Brasileira vive terror em Belfast durante onda de ataques a imigrantes
A caminhoneira brasileira Marcela Porto, conhecida como Mulher Abacaxi, relata viver sob terror em Belfast após protestos violentos contra imigrantes, iniciados depois de um esfaqueamento em 8 de junho de 2026. Com casas invadidas e incêndios criminosos, ela diz ter medo de voltar para o próprio apartamento e se refugia na casa de uma amiga.
Hostilidade nas ruas após ataque em 8 de junho
Marcela vive há anos no Reino Unido, mas diz que nunca se sentiu tão exposta quanto agora na capital da Irlanda do Norte. A violência irrompe após um imigrante sudanês esfaquear um irlandês no dia 8, deixando a vítima entre a vida e a morte no hospital. O crime funciona como gatilho para uma onda de hostilidade que rapidamente deixa de ser um protesto isolado e se transforma em caçada a estrangeiros.
Na noite seguinte ao ataque, grupos passam a se concentrar em bairros com grande presença de imigrantes. Relatos se multiplicam nas redes sociais. Casas são invadidas, janelas estilhaçadas, carros incendiados. Marcela acompanha os vídeos pelo celular enquanto tenta se manter em silêncio no sofá da amiga. “Teve muito protesto aqui ontem. As pessoas foram para as ruas, estão entrando em casas e ateando fogo contra imigrantes. Eu, como imigrante aqui, estou morrendo de medo”, afirma em uma sequência de Stories.
A rainha da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que concilia a vida na estrada como caminhoneira com apresentações no Carnaval brasileiro, transforma o perfil no Instagram em diário de guerra improvisado. Ela conta que recebeu mensagens de compatriotas de diferentes bairros de Belfast, todos com o mesmo pedido: ficar em casa, fechar portas e janelas, evitar qualquer deslocamento desnecessário. “Todo mundo está falando para os imigrantes não irem para a rua, especialmente os brasileiros”, relata.
Medo dentro de casa e isolamento forçado
A recomendação informal ecoa em grupos de WhatsApp de trabalhadores estrangeiros, estudantes e famílias que escolheram Belfast para viver. Brasileiros, africanos, asiáticos e europeus do Leste passam a organizar rotinas emergenciais: compras adiantadas, remédios estocados, deslocamentos reduzidos ao mínimo. A cidade que tenta se consolidar como polo de tecnologia e serviços agora impõe um toque de recolher silencioso aos não nativos.
Marcela descreve um cotidiano em suspensão. A mala segue pronta desde o início da semana, mas a ideia de atravessar a cidade até o próprio apartamento é descartada. “A minha sorte é que estou na casa de uma amiga. E nem pretendo voltar para a minha casa, que fica em Belfast. Está muito perigoso”, diz. Ela conta que passa longos períodos sem abrir as cortinas, com a televisão em volume baixo e o celular sempre à mão para acompanhar as últimas notícias.
A tensão pesa mais para quem carrega no rosto, no sotaque ou na cor da pele os sinais da migração. O episódio expõe uma fratura que atravessa a Irlanda do Norte desde antes da crise econômica pós-Brexit, mas ganha contornos mais visíveis quando um crime individual serve de estopim para ataques coletivos. “Estão com ódio dos imigrantes porque a vítima está entre a vida e a morte no hospital”, resume Marcela, tentando explicar o clima nas ruas.
Em bairros onde vivem muitos trabalhadores estrangeiros, a presença de crianças e idosos não impede que casas sejam marcadas como alvos. Moradores relatam grupos que passam devagar com carros e motos, observando fachadas, identificando bandeiras, placas em outros idiomas ou detalhes que denunciem famílias de fora. A sensação é de que qualquer referência cultural diferente pode ser interpretada como provocação.
Impacto sobre brasileiros e pressão por respostas
O medo chega também aos familiares no Brasil, que acompanham o noticiário e o relato de influenciadores como Marcela. Pais, irmãos e amigos cobram decisões rápidas. Alguns sugerem a volta imediata ao país, outros pedem calma e esperam por uma estabilização que ainda não se concretiza. A distância aumenta a sensação de impotência. Para os brasileiros que sustentam famílias em reais com salários em libras, a alternativa de retorno repentino envolve perda de renda e ruptura de planos construídos ao longo de anos.
As cenas de invasões e incêndios reacendem debates sobre xenofobia e políticas migratórias no Reino Unido. Belfast, que tenta se afastar da imagem de cidade marcada por décadas de conflito sectário entre católicos e protestantes, volta às manchetes internacionais por causa da violência. A diferença agora é o alvo: não são mais grupos políticos rivais, mas comunidades de estrangeiros que hoje representam parcela relevante da força de trabalho local.
Especialistas em direitos humanos alertam que episódios como o de Belfast tendem a deixar marcas de longo prazo. Ataques desta natureza desorganizam redes de vizinhança, estimulam desconfiança mútua e empurram imigrantes para a invisibilidade. A orientação para evitar ruas, bares, escolas de idioma e centros comunitários compromete a integração social e dificulta o acesso a serviços básicos. Em poucas semanas, uma cidade pode regredir anos no esforço de acolhimento.
Marcela, que se pauta pela rotina de estrada e pela exposição pública no Carnaval, experimenta agora o extremo oposto. “Estamos eu e minha amiga quietinhas em casa, porque eles estão entrando nas casas e ateando fogo”, conta, em tom de incredulidade. A rainha de bateria que costuma cruzar avenidas lotadas descreve o silêncio das ruas estreitas de Belfast como algo mais ameaçador do que o barulho de qualquer desfile.
O que vem pela frente para imigrantes em Belfast
A continuidade dos protestos violentos nas semanas seguintes ao esfaqueamento pode pressionar autoridades locais a endurecer a segurança em áreas sensíveis e ampliar o monitoramento de grupos extremistas. Organizações de imigrantes cobram canais diretos com o poder público, linhas de emergência em vários idiomas e abrigos temporários para quem não se sente seguro em casa. A resposta a esses pedidos tende a definir, nos próximos meses, se Belfast reforça a imagem de cidade acolhedora ou consolida a reputação de território hostil a estrangeiros.
Marcela afirma que, por enquanto, pensa apenas em atravessar o próximo dia sem se expor. O caminhão segue parado, o retorno ao Brasil não está descartado, mas também não cabe no orçamento imediato. A vida que ela construiu na Irlanda do Norte depende da recuperação da normalidade nas ruas e da disposição da sociedade local em separar a responsabilidade individual de um agressor do direito coletivo de milhares de imigrantes viverem em paz. A pergunta que permanece, para ela e para tantos outros, é se Belfast conseguirá fazer essa distinção a tempo de evitar novas noites de fogo.
