeitura de Barcelona, que detém a palavra final, já indica que a instituição precisará bancar todas as realocações, caso as demolições avancem.
Moradores contestam essa leitura. Argumentam que os registros mais detalhados do plano de Gaudí foram destruídos por anarquistas durante a Guerra Civil espanhola, entre 1936 e 1939, e que não há provas concretas da escadaria proposta. Em meio à disputa técnica, o conflito se traduz em um medo cotidiano. “Eles podem nos expulsar por causa das obras da Sagrada Família”, diz Pedro Deane, chef argentino de 39 anos, inquilino em um dos prédios ameaçados.
Uma moradora que comprou o apartamento em 1980 lembra que, à época, ouvia apenas “o som de um único martelo batendo na pedra” ao longo do dia. Desde os Jogos Olímpicos de 1992, conta, o bairro se transforma em vitrine de Barcelona para o mundo. O barulho das obras e o vaivém de turistas, artistas de rua e vendedores de lembranças agora definem o cotidiano do quarteirão.
Obra interminável e disputas que não cessam
A Sagrada Família nasce em 1882 como um templo expiatório financiado por doações, ganha o traço radical de Gaudí a partir de 1883 e se torna um símbolo da cidade. Desde então, atravessa mudanças de regime político, uma guerra civil, décadas de interrupções e retomadas. Em 2010, o templo é consagrado como basílica pelo Vaticano. Mesmo assim, segue conhecido como “a igreja que nunca termina”, na definição do arcebispo de Tarragona, Joan Planellas.
A política espanhola usa o monumento como cenário. Durante a Guerra Civil, o interior é vandalizado por grupos anticlericais. Hoje, a presença do primeiro-ministro Pedro Sánchez, ateu declarado, na missa ao lado da esposa, rende críticas da oposição conservadora, que o acusa de tentar melhorar a própria imagem com a proximidade do popular pontífice. O rei também assiste à cerimônia, mas é a própria arquitetura que monopoliza as câmeras.
As torres acima da Fachada da Glória, ainda em fase de construção, podem levar mais dez anos até ficarem prontas, segundo Cortés. Quando o papa deixa Barcelona, o canteiro volta ao ritmo de sempre, com andaimes, gruas, turistas em filas longas e moradores divididos entre o orgulho do cartão-postal e o medo de desaparecer sob ele.
Para o arcebispo Planellas, a noite de bênção da torre central representa algo maior que um marco de engenharia. “Este evento é mais do que a inauguração de uma torre”, afirma. “É uma homenagem a toda uma construção destinada a elevar o espírito humano.” O discurso procura conciliar a ideia de um legado espiritual com as feridas abertas no entorno imediato.
Entre fitas pretas nas janelas, fogos que desenham Gaudí no céu e um papa que compara pedra e vida, a Sagrada Família segue no centro de um debate que mistura patrimônio, turismo e direito à moradia. As próximas decisões da prefeitura sobre a expansão da Fachada da Glória indicarão quantas famílias pagarão a conta do novo impulso internacional da basílica. A obra continua, e a pergunta que fica é se a cidade conseguirá concluir o templo sem desmontar, junto com as fachadas, parte da própria alma de Barcelona.
