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Papa abençoa torre da Sagrada Família em meio a conflito por moradia

O papa Leão XIV abençoa nesta quarta-feira (10) a torre central recém-concluída da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, com missa solene e show de luzes. A celebração, que marca um novo capítulo na obra de Antoni Gaudí após 144 anos de construção, reacende a disputa com moradores ameaçados de despejo pela expansão do templo.

Fé, espetáculo e pressão imobiliária no mesmo quarteirão

A noite cai sobre Barcelona enquanto refletores desenham o contorno da nova torre no céu e fogos de artifício explodem sobre a cruz iluminada. Dentro da basílica lotada por cardeais, políticos e convidados, Leão XIV fala sobre pedras, tempo e paciência. Do lado de fora, moradores penduram fitas pretas nas janelas, em silêncio calculado.

Sentado em um trono branco montado diante da igreja, o pontífice acompanha o espetáculo de luzes que projeta o rosto de Gaudí sobre a torre recém-aberta. “Esta igreja é um único edifício feito de muitas pedras. Uma casa que cresce continuamente ao longo dos anos seguindo um único plano”, afirma, em homilia que associa a lentidão das obras ao percurso da vida.

A bênção da torre central, concluída depois de décadas de trabalho e sucessivos avanços tecnológicos, consolida a Sagrada Família como vitrine global do turismo religioso e arquitetônico. A basílica já recebe mais de 5 milhões de visitantes por ano, número que autoridades catalãs pretendem usar para reforçar a imagem do templo como “Taj Mahal da Europa”.

No entorno imediato, porém, o aumento do fluxo de turistas pressiona um mercado imobiliário já estrangulado. Aluguéis sobem, apartamentos se convertem em hospedagens de curta temporada e moradores antigos veem os prédios onde cresceram entrar no radar da expansão do templo. É nesse cruzamento entre devoção e sobrevivência cotidiana que a cerimônia desta quarta-feira se insere.

A batalha pela Fachada da Glória e pelos apartamentos vizinhos

No centro da disputa está a chamada Fachada da Glória, projetada como futura entrada principal da Sagrada Família. A fundação que administra a obra afirma que Gaudí previa uma ampla escadaria conectando essa fachada à avenida logo abaixo, o que exigiria a remoção de quarteirões inteiros e o deslocamento de centenas de famílias. “A igreja não vai recuar desse plano”, diz Esteve Camps, presidente do conselho de construção, que garante seguir “à risca” o projeto original do arquiteto.

Moradores contestam. Lembram que muitos dos desenhos e modelos em gesso de Gaudí foram destruídos por anarquistas durante a Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939, e dizem não haver provas robustas da escadaria monumental. “A situação aqui é horrível”, relata Salvador Barroso, representante da Associação dos Afetados pela Sagrada Família, que vive em um prédio de frente para a igreja. “Não vejo como um bom cristão poderia aceitar isso.”

Alguns apartamentos ameaçados foram comprados ainda na década de 1980, quando a Sagrada Família era um canteiro de obras tímido e se ouvia, como lembra uma moradora, “apenas o som de um martelo batendo na pedra”. Desde os Jogos Olímpicos de 1992, o bairro muda de ritmo: chegam os ônibus de excursão, as filas serpenteiam pelas calçadas e surgem lojas de lembrança em sequência, onde antes havia padarias e pequenos comércios.

Hoje, artistas de rua, vendedores ambulantes e grupos de turistas ocupam a mesma calçada por onde circulam entregadores de bicicleta, que desafiam pedestres e carros em alta velocidade. “Eles são mais assustadores”, brinca o arquiteto Mauricio Cortés, responsável pela torre central recém-benta, ao lembrar que Gaudí morreu atropelado por um bonde em 10 de junho de 1926. Cortés trabalha há 20 anos no projeto e calcula mais uma década de obras nas torres da fachada principal. “Estou na metade do caminho”, diz.

Enquanto isso, cartazes em prédios da vizinhança mostram ilustrações de construções esmagadas por uma bota em formato da Sagrada Família. Em outro apartamento, o chef argentino Pedro Deane, 39, teme pelo futuro do aluguel. “Eles podem nos expulsar por causa das obras da Sagrada Família”, afirma. A professora de inglês Daria Lapina, 32, nascida em Moscou, resume a sensação de incerteza: “Já existe uma crise habitacional aqui, e ainda vão deslocar centenas de famílias? Como isso vai funcionar?”

Turismo em alta, crise habitacional exposta

A prefeitura de Barcelona admite a tensão. Caberá ao governo municipal autorizar ou não a abertura da passagem monumental e definir o destino dos prédios ameaçados, hoje ocupados por famílias e inquilinos de longa data. A gestão já indica que qualquer realocação terá de ser paga pela fundação da basílica. Não há, porém, calendário nem solução negociada.

O impasse ocorre em meio a uma crise habitacional aguda, alimentada pelo crescimento do turismo, pela conversão de imóveis em apartamentos para temporada e pela oferta limitada de moradia permanente. Nos bairros ao redor da Sagrada Família, moradores relatam aumentos de aluguel acima da inflação, pressão para desocupação e ofertas de compra inferior ao valor de mercado para facilitar futuras demolições.

As obras, por sua vez, parecem longe do fim. A Sagrada Família está em construção desde 1882, ou 144 anos até 2026, e se torna, nas palavras do arcebispo de Tarragona, Joan Planellas, “uma igreja que nunca termina”. A basílica atravessa monarquias, ditaduras, repúblicas, guerras e crises econômicas, sem que o projeto chegue à conclusão prevista por Gaudí. Durante a Guerra Civil, o templo sofre vandalismo de grupos anticlericais e tem seu ritmo drasticamente reduzido.

Na missa desta quarta, o passado conturbado e o presente conflituoso se encontram numa nave iluminada por vitrais que lançam prismas coloridos sobre colunas em forma de árvores. Leão XIV celebra o rito cercado por fachadas que lembram recifes de coral de pedra, com figuras bíblicas, músicos angelicais e soldados romanos em alto-relevo. No banco de autoridades, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ateu declarado, acompanha o evento ao lado da esposa, alvo de críticas da oposição conservadora, que o acusa de buscar ganho de imagem com a proximidade do papa.

O protagonismo, porém, segue com o edifício. “Este evento é mais do que a inauguração de uma torre. É uma homenagem a toda uma construção destinada a elevar o espírito humano”, afirma Planellas. Para muitos moradores, o espírito que mais importa hoje é outro: o direito de permanecer onde vivem, em uma Barcelona que se converte, dia após dia, em vitrine global e terreno caro.

Decisão política adiada e futuro em disputa

Nos próximos meses, a prefeitura de Barcelona deve intensificar conversas com a fundação da Sagrada Família e com associações de moradores para definir o traçado da expansão. Técnicos estudam alternativas intermediárias, como reduzir a largura da escadaria ou preservar alguns edifícios, mas nada indica acordo fácil. A fundação insiste em “respeitar Gaudí”; os vizinhos pedem que o direito à moradia pese tanto quanto a fidelidade ao desenho original.

A projeção internacional reforçada pela visita do papa, terceira de um pontífice à basílica, tende a turbinar ainda mais a procura por ingressos e hospedagem na região, o que amplia a pressão sobre o mercado imobiliário local. A cidade se vê obrigada a discutir políticas mais duras para aluguel de curto prazo, regras de uso do solo e mecanismos de proteção para famílias em áreas turísticas.

Do lado da igreja, o cronograma segue aberto. As torres da fachada principal podem levar pelo menos mais dez anos para ficarem prontas, segundo Cortés. Ao fim da cerimônia, a iluminação se apaga aos poucos e o bairro volta ao ruído cotidiano de motos, bicicletas e turistas tardios. Nas janelas, as fitas pretas continuam penduradas, à espera de uma resposta que não depende apenas do Vaticano ou da devoção dos fiéis, mas de decisões políticas sobre que cidade Barcelona quer ser.

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