Ciencia e Tecnologia

Nasa define tripulação da Artemis 3 e dá passo chave rumo à Lua

A Nasa anuncia nesta terça-feira (9), em Houston, os quatro astronautas que vão comandar a Artemis 3, missão crucial para o retorno humano à Lua previsto para 2028. A viagem, marcada para o ano que vem, acontece apenas em órbita da Terra, mas testa toda a engrenagem tecnológica e operacional que precisa funcionar sem falhas antes de um pouso lunar.

Novo desenho para a corrida de volta à Lua

O anúncio ocorre no Centro Espacial Johnson, em Houston, e recoloca a agência americana no centro da disputa por uma presença humana sustentável fora da órbita baixa da Terra. A Artemis 3 deixa de ser a missão do primeiro pouso e se transforma em um ensaio geral em órbita, redesenhado no ano passado após Jared Isaacman assumir a administração da Nasa, com a meta de ganhar ritmo e reduzir riscos.

O quarteto escolhido reflete essa ambição. Randy Bresnik assume o comando do voo após duas passagens pela Estação Espacial Internacional (ISS) e experiências tanto com os antigos ônibus espaciais quanto com a nave russa Soyuz. Ao seu lado estará o italiano Luca Parmitano, da Agência Espacial Europeia, primeiro comandante da ISS vindo da Itália e único estrangeiro da tripulação.

Frank Rubio, recordista americano de permanência contínua no espaço, com 371 dias em órbita, reforça o time como especialista de missão. Ele já encarou dois ciclos completos a bordo da estação orbital, experiência valiosa para um teste que deve durar cerca de duas semanas. Completa o grupo Andre Douglas, engenheiro que ingressa na Nasa em 2021 e faz sua estreia em voo tripulado.

A Nasa ainda seleciona Bob Heintz como astronauta reserva, veterano de duas expedições à ISS, preparado para substituir qualquer membro da equipe em caso de imprevisto médico ou operacional. A escolha de nomes experientes, com apenas um novato, indica a prioridade em reduzir variáveis justamente na missão que vai amarrar as pontas tecnológicas do programa Artemis.

Teste em órbita para módulos lunares privados

A Artemis 3 será o terceiro voo do foguete SLS, o superfoguete da Nasa, e o segundo com humanos a bordo depois da Artemis 2, que em abril leva astronautas a uma volta ao redor da Lua. Agora, porém, o alvo é bem mais próximo: a órbita baixa da própria Terra. Lá, a agência vai submeter a cápsula Orion e dois módulos lunares privados a um teste em condições reais de operação, com múltiplos lançamentos coordenados.

O roteiro apresentado por Jeremy Parsons, do programa Lua a Marte, começa com o lançamento não tripulado do módulo Blue Moon Mark 2, da Blue Origin, por um foguete New Glenn. O pousador é projetado para permanecer até 90 dias em órbita, tempo suficiente para aguardar a chegada da Orion com a tripulação da Artemis 3.

Depois da decolagem do SLS, a Orion manobra para encontrar o Blue Moon e realizar a acoplagem. Bresnik e sua equipe embarcam no módulo e conduzem manobras de navegação e sistemas, levando o veículo ao limite seguro para avaliar propulsão, controle e suporte de vida. Ao fim dos testes, retornam à Orion e desacoplam.

No meio desse roteiro, a SpaceX lança seu Starship, também em versão de módulo lunar. A Orion volta a acoplar, agora ao veículo da empresa de Elon Musk, repetindo o processo de testes. “Esperamos que a missão dure cerca de duas semanas”, afirma Parsons, ao reforçar que o foco é “minimizar riscos para a alunissagem” planejada para a Artemis 4.

Os dois módulos representam apostas diferentes para o mesmo objetivo. John Kalaris, da Blue Origin, admite o revés recente com a explosão de um New Glenn na plataforma 36A, na Flórida, mas sustenta que os reparos avançam com apoio da Nasa. Ele projeta o lançamento, ainda neste ano, do Blue Moon Mark 1, versão não tripulada listada como missão Moon Base 1, e diz que o Mark 2 da Artemis 3 já está em fabricação para ficar pronto em 2027.

Jessica Jensen, vice-presidente da SpaceX, usa o histórico de voos da Crew Dragon como cartão de visitas. A empresa vai adaptar ao Starship a mesma porta de acoplagem que hoje conecta a cápsula à ISS, numa tentativa de reduzir incertezas técnicas. Jensen promete ainda demonstrar, até o fim do ano, um teste de reabastecimento em órbita, considerado peça central para voos de longa duração no espaço profundo.

Disputa global e o que está em jogo até 2028

A nova configuração da Artemis 3 nasce também de uma limitação orçamentária e industrial. Ao optar por um ensaio em órbita baixa, a Nasa preserva o último estágio superior disponível do SLS para a Artemis 4, missão que, se tudo der certo, realiza o primeiro pouso humano do programa em 2028. A solução agrada a SpaceX, que vislumbra uma arquitetura em que o Starship leve a Orion até a órbita lunar sem exigir um segundo estágio potente do foguete da agência.

Nesse desenho, detalhado por Jensen, a Orion acopla ao Starship ainda perto da Terra. O módulo privado faz a chamada injeção translunar, empurrando a cápsula até uma órbita baixa ao redor da Lua. Dali, o pouso e a volta exigem menos combustível e menos reabastecimentos em órbita, dois dos gargalos mais sensíveis para qualquer missão de longa distância.

A Blue Origin oferece caminho parecido, com foco em pousos repetidos e, no longo prazo, em uma base lunar permanente. Kalaris afirma que a empresa quer demonstrar um pouso não tripulado do Mark 2 em 2028, antes de levar astronautas ao solo lunar. O calendário, se cumprido, coloca a companhia em posição forte para disputar a Artemis 4 e eventuais missões seguintes.

Para a Nasa, a Artemis 3 funciona como uma escola intensiva. A agência busca criar a “memória muscular” de voar regularmente além da órbita baixa, algo que os Estados Unidos não fazem desde o fim do programa Apollo, em 1972. Cada acoplamento bem-sucedido, cada correção de trajetória e cada checklist executado por Bresnik e sua equipe alimentam um banco de dados que deve orientar a exploração lunar nas próximas décadas.

A missão também abre oportunidades científicas. Nicky Fox, administradora associada de ciência, diz que a equipe estuda experimentos sobre a atmosfera terrestre e a interação da Orion com o ambiente espacial. Os detalhes ainda estão em elaboração, mas a ideia é usar a missão, que nasce com foco tecnológico, como laboratório para pesquisas que ajudem a planejar longas estadas na Lua e, no futuro, em Marte.

O pano de fundo é uma corrida cada vez mais visível com a China, que avança de forma mais discreta, mas consistente, em seu próprio programa lunar. Lançamentos e pousos são anunciados quase como surpresa, sem o mesmo esforço de comunicação. Jared Isaacman promete fazer o oposto: “A Nasa quer capturar a imaginação do mundo não só com o que faz, mas com a maneira como mostra seus planos”, afirma.

O sucesso da Artemis 3 pode acelerar contratos, destravar investimentos privados e consolidar os Estados Unidos como líder da próxima fase da exploração espacial. Um fracasso, por outro lado, daria fôlego a concorrentes e reabriria debates sobre custos, prioridades e segurança. A contagem regressiva já começou. A questão, agora, é quem vai cravar primeiro seu cronômetro no solo lunar desta nova era.

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