Número de refugiados cai pela 1ª vez em década, mas à custa de retornos arriscados
A população mundial de refugiados e deslocados internos cai pela primeira vez em dez anos, em 2025, para 117,8 milhões de pessoas. O recuo de 4%, divulgado nesta quinta-feira (11) pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), não significa alívio humanitário: a redução vem de um salto de 50% nos retornos a países ainda devastados por guerras, crises políticas e colapso econômico.
Retorno em massa sem condições mínimas de segurança
O relatório, que analisa os deslocamentos forçados em 2025, mostra um quadro ambíguo. De um lado, cresce o número de pessoas que deixam o exílio e voltam para casa. De outro, esses retornos ocorrem, em grande parte, em cenários que continuam hostis, com violência difusa, infraestrutura destruída e serviços básicos colapsados.
Segundo o Acnur, 14,7 milhões de refugiados e deslocados internos retornam a seus países ou cidades de origem em 2025. É o segundo maior volume de retornados em 60 anos de registros. Essa movimentação é o motor da queda nas estatísticas globais, mas não traduz, necessariamente, paz ou reconstrução. Em muitos casos, indica apenas que as pessoas ficam sem opção.
O Afeganistão simboliza esse impasse. Pressionados por mudanças nas políticas migratórias do Irã e do Paquistão, centenas de milhares de afegãos deixam países que, por anos, funcionaram como refúgio precário. O relatório registra que 1,38 milhão de afegãos voltam do Irã em 2025, em meio à guerra travada por Estados Unidos e Israel contra Teerã e ao endurecimento das regras iranianas. Outros 559 mil são forçados a sair do Paquistão, em um movimento que o documento descreve como não voluntário.
Acnur destaca que boa parte desses retornos ocorre para áreas onde a segurança é frágil e o acesso a moradia, saúde e educação é mínimo. “A maioria dos retornos ocorreu em circunstâncias adversas”, afirma o relatório. Em termos simples, famílias que fugiram de bombas e perseguições voltam a casas destruídas, bairros esvaziados e empregos inexistentes.
Na Síria, a dinâmica muda após a queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, mas o cenário segue instável. Em 2025, cerca de 1,3 milhão de sírios retornam do exterior, quase três vezes o número do ano anterior, enquanto 2 milhões de deslocados internos voltam para suas cidades. A guerra aberta arrefece, mas o país permanece estraçalhado, com episódios de violência no sul, no norte e na faixa costeira.
Pressão sobre países receptores e risco de novos ciclos de fuga
O recuo no total de deslocados não reduz a pressão sobre países que seguem na linha de frente da acolhida. Em 2025, o número de refugiados no mundo cai 3,5%, para 35,6 milhões, mas milhões continuam concentrados em poucos territórios. Colômbia lidera a lista, com 2,8 milhões, seguida de Alemanha (2,7 milhões), Turquia (2,4 milhões), Uganda (1,9 milhão), Irã (1,7 milhão), Chade (1,5 milhão) e Paquistão (1,3 milhão).
O Brasil consolida o papel de porta de entrada para venezuelanos. O país abriga 699 mil pessoas dessa nacionalidade, de um total de mais de 7 milhões que deixaram a Venezuela desde o início da crise. A principal rota segue em direção à Colômbia, que recebe 2,8 milhões de venezuelanos, seguida por Peru (1,1 milhão), Chile (662,6 mil) e Equador (435,8 mil).
Na própria Venezuela, o relatório registra um movimento de retorno, embalado pela percepção de que a situação econômica e política melhora gradualmente. O regime em Caracas estima que mais de 1,2 milhão de pessoas voltam ao país desde 2018. Ainda assim, o número de venezuelanos deslocados continua entre os maiores do planeta, e a estabilidade desse retorno segue em aberto.
O Sudão vive uma dinâmica parecida. O conflito entra no quarto ano, e áreas antes dominadas por combates passam a registrar tímido refluxo da violência. Em 2025, 651,5 mil refugiados sudaneses e 2,9 milhões de deslocados internos retornam para seu país ou para as cidades de origem. As frentes de batalha, porém, permanecem ativas em outras regiões, o que mantém o risco de novos deslocamentos em massa.
A Ucrânia segue como um dos epicentros da crise global. Após quatro anos de guerra, o número de refugiados ucranianos aumenta 2%, chegando a 5,2 milhões no fim de 2025. Cerca de 95% deles estão na Europa, principalmente em Alemanha (1,2 milhão), Polônia (972,3 mil), República Tcheca (393 mil), Reino Unido (270,5 mil) e Espanha (251,3 mil). O fluxo de saída desacelera, mas não cessa, o que mostra a permanência da insegurança e da destruição em regiões-chave do país.
Os deslocamentos continuam intensos. Só em 2025, quase 5,4 milhões de pessoas cruzam fronteiras para buscar segurança em outros países. Oito nações concentram quase 60% dessas novas fugas: Sudão (952,7 mil), Ucrânia (788,1 mil), Venezuela (455,3 mil), Sudão do Sul (232,8 mil), Burkina Fasso (221,3 mil), Afeganistão (191,4 mil), Mali (177,2 mil) e Mianmar (165,4 mil). O mapa revela que a combinação de conflitos armados, colapso institucional e crise econômica segue empurrando populações inteiras para fora de casa.
O impacto é visível nas Américas. A região passa a abrigar quase 23 milhões de deslocados à força, chegando a 22,8 milhões de pessoas. O índice faz do continente a área com a maior taxa de deslocamento do mundo. O peso recai sobretudo sobre Venezuela e Haiti, este último com aumento de 38% no número de deslocados internos em meio à deterioração da segurança e do sistema político.
Redução frágil e futuro incerto da proteção internacional
O relatório do Acnur reforça que a queda de 4% no total de refugiados e deslocados internos é menos um sinal de solução e mais um alerta sobre o esgotamento das rotas de fuga. Em muitos países, fronteiras se fecham, regras de asilo endurecem e a violência se aproxima dos últimos refúgios possíveis. Nessas circunstâncias, voltar para casa deixa de ser escolha e vira imposição.
A própria definição legal é posta à prova. Refugiado é quem cruza a fronteira para escapar de perseguição, guerra ou violência. Deslocado interno é quem foge pelos mesmos motivos, mas permanece dentro do próprio país. Em 2025, esse segundo grupo soma 68,6 milhões de pessoas, uma queda de 7% em relação ao ano anterior. A redução, porém, convive com o aumento de emergências locais, como no Haiti e em partes do Sahel africano.
Na outra ponta, quase 6 milhões de palestinos seguem sob o mandato da UNRWA, a agência da ONU criada especificamente para essa população. O dado mostra que crises prolongadas, sem solução política à vista, se enraízam e atravessam gerações, pressionando sistemas de ajuda já no limite financeiro e operacional.
Governos que recebem grandes contingentes continuarão a lidar com desafios orçamentários e políticos. Acesso a moradia, emprego e educação para refugiados entra no centro de debates eleitorais em capitais europeias e latino-americanas. Organismos multilaterais alertam que políticas de retorno sem garantias mínimas podem apenas empurrar milhões de pessoas para novos ciclos de fuga.
Acnur defende mais cooperação internacional para financiar a reconstrução de países devastados, apoiar processos de reintegração e reforçar mecanismos de proteção. Sem isso, a aparente melhora estatística de 2025 tende a se desfazer diante da continuidade dos conflitos e de novas crises, climáticas e políticas.
O relatório não arrisca previsões numéricas para os próximos anos, mas deixa uma pergunta incômoda para governos e sociedades: a queda inédita no número de deslocados marca o início de uma virada ou apenas registra o momento em que, para milhões de pessoas, já não há para onde fugir?
