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Ataques de Israel no sul do Líbano matam 14 e reacendem tensão com Irã

Ataques de Israel no sul do Líbano matam ao menos 14 pessoas nesta segunda-feira (8), entre elas civis, e ferem socorristas, em meio a advertências do Irã e de Donald Trump.

Bombardeios atingem civis e desafiam apelos por trégua

As explosões voltam a sacudir a região de Zifta, no distrito de Nabatieh, no meio da tarde. Mísseis israelenses atingem uma área residencial e deixam mortos espalhados entre carros queimados e casas destruídas. O Ministério da Saúde do Líbano fala em ao menos 14 mortos, número que inclui uma mulher e uma criança síria. Há dezenas de feridos, muitos levados a hospitais já sobrecarregados desde o início da guerra.

No mesmo dia, em Tiro, principal cidade do sul libanês, um carro é atingido a poucos metros de um prédio da Cruz Vermelha Libanesa. A agência estatal NNA atribui o ataque a Israel e descreve um impacto seco, seguido de estilhaços de vidro que atravessam janelas e portas. Quatro paramédicos ficam feridos. “Os colegas estavam se preparando para sair em uma missão quando o estrondo derrubou todos no chão”, relata um voluntário ouvido pela imprensa local.

Os novos bombardeios ocorrem menos de 24 horas após Israel afirmar que manterá sua campanha militar contra o Hezbollah, apesar das advertências de Teerã e da pressão pública do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a redução das hostilidades. Em Beirute, o anúncio alimenta o temor de que o sul do país volte a ser palco de uma guerra aberta, como em 2006, quando o conflito entre Israel e Hezbollah deixou mais de mil mortos no Líbano.

Hezbollah diz responder com fogo de artilharia e mísseis contra tropas israelenses posicionadas em território libanês, ao longo da fronteira. O grupo, apoiado pelo Irã, afirma que não lança ataques dentro de Israel nesta segunda, mas promete continuar a mirar forças militares. Israel não comenta de imediato as mortes de civis, mas insiste que tem o Hezbollah como alvo e acusa a organização de usar áreas povoadas como escudo.

Escalada regional pressiona cessar-fogo frágil

Os ataques desta segunda-feira ocorrem logo após uma rodada de violência direta entre Israel e Irã que quase enterra a trégua costurada por Washington em abril. No fim de semana, caças israelenses bombardeiam redutos do Hezbollah nos subúrbios ao sul de Beirute. No dia seguinte, Teerã responde com um ataque de mísseis contra alvos em Israel, em uma troca de golpes que reacende o temor de uma guerra regional.

Sob pressão internacional, os dois países anunciam, também nesta segunda, a suspensão dos ataques diretos. Trump, em campanha eleitoral e pressionado pelo risco de uma nova frente de conflito no Oriente Médio, cobra publicamente que Teerã e Tel Aviv diminuam o ritmo da confrontação. A pausa, porém, não inclui o território libanês, onde Israel mantém, desde 17 de abril, uma campanha quase diária contra posições do Hezbollah.

O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, deixa claro que não pretende recuar. “As Forças Armadas seguirão atuando contra o Hezbollah no Líbano”, afirma. Ele ameaça ampliar o escopo da ofensiva e cita explicitamente a capital libanesa. Segundo Katz, os subúrbios de Beirute, considerados reduto do grupo xiita, serão alvo de retaliação a cada ataque lançado contra o norte de Israel. “Rejeitamos categoricamente as ameaças do Irã. Qualquer tentativa iraniana de vincular Líbano e Irã e atacar Israel será enfrentada com grande força, como aconteceu ontem”, diz.

Teerã reage com seu próprio aviso. Autoridades iranianas afirmam que qualquer solução para o conflito regional precisa incluir o Líbano e não descartam retomar as ofensivas caso Israel mantenha a campanha em território libanês. Nos bastidores, diplomatas ocidentais tentam preservar o cessar-fogo parcial, enquanto mediadores da ONU e de países europeus buscam canais de diálogo com Beirute, Tel Aviv e Teerã.

O governo libanês divulga um balanço que dimensiona a intensidade da ofensiva israelense desde a trégua mediada pelos EUA. Entre 17 de abril e 8 de junho, o Exército de Israel realiza 3.491 ataques aéreos e 407 demolições em solo libanês, de acordo com autoridades de Beirute. Mais de 1 milhão de pessoas, cerca de 20% da população, deixam suas casas e se espalham por cidades do interior, escolas improvisadas e abrigos precários.

Crise humanitária se agrava e futuro é incerto

No sul do Líbano, o impacto é imediato. Vilarejos inteiros esvaziam em poucas semanas, lavouras são abandonadas e estradas rurais se enchem de carros carregados com colchões, botijões e documentos. Hospitais em Tiro e Nabatieh relatam falta de leitos, remédios básicos e combustível para geradores. Organizações humanitárias alertam para o risco de colapso de serviços essenciais, caso os combates avancem ainda mais para o norte.

Os ataques repetidos contra ambulâncias, centros médicos e áreas civis ampliam a sensação de vulnerabilidade entre moradores e socorristas. A Cruz Vermelha Libanesa afirma que revê protocolos de deslocamento de equipes depois do míssil que fere quatro paramédicos em Tiro. Voluntários passam a circular sem sirenes e faróis ligados, para tentar escapar de rastreamento. “Não podemos abandonar os feridos, mas também não podemos nos tornar alvos permanentes”, diz um coordenador local.

Para Israel, a estratégia é apresentada como forma de empurrar o Hezbollah para longe da fronteira norte e dissuadir o Irã de ampliar sua presença militar no Líbano. A curto prazo, o cálculo militar produz ganhos táticos, com posições do grupo xiita destruídas e linhas de abastecimento interrompidas. A conta política, porém, é mais alta: cresce o isolamento de Israel em fóruns internacionais, aumentam as críticas por violações do direito humanitário e se fortalece, dentro do Líbano, o discurso de resistência armada.

Trump tenta equilibrar a defesa histórica de Israel com o temor de um conflito descontrolado em plena campanha eleitoral americana. O presidente repete que Israel tem direito à autodefesa, mas cobra moderação e insiste em preservar o cessar-fogo mais amplo com o Irã. Ao mesmo tempo, enfrenta pressão de aliados no Congresso e de governos árabes, que veem no avanço das operações no Líbano o risco de uma nova onda de instabilidade regional.

No terreno, famílias que fogem de Zifta e de vilarejos vizinhos pouco acompanham esse jogo diplomático. O que importa é encontrar abrigo longe das linhas de fogo, garantir comida e evitar que crianças se percam nas filas de deslocados. A cada novo bombardeio, a sensação é de que o Líbano volta a ser palco de disputas que se decidem muito além de suas fronteiras. A dúvida aberta é por quanto tempo a trégua frágil entre Israel e Irã resiste à lógica da guerra no sul do país.

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