Cortes com jogadores da Roma reacendem superstição rumo ao hexa
Cortes de última hora voltam a aproximar a seleção brasileira da Roma às vésperas da Copa de 2026. A coincidência reacende uma superstição conhecida dos torcedores: quando o clube italiano entra na linha de tiro dos cortes, o Brasil termina campeão.
Coincidências que cruzam três décadas
O gatilho atual é o corte do lateral-direito Wesley, da Roma, confirmado pela CBF no domingo, a menos de um mês da estreia no Mundial. A comissão técnica convocou o volante Éderson, da Atalanta, para a vaga. Em poucos minutos, redes sociais e programas esportivos resgataram um enredo que começa em 1994, passa por 2002 e volta agora em 2026.
Na Copa dos Estados Unidos, há 30 anos, o drama se instalou no miolo de zaga pouco antes do embarque. Mozer e Ricardo Gomes foram cortados na reta final da preparação, ambos por problemas físicos. As saídas abriram espaço para Aldair e Ronaldão. Na estreia, em 20 de junho de 1994, contra a Rússia, o então titular Ricardo Rocha se machuca ainda no primeiro tempo em Stanford. Aldair entra, assume a vaga e não larga mais até a final em Los Angeles. O zagueiro defendia a Roma naquele momento.
O roteiro se repete com nova dose de suspense oito anos depois. Em 2002, no Japão e na Coreia do Sul, o volante Emerson, capitão da seleção de Luiz Felipe Scolari, decide brincar de goleiro no treino da véspera da estreia contra a Turquia. Em uma queda desajeitada, machuca o ombro direito e é cortado do Mundial a poucas horas do início da campanha. Emerson era jogador da Roma, comandava o meio-campo do time italiano e chegava ao torneio como uma das referências técnicas daquele Brasil.
A saída do volante abre uma brecha inesperada para Cafu. O lateral-direito, então com 31 anos, herda a braçadeira e lidera um grupo que carrega o peso de 24 anos sem título. Também vive uma ligação direta com o futebol italiano. Capitão em Yokohama, em 30 de junho de 2002, quando o Brasil vence a Alemanha por 2 a 0, Cafu ainda está sob contrato com a Roma, onde atua desde 1997, antes de se transferir para o Milan. O tetra de 1994 tem um titular romanista em campo. O penta de 2002 traz um capitão moldado e consagrado em Roma.
A repetição desse fio em 2026 abastece programas de mesa-redonda e perfis especializados. Em época de Copa, qualquer dado vira combustível para teorias. Quando o dado está colado em títulos mundiais, a coincidência passa a ser tratada como sinal. A conexão entre cortes de atletas ligados à Roma e campanhas vitoriosas oferece um enredo pronto para a imaginação de um país inteiro.
Do vestiário ao imaginário: impacto esportivo e psicológico
A ausência de Wesley, 19 anos, não é apenas mais uma troca de última hora. Tira do elenco um jovem lateral em ascensão na Série A italiana e mexe na construção tática da equipe. O jogador soma pouco mais de 20 partidas em sua primeira temporada completa pela Roma e chega à seleção como aposta de renovação na direita, posição que sofre com carência desde o auge de Daniel Alves.
A entrada de Éderson, 24 anos, reforça um setor já denso. O volante da Atalanta vive um dos melhores momentos da carreira, com mais de 40 partidas na temporada 2023/24 e participação decisiva em competições europeias. A comissão técnica ganha força de marcação e chegada à área, mas perde uma alternativa de velocidade pelo lado do campo. Na prática, a mudança redistribui funções em um grupo que se prepara para enfrentar uma sequência de ao menos três jogos em 10 dias na fase de grupos.
O impacto não é só tático. Dentro da concentração, cortes na véspera de um Mundial costumam funcionar como lembrete brutal de que ninguém está garantido. O episódio de Emerson, em 2002, ainda circula em bastidores como exemplo de como um treino despretensioso pode mudar um destino. A comissão atual usa esse tipo de história para reforçar a necessidade de disciplina nos trabalhos fechados ao público.
Analistas ouvidos ao longo da semana apontam outro efeito: a narrativa da “sorte da Roma” cria um colchão de otimismo em meio à pressão por resultados. Depois da eliminação nas quartas de final em 2018 e do fracasso nas quartas em 2022, o torcedor brasileiro chega a 2026 dividido entre desconfiança e esperança. Qualquer sinal de continuidade com as campanhas vitoriosas de 1994 e 2002 ajuda a balançar essa balança. “O futebol vive de memória. Quando o torcedor liga Roma, corte e título, ele constrói uma ideia de destino. Isso mexe com a atmosfera em torno do time”, avalia um dirigente da base da CBF, sob condição de anonimato.
Comissão técnica e atletas evitam dar respaldo público a esse tipo de coincidência, mas não ignoram o ambiente. Em conversas internas, integrantes do estafe admitem que histórias assim servem como material de discurso, desde que não peguem o atalho da acomodação. Se a superstição entra no vestiário, entra como gatilho para concentração, não como garantia de taça.
Preparação para 2026 e a eterna busca pelo hexa
A Copa de 2026 encerra um jejum de 24 anos sem título mundial, mesmo intervalo entre 1970 e 1994. O dado abastece comparações com o ciclo que leva ao tetracampeonato nos Estados Unidos. A diferença está no cenário. O Mundial agora se espalha por três países, Estados Unidos, México e Canadá, e cresce para 48 seleções. A maratona, que já foi desgastante em 1994 e 2002, se torna ainda mais pesada. Um corte como o de Wesley, confirmado a poucas semanas da estreia, obriga a comissão a ajustar planos de rotação de elenco e gestão física.
O peso simbólico, porém, segue central. O Brasil estreia diante de um adversário ainda a ser confirmado no sorteio final, previsto para o fim de 2025, e leva para o campo uma coleção de fantasmas. O 7 a 1 sofrido na semifinal de 2014, em Belo Horizonte, oscilou entre trauma coletivo e alerta permanente. As quedas em 2018 e 2022 consolidaram a sensação de que o país perdeu o monopólio do protagonismo. O novo ciclo de renovação tenta equilibrar experiência europeia e talento jovem formado em centros de treinamento modernos, muitos deles inspirados em modelos italianos e ingleses.
Enquanto isso, a Roma segue presente no noticiário brasileiro mesmo sem jogador garantido na lista final de 23 ou 26 nomes. A lembrança de Aldair levantando a taça no Rose Bowl, em 17 de julho de 1994, a imagem de Cafu erguendo o troféu em Yokohama, em 30 de junho de 2002, e o corte dramático de Emerson formam um mosaico que atravessa gerações. A exclusão de Wesley acrescenta uma nova peça a esse quebra-cabeça sentimental.
Nas próximas semanas, a seleção encara amistosos e treinos fechados que devem definir a espinha dorsal da equipe para a Copa. A comissão técnica promete avaliar diariamente a condição física dos convocados e minimizar o risco de novos cortes às vésperas do embarque. A obsessão declarada é chegar inteira à estreia, com os 11 em campo e o banco pronto para responder.
O hexa continua sendo o grande projeto esportivo do país, mas também um exercício de fé coletiva. Se a história vai repetir o roteiro em que a Roma aparece como personagem discreta, só a bola em 2026 responde. Até lá, a coincidência segue viva, alimentando debates, manchetes e a velha sensação de que, no futebol brasileiro, azar e sorte gostam de usar a mesma camisa.
