Caso Henry: rompem aliança e trocam acusações Monique e Jairinho
Monique Medeiros e o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, rompem de vez a aliança em torno da morte do menino Henry Borel. Quase três anos após o crime, os dois passam a sustentar versões conflitantes e trocam acusações públicas e nos autos do processo no Rio de Janeiro.
Da versão única ao rompimento em praça pública
Quando Henry morre, em 8 de março de 2021, a narrativa de Monique e Jairinho é uma só: o menino de 4 anos teria sofrido um acidente dentro do apartamento, na Barra da Tijuca. Em entrevistas concedidas lado a lado, eles repetem a mesma explicação, afirmam estar devastados e dizem confiar “plenamente” no trabalho da polícia. O discurso alinhado, naquele momento, funciona como uma trincheira comum diante da comoção nacional.
À medida que a investigação avança, o cenário muda. Laudos apontam múltiplas lesões, o Ministério Público fala em tortura e homicídio qualificado, e a pressão social cresce em velocidade de rede social. Em abril de 2021, os dois são presos preventivamente e a aliança começa a rachar longe das câmeras, nas salas de interrogatório e nos depoimentos sigilosos. O que era pacto de defesa conjunta se transforma em campo minado.
As versões passam a divergir de forma explícita quando defesas questionam, uma da outra, quem sabia o quê e em que momento. Monique se apresenta como vítima de violência psicológica e física, diz ter vivido sob controle e medo constantes dentro do relacionamento. Jairinho nega, acusa a ex-companheira de tentar transferir toda a responsabilidade e insiste que nunca agrediu Henry. Cada frase passa a ser construída também para o tribunal da opinião pública, que acompanha o caso desde as primeiras horas.
Disputa de narrativa embaralha jurados e opinião pública
O rompimento formal entre os dois réus tem efeito direto no processo, que caminha para ser julgado por um júri popular no Tribunal do Júri do Rio. Em vez de uma única versão sobre a noite de 8 de março, o caso chega a 2024 com relatos incompatíveis, detalhamentos distintos de horários, reações e supostos antecedentes de agressões. A ruptura da aliança abre novas frentes de apuração e torna mais complexa a tarefa de reconstituir o que acontece naquele apartamento entre a noite de 7 e a madrugada de 8 de março.
Promotores e advogados reconhecem, nos bastidores, que a mudança de rota altera o cálculo jurídico. Uma estratégia comum de defesa, centrada na tese de acidente doméstico, cede lugar a tentativas paralelas de se descolar do outro. Quando um aponta o dedo, reforça, ainda que indiretamente, elementos da acusação. “Quando co-réus começam a se acusar, o júri percebe que não há confiança mútua naquela narrativa”, avalia um criminalista ouvido pela reportagem sob reserva. “Isso pesa na hora de decidir quem fala a verdade.”
Na prática, a nova fase do caso Henry recoloca em discussão o papel de Monique como mãe e o de Jairinho como figura pública de poder político. O ex-vereador, eleito em 2016 e cassado em 2021, tenta manter a imagem de vítima de um linchamento moral. A defesa insiste que não há prova direta de agressão naquele 8 de março, apenas indícios e reconstruções. Monique, por sua vez, busca se afastar do rótulo de cúmplice silenciosa, sustenta que não participa de qualquer ato de violência e que também é alvo de ameaças e ataques desde a prisão.
Enquanto as versões se chocam, o caso continua a mobilizar debates sobre violência contra crianças e incapazes em todo o país. Organizações de proteção à infância citam o processo como exemplo de como sinais anteriores de agressão, relatados em ao menos dois episódios anteriores à morte, não são levados a sério por vizinhos, escolas e familiares. A cada nova manifestação das defesas, redes sociais voltam a se encher de comentários, cobranças e teorias paralelas, muitas vezes sem base nas provas dos autos.
Processo mais complexo e pressão por desfecho rápido
A quebra da aliança entre Monique e Jairinho reorganiza o xadrez jurídico do caso Henry. O Ministério Público flerta com a possibilidade de explorar essa divisão no plenário, reforçando contradições e apontando que, em versões excludentes, ao menos uma delas precisa ser falsa. A defesa de cada um tenta construir uma linha de tempo própria, com peritos particulares, questionamentos a laudos oficiais e pedidos sucessivos de novas diligências. O processo, que já passa de 1.000 páginas, ganha novos anexos, adendos e petições a cada mês.
O desfecho não interessa apenas às famílias diretamente atingidas. O caso se torna um termômetro da capacidade do sistema de Justiça de lidar com crimes que ganham repercussão nacional em poucos minutos. A cada adiamento de audiência, cresce a sensação de impunidade, medida em desabafos de parentes, em protestos diante do Tribunal de Justiça e em faixas que pedem “justiça por Henry”. A lembrança de outros episódios de violência contra crianças, como o caso Isabella Nardoni em 2008, volta à superfície como parâmetro de comparação de penas e prazos.
Especialistas em direito penal apontam que a disputa de narrativa, embora complique o trabalho de juízes e jurados, também abre margem para acordos, delações e mudanças de estratégia às vésperas do julgamento. Uma eventual condenação de ambos, em penas superiores a 30 anos, ou a absolvição de um deles, tende a reverberar além do Rio e reaquecer discussões sobre endurecimento de punições em crimes contra menores. “O que sair desse júri vai ser citado em outros tribunais e em debates legislativos”, projeta um professor de processo penal da UFRJ.
Com a memória de Henry presente em cada audiência, a pergunta central permanece sem resposta definitiva: quem, de fato, é responsável pela sucessão de lesões descritas em laudo e pela morte do menino de 4 anos? O julgamento promete confrontar em poucos dias aquilo que as investigações tentam ordenar há mais de três anos: duas versões irreconciliáveis, uma cidade em choque e um país à espera de uma verdade possível, ainda que tardia.
