Fifa muda regras e promete Copa de 2026 mais rápida e rígida
A Fifa coloca em prática, a partir da Copa do Mundo de 2026, um pacote de mudanças nas regras para acelerar os jogos e punir condutas consideradas antidesportivas. As medidas, aprovadas em parceria com a Ifab, ampliam o poder do árbitro e do VAR em lances decisivos e restringem manobras para ganhar tempo. A estreia das novas normas ocorre no Mundial de 48 seleções em Canadá, México e Estados Unidos.
Futebol sob relógio mais rígido
O alvo central das novas regras é a famosa “cera”. A partir de 2026, jogadores substituídos terão no máximo 10 segundos para deixar o campo e precisarão sair pelo ponto mais próximo da linha lateral ou de fundo. O cronômetro começa a contar assim que o quarto árbitro ergue a placa ou o juiz principal autoriza a troca. Se o jogador insistir em caminhar devagar, o time paga o preço.
Passados os 10 segundos, o atleta sai de qualquer forma, mas o substituto só entra depois que o jogo for interrompido pela primeira vez após um minuto de bola rolando. A Ifab explica que a intenção é atacar o tempo morto disfarçado de substituição, que alonga partidas e enche de acréscimos os minutos finais. O recado é direto: quem empurra a saída para retardar o jogo coloca a própria equipe em desvantagem numérica, ainda que por alguns segundos decisivos.
O controle de tempo também avança sobre atendimentos médicos em campo. Jogadores que recebem assistência de fisioterapeuta ou médico, ou causam a paralisação da partida por lesão, precisam ficar fora por pelo menos 60 segundos a partir da retomada do jogo. Depois de um minuto, podem voltar. A regra busca desestimular quedas estratégicas, em especial em momentos de pressão do adversário, preservando ao mesmo tempo os casos de lesão grave, que seguem sob critério médico e da arbitragem.
Carta vermelha para insultos escondidos
A Copa de 2026 também marca uma guinada no combate a condutas discriminatórias. Pierluigi Collina, presidente da Comissão de Árbitros da Fifa, afirma que jogadores que cobrirem a boca com a mão, o braço ou a camisa durante discussões ríspidas com adversários podem ser expulsos direto. “Quando a conversa é de confronto, cobrir a boca significa que, possivelmente, você está dizendo algo muito grave, e a punição é o cartão vermelho”, diz.
A decisão é aprovada por unanimidade pela Ifab em abril, após o episódio envolvendo o atacante do Benfica Gianluca Prestianni e o brasileiro Vini Jr., do Real Madrid, na Liga dos Campeões, em fevereiro. Prestianni recebe suspensão de seis jogos da Uefa por conduta discriminatória. Para Collina, a nova regra funciona como aviso prévio: se o atleta tenta esconder o que fala num momento de tensão, assume o risco de ir direto para o vestiário. Conversas amistosas seguem liberadas, mas o limite fica mais nítido.
A entidade também autoriza cartão vermelho para jogadores que abandonam o campo em protesto contra decisões da arbitragem, a depender do regulamento de cada competição. A punição pode atingir ainda membros da comissão técnica que incentivem um boicote coletivo. “Inicialmente, o time que causar a suspensão da partida será declarado perdedor”, informa a Ifab. A mensagem é clara para seleções acostumadas a cercar juízes e flertar com a interrupção do jogo como forma de pressão.
VAR entra mais cedo no lance
O VAR ganha espaço no centro da discussão. Em fevereiro, a Ifab autoriza que, diante de evidências claras em vídeo, a equipe de árbitros de vídeo auxilie o juiz em situações que antes ficavam fora do protocolo, como infrações cometidas imediatamente antes de escanteios e faltas. Em maio, a regra é detalhada: qualquer falta da equipe atacante, antes de a bola estar em jogo em um escanteio ou cobrança de falta, pode ser revista se tiver impacto direto em gol, pênalti ou cartão.
O mecanismo funciona de forma simples aos olhos do torcedor. Se o VAR identifica um puxão claro na área ou um bloqueio ilegal que abre espaço para um gol, recomenda revisão em campo. Confirmada a infração, o árbitro aplica a punição disciplinar cabível e manda repetir o escanteio ou a falta. A mudança entra em vigor no Mundial de 2026 e será reavaliada depois da competição. Collina aposta que a ampliação do vídeo reduz erros grossos na origem da jogada, não apenas no desfecho.
O movimento dialoga com a tendência recente de controles mais rígidos. Na Copa do Qatar, em 2022, jogos com 10 ou 15 minutos de acréscimo se tornam comuns, resultado de uma contagem mais precisa do tempo perdido. Agora, a comissão de arbitragem tenta atacar a raiz das interrupções, encurtando substituições, restringindo quedas teatrais e antecipando a intervenção do VAR em lances-chave. A promessa é de partidas mais fluidas, com menos paradas e menos minutos extras.
Fim do “tempo técnico do goleiro”
O comportamento dos jogadores durante lesões do goleiro também entra na mira. O costume de ver o arqueiro sentado no gramado chamando atendimento, enquanto colegas correm até a área técnica para ouvir novas instruções, perde espaço no Mundial. A Fifa adota a lógica já testada na NWSL, liga profissional feminina dos Estados Unidos: quando a goleira se machuca, jogadoras permanecem em suas posições ou se reúnem no círculo central. Em 2026, a orientação se estende às seleções masculinas.
Collina conta que os técnicos das 48 seleções são avisados em workshop específico. “Eles não permitirão que os times vão até os bancos de reservas quando um goleiro estiver caído e lesionado”, afirma. Não haverá cartões amarelos automáticos para quem tenta se aproximar do banco, mas os árbitros terão ordens para conter o movimento e manter o elenco em campo. “O goleiro tem o direito de se lesionar, mas os jogadores não têm o direito de sair de campo para fazer uma espécie de tempo técnico”, diz o chefe da arbitragem.
O efeito da medida ainda divide opiniões, já que cada tempo terá ao menos uma pausa de três minutos para hidratação, por causa do calor previsto em cidades-sede nos Estados Unidos e no México. Os treinadores seguem com essa janela natural para reposicionar os times. O fim do “tempo técnico do goleiro” tende, porém, a reduzir paradas inesperadas em momentos de maior pressão, quando o adversário empurra o jogo para a área e um goleiro sentado vira, na prática, pedido informal de tempo.
Impacto para seleções, árbitros e torcedores
As mudanças alteram a rotina das delegações desde os amistosos preparatórios. Com limite rígido de 10 segundos para substituições, bancos precisarão planejar trocas com antecedência e orientar jogadores a sair pelo caminho mais curto, mesmo que longe do treinador. Atletas que costumam discutir cada apito com a arbitragem terão de medir o tom da conversa com mais cuidado, sob risco de expulsão em caso de insulto disfarçado por mãos sobre a boca.
Para os árbitros, o pacote amplia responsabilidades e oferece mais respaldo. A possibilidade de declarar derrotada a equipe que força a suspensão de uma partida reforça a autoridade do apito diante de protestos organizados. O VAR mais presente em bolas paradas, por outro lado, exige agilidade da cabine de vídeo para não transformar cada escanteio em novela. A Fifa aposta na tecnologia para corrigir erros claros, sem matar o ritmo.
O torcedor deve sentir o efeito de forma direta no tempo de bola rolando. A expectativa de Collina é que se reduza a necessidade de acréscimos longos, como os vistos em 2022, e que a Copa entregue partidas mais intensas minuto a minuto. Comportamentos normais de jogo seguem intactos, mas gestos calculados para sabotar o relógio ficam mais caros. O equilíbrio entre espetáculo, disciplina e justiça volta ao centro do debate.
Regras em teste e tendência de longo prazo
A Copa de 2026 funciona como grande laboratório para o novo pacote disciplinar. A Ifab indica que a eficácia das medidas será avaliada após o Mundial e pode levar a ajustes finos para as temporadas seguintes. Entre 2026 e 2027, ligas nacionais são estimuladas a testar variações, em especial no tratamento de lesões de goleiros, em busca de um modelo que reduza abusos sem comprometer a segurança dos atletas.
Se o experimento funcionar, as regras têm caminho aberto para se tornar padrão em torneios continentais, ligas nacionais e competições de base. A tendência é de um futebol mais controlado pela arbitragem e mais transparente para o público, com limites mais claros para protestos, encenações e insultos. A Copa do Mundo no Canadá, México e Estados Unidos pode entrar para a história não apenas pelos 104 jogos e pelas 48 seleções, mas como o torneio em que a relação entre tempo, comportamento e tecnologia em campo muda de patamar.
