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Filha de ex-namorada de Jairinho relata tentativas de afogamento a júri

A filha da ex-namorada do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, relata nesta segunda-feira (8), no Rio, agressões sofridas aos 5 anos. Em depoimento ao júri do caso Henry Borel, ela descreve tentativas de afogamento e violência física que, segundo afirma, deixaram marcas duradouras e influenciaram a forma como vive o luto pela morte do menino.

Depoimento reabre feridas e recoloca foco em violência infantil

A jovem fala ao Tribunal do Júri mais de uma década depois dos episódios na casa onde o então vereador frequentava a mãe dela. A sessão ocorre em 8 de junho de 2026, no Rio de Janeiro, e insere um novo capítulo em um processo que mobiliza o país desde 8 de março de 2021, data da morte de Henry, então com 4 anos.

Ela conta que, quando tinha 5 anos, era levada à piscina e pressionada para baixo até encostar o corpo no fundo. O agressor, segundo o relato, mantinha a cabeça da criança submersa repetidas vezes. O tempo de cada imersão não é medido em segundos, mas em medo. “Eu achava que ia morrer”, diz, em trecho do depoimento. As lembranças surgem entre pausas longas, respiração pesada e a tentativa de organizar memórias que ficaram embaralhadas pelo trauma.

As cenas descritas se somam a outras agressões físicas, como empurrões e apertos, que, segundo a testemunha, aconteciam longe de olhares externos. A rotina de violência, afirma, constrói um silêncio forçado dentro de casa e uma sensação de vigilância permanente. O depoimento detalha que parte dos episódios ocorria sem que a mãe percebesse, em momentos em que a criança ficava sozinha com o então companheiro dela.

O Ministério Público busca demonstrar um padrão de conduta violenta contra crianças, conectando as agressões narradas à morte de Henry Borel. Para os promotores, a fala da jovem reforça a tese de que o ex-vereador usa autoridade e proximidade afetiva para controlar e intimidar vítimas em idade pré-escolar. A defesa nega que ele tenha praticado tortura ou homicídio e tenta descolar os relatos de infância da dinâmica que levou à morte do menino.

Trauma, culpa e a disputa por memória no caso Henry

A jovem de hoje vê na morte de Henry, em 2021, um gatilho que reabre lembranças de uma infância marcada pelo medo. Ela conta que por anos carregou a ideia de que poderia ter evitado a tragédia. “Eu me sentia culpada por não ter falado antes”, afirma, ao explicar por que decide detalhar agora o que viveu. O sentimento de culpa, apontam especialistas em saúde mental ouvidos pela reportagem, é comum entre vítimas de violência infantil, mesmo quando não existe qualquer responsabilidade objetiva.

O impacto emocional aparece em pequenos gestos no plenário: mãos trêmulas, dificuldade em sustentar o olhar, respostas que avançam e recuam no tempo. A narrativa ajuda a entender o efeito de longo prazo de agressões praticadas na primeira infância, fase em que o cérebro ainda forma conexões básicas de confiança, segurança e afeto. Pesquisas internacionais mostram que crianças expostas à violência têm, em média, risco até 60% maior de desenvolver transtornos de ansiedade e depressão na vida adulta.

No caso que envolve a morte de Henry, a disputa não é apenas jurídica. Travase também uma batalha simbólica por memória e narrativa. A versão apresentada pela jovem sustenta que Jairinho, então figura influente na política carioca, constrói um ambiente de medo que dificulta qualquer denúncia. O Ministério Público do Rio já havia registrado, em inquéritos anteriores, relatos de outros episódios de violência atribuídos ao ex-vereador contra crianças próximas a mulheres com quem ele se relacionava. Cada novo depoimento reacende o debate sobre como instituições públicas falharam em interromper o ciclo de agressões.

Organizações de proteção à infância calculam que menos de 10% dos casos de violência infantil chegam imediatamente ao sistema de Justiça. O restante se perde em acordos familiares, mudança de endereços e silêncio. O julgamento de Jairinho e da mãe de Henry, Monique Medeiros, se transforma em vitrine dessas omissões. A sessão desta segunda, com as declarações da filha da ex-namorada, reocupa espaço central nas redes sociais e nos programas de televisão, reacendendo o interesse de um público que acompanha o caso há mais de cinco anos.

Pressão por respostas e o que pode mudar depois do júri

A repercussão do depoimento gera nova pressão sobre o Tribunal de Justiça do Rio e sobre o Ministério Público para que casos semelhantes não dependam de comoção nacional para avançar. Entidades cobram expansão de equipes de escuta especializada, treinamento de professores para identificar sinais de abuso e ampliação do atendimento psicológico pelo SUS. Hoje, em muitas cidades brasileiras, o tempo de espera para uma primeira consulta infantil em saúde mental ultrapassa 90 dias, intervalo crítico para quem acabou de romper o silêncio.

No campo jurídico, a fala da testemunha pode pesar na avaliação dos jurados sobre a existência de um padrão de violência. A acusação tenta mostrar continuidade entre os episódios narrados na piscina, quando ela tinha 5 anos, e as lesões descritas no laudo de Henry, morto com múltiplas marcas de agressão. A estratégia busca afastar a tese de acidente doméstico e sustentar a de homicídio qualificado, que prevê pena de até 30 anos de prisão, com possibilidade de aumento se reconhecida a condição de vítima vulnerável.

A discussão ultrapassa o caso individual e alcança a formulação de políticas públicas. Parlamentares no Congresso e na Assembleia Legislativa do Rio retomam projetos que tratam de notificação obrigatória, monitoramento de reincidência e criação de bancos de dados integrados sobre violência infantil. Propostas engavetadas desde 2022 voltam à pauta em reuniões de comissões temáticas. Governos estaduais avaliam campanhas nacionais de conscientização, inspiradas em modelos adotados por países europeus nos últimos dez anos.

O julgamento de Jairinho e Monique ainda não tem data para terminar, mas o depoimento da jovem marca um ponto de inflexão. Conforme novas testemunhas forem ouvidas, a Justiça tentará responder a duas perguntas que ecoam fora do plenário: até que ponto o Estado falhou em proteger essas crianças e o que precisa mudar para que, daqui a 10 anos, relatos como o dela deixem de ser regra silenciosa e passem a ser exceção denunciada a tempo.

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