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Torre de Jesus conclui simbolicamente a Sagrada Família em Barcelona

A Basílica da Sagrada Família conclui simbolicamente, nesta terça-feira (9), a Torre de Jesus, a mais alta de suas 18 torres projetadas por Antoni Gaudí. Cem anos após a morte do arquiteto catalão, Barcelona assiste ao coroamento de uma obra que redefine a silhueta da cidade e encerra, ao menos no papel, o canteiro de obras mais longo da arquitetura moderna.

Barcelona diante de um século de obra inacabada

A nova torre de 172,5 metros transforma a Sagrada Família na igreja mais alta do mundo e fixa, em pedra e luz, a presença de Gaudí na Barcelona de 2026. A bênção prevista para esta quarta-feira (10) pelo papa Leão 14 sela o marco religioso e turístico, mas não encerra todos os trabalhos no templo expiatório, iniciado em 1883 e financiado exclusivamente por doações.

A cidade convive há décadas com andaimes e guindastes que cercam o monumento mais visitado da Espanha, que recebe dezenas de milhares de pessoas por dia na alta temporada. A conclusão da Torre de Jesus funciona como um ponto de virada mental: a sensação de obra eterna dá lugar à ideia de ciclo que se fecha, ainda que acabamentos, esculturas e ajustes internos sigam por alguns anos.

O momento carrega uma coincidência incômoda e poderosa. Em 7 de junho de 1926, Gaudí, então um idoso magro de roupas gastas e calças presas por alfinetes, é atropelado por um bonde quando tenta cruzar uma avenida de Barcelona. Três dias depois, em 10 de junho, morre no Hospital de la Santa Creu sem que muitos reconhecessem, à primeira vista, o autor da obra que hoje domina o horizonte da cidade.

Naquele tempo, só o porteiro da Sagrada Família estranha a ausência do arquiteto, que dorme em um quarto improvisado no próprio canteiro e trabalha sem remuneração desde 1912. Um século depois, o anonimato se converte em culto urbano: filas dobram quarteirões, pacotes turísticos se organizam em torno da basílica e a imagem das torres passa a funcionar como uma espécie de logotipo involuntário de Barcelona.

Um laboratório de geometria, fé e turismo em massa

O impacto da nova torre é visual, econômico e simbólico. Ao alcançar 172,5 metros, a Sagrada Família supera outros templos históricos e consolida a arquitetura de Gaudí como ponto máximo de um modernismo catalão que sempre escapa a rótulos. A igreja se ergue sobre curvas chamadas catenárias, formas que surgem quando uma corrente fica suspensa, e que o arquiteto estuda com cordões metálicos, pesos, espelhos e fotografias.

As experiências começam ainda no fim do século 19, em obras como o colégio das Teresianas, mas ganham escala inédita na basílica. Gaudí pensa o projeto em três dimensões, manipula maquetes, observa plantas, animais, ossos, e transforma fauna e flora em colunas, torres e relevos cheios de simbologia cristã. Nada ali nasce para enfeitar; tudo responde a questões de estrutura, luz ou narrativa religiosa.

O caminho até a Torre de Jesus não é linear. Em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, forças republicanas invadem o estúdio montado dentro da Sagrada Família, destroem maquetes a marretadas e queimam desenhos e documentos. Em 1939, com o fim do conflito e a vitória do regime de Franco, a obra retoma em ritmo hesitante e acende um debate que atravessa o século. Um abaixo-assinado com nomes como Le Corbusier e Alvar Aalto pede a suspensão dos trabalhos, sob o argumento de que seria impossível saber com precisão o que Gaudí havia sonhado.

Os responsáveis pela continuação resistem. Na virada para os anos 1990, a cidade se reposiciona com os Jogos Olímpicos de 1992, o turismo explode e o canteiro da Sagrada Família passa a conviver com uma nova fonte de recursos: a bilheteria monumental de um ícone global. Softwares de arquitetura comuns se mostram incapazes de decifrar a lógica geométrica deixada em fragmentos. A equipe recorre a programas usados em aviação para calcular, peça a peça, como erguer torres e abóbadas com segurança.

O resultado é um híbrido raro. A construção medieval, lenta e manual, se combina com tecnologia de ponta do século 21. A história da basílica passa a ecoar as grandes catedrais góticas que a inspiraram. Notre-Dame de Paris leva pouco mais de 180 anos para ficar pronta; a Sagrada Família se aproxima desse patamar, mas chega à reta final em um mundo dominado por viagens low cost, selfies em massa e debates sobre saturação turística.

Moradores dos arredores convivem com um fluxo de visitantes que pressiona aluguel, transportes e comércio de bairro. O templo que nasce como espaço de expiação de pecados, bancado por pequenas contribuições de fiéis, funciona hoje também como motor econômico que alimenta hotéis, restaurantes e lojas de souvenires. A nova torre adiciona um ganho de visibilidade que tende a reforçar esse ciclo.

Um fim simbólico para uma obra que insiste em continuar

A conclusão da Torre de Jesus marca o fim de uma etapa crucial, mas não encerra o desafio de equilibrar devoção, preservação e exploração turística. A basílica segue com frentes abertas, sobretudo em acabamentos, esculturas e ajustes internos, em uma corrida entre a vontade de concluir o sonho de Gaudí e a necessidade de respeitar os limites de um bairro que se sente sitiado por visitantes.

A Igreja aposta que o novo marco arquitetônico fortalece o caráter espiritual do espaço e ajuda a reposicionar a Sagrada Família para além da selfie rápida. A cidade calcula ganhos permanentes para o setor de serviços e para a marca Barcelona, que já tinha no Park Güell, na Casa Batlló e na Casa Milà vitrines mundiais do arquiteto. Urbanistas e moradores, porém, perguntam até que ponto a mesma obra que consolida identidades e empregos não corrói a vida cotidiana que lhe deu origem.

Gaudí nunca vê mais do que a Fachada da Natividade e sua torre concluídas em vida. Corre para entregar ao menos uma face completa do templo, que serviria de guia para gerações futuras. Deixa modelos, desenhos, cálculos, quase todos parcialmente destruídos em 1936. Um século mais tarde, a Torre de Jesus se ergue como resposta incompleta à pergunta que o cerca desde a morte: que Sagrada Família ele teria imaginado se pudesse acompanhar cada decisão até o fim?

A partir de agora, a discussão muda de tom. Em vez de perguntar se a obra algum dia termina, Barcelona passa a debater que tipo de cidade quer ao redor desse colosso de pedra e vidro colorido. A torre recém-concluída aponta para o céu, mas a resposta sobre o futuro da basílica e de seu entorno continua presa ao chão, na disputa entre fé, memória e mercado.

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