EUA classificam PCC e CV como terroristas e elevam risco de fortalecimento das facções
Os Estados Unidos classificam, nesta sexta-feira (5/6/2026), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida mira o coração financeiro das facções brasileiras, mas especialistas alertam que o tiro pode sair pela culatra sem cooperação internacional efetiva.
Designação amplia pressão, mas abre flanco de risco
A decisão, anunciada pelo Departamento de Estado em Washington, coloca as duas facções na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras e aciona automaticamente sanções econômicas do Tesouro americano. A partir de agora, todos os bens de integrantes e estruturas ligadas ao PCC e ao CV sob jurisdição dos EUA ficam bloqueados, e qualquer pessoa ou empresa que ofereça apoio material passa a correr risco de punições criminais e financeiras.
O criminologista grego Nikos Passas, professor da Universidade Northeastern, em Boston, enxerga um paradoxo no movimento. “No passado, vimos que a aplicação rigorosa de medidas contra essas organizações às vezes serve de incentivo para que elas se tornem mais bem organizadas, mais sofisticadas e, consequentemente, mais poderosas e resilientes”, afirma em entrevista. Para ele, a experiência recente mostra que o PCC e o CV crescem mesmo sob forte pressão policial, dentro e fora do Brasil, o que indica alta capacidade de adaptação.
Passas acompanha há mais de duas décadas a estratégia americana de combate ao narcotráfico e à lavagem de dinheiro na América Latina. Ele ajudou na implementação das convenções da ONU contra a corrupção e o crime organizado transnacional, que hoje orientam cooperação jurídica entre dezenas de países. Ao analisar a decisão de 5 de junho, destaca um ponto central: sem coordenação estreita entre autoridades brasileiras, americanas, europeias e africanas, o efeito prático pode ser muito menor que o impacto político imediato.
Sanções empurram crime para fora do radar dos EUA
O nome de PCC e CV na lista de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), órgão do Tesouro, muda o mapa de risco para bancos, corretoras e consultorias em todo o mundo. Instituições que operam em dólar passam a ter de reforçar filtros, reportar movimentações suspeitas e cortar relações comerciais com qualquer pessoa ou empresa associada às facções, sob pena de multas milionárias e exclusão do sistema financeiro americano.
Na prática, a pressão tende a empurrar os grupos para canais alternativos. “Isso proporciona incentivos adicionais para a desdolarização, visando evitar a jurisdição dos EUA, evitar bancos que operam em dólares americanos ou evitar o dólar americano por completo”, explica Passas. Segundo ele, organizações já miradas pelo Ofac no passado migraram parte de suas operações para moedas locais, criptomoedas e bancos em jurisdições com fiscalização mais frouxa.
No caso do PCC e do CV, que nos últimos anos ampliam sua presença em rotas de cocaína que passam pela Europa e pela África Ocidental, a tendência é de maior afastamento dos EUA. O dinheiro que hoje é lavado em países como Portugal pode voltar ao Brasil por caminhos mais sofisticados, com uso de camadas de empresas de fachada, consultorias legais e esquemas de comércio exterior. “A história nos ensina que esse tipo de organização rapidamente recorre a conhecimentos jurídicos sofisticados. Eles podem comprar o apoio de profissionais que lhes mostram como contornar a lei”, diz o criminologista.
Quando a pressão aumenta, as facções costumam fragmentar operações, pulverizar lideranças e descentralizar decisões. Essa dispersão geográfica e funcional dificulta o trabalho das polícias e pode, paradoxalmente, ampliar a presença territorial dos grupos. Sem mecanismos ágeis de troca de informações entre Brasil, EUA e forças de segurança europeias e africanas, cada país passa a enxergar apenas uma parte do quebra-cabeça.
Disputa política aumenta incerteza sobre cooperação
A decisão americana também atinge o tabuleiro político em Brasília. O governo Luiz Inácio Lula da Silva é contra a classificação das facções como terroristas e argumenta que a medida abre brecha para ações militares estrangeiras sob o manto do combate ao terrorismo, em choque com a legislação brasileira, que distingue crime organizado de terrorismo. A escolha de Washington ocorre um dia após o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro encerrar viagem à capital americana, onde se encontra com Donald Trump, o vice J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio.
Para Passas, esse contexto partisan sinaliza um futuro incerto para a cooperação entre os dois países. “Se não houver a cooperação internacional necessária para combater atos criminosos, um efeito indesejável e imprevisto pode ser que essas organizações se tornem mais poderosas e difíceis de detectar”, alerta. Ele vê risco de o debate sobre instrumentos jurídicos e acordos de investigação ser engolido por disputas eleitorais em Brasília e em Washington.
As próprias facções podem tentar explorar o clima político, segundo o criminologista. Ao serem rotuladas como alvos de interferência externa, lideranças do PCC e do CV podem buscar apoio em comunidades onde já exercem influência há décadas, em especial nas periferias urbanas. “Eles podem afirmar que estão agindo contra partes externas que tentam interferir em assuntos brasileiros e obter apoio político adicional”, avalia.
Na frente operacional, a nova etiqueta de terrorismo amplia o risco jurídico para qualquer tipo de interação com as facções, do transporte de cargas ao aluguel de imóveis. Consultores, advogados, contadores, motoristas, empresas de logística e de tecnologia que prestam serviços, mesmo sem ligação direta com o crime, passam a operar sob sombra de sanções. O custo de compliance aumenta, em especial para bancos médios e fintechs, pressionados a rastrear com mais precisão origens e destinos de recursos.
Medida endurece cerco, mas eficácia depende de alianças
As autoridades americanas defendem que a designação de 5 de junho oferece ferramentas adicionais para sufocar o fluxo de dinheiro que mantém o PCC e o CV. O alcance extraterritorial da lei dos EUA, que permite punir operações feitas fora do país quando passam pelo sistema financeiro em dólar, é visto em Washington como vantagem decisiva. “Do ponto de vista americano, a lei tem alcance extraterritorial, mas só será eficaz na medida em que houver acordo e cooperação com as autoridades nacionais locais”, ressalta Passas.
Sem coordenação sistemática com a Polícia Federal, o Ministério da Justiça e o Coaf, além de forças de segurança na Europa e na África, sanções tendem a produzir ganhos pontuais, não uma mudança estrutural. As facções brasileiras mostram, ao longo de pelo menos 20 anos, capacidade de transformar cada novo obstáculo em uma oportunidade de reconfigurar rotas, terceirizar etapas e sofisticar a lavagem de dinheiro. “Em outras palavras, você até pode usar suas armas nos alvos que estão ao seu redor, mas se eles se moverem para outro lugar, estarão fora do seu alcance”, resume o professor.
Os próximos meses devem expor se prevalece a lógica da cooperação ou da disputa política. Técnicos dos dois países terão de decidir como compartilhar dados, coordenar investigações e lidar com eventuais conflitos entre a lei antiterror americana e a legislação brasileira. Enquanto não há respostas claras, PCC e CV observam o movimento e ajustam, em silêncio, suas finanças, rotas e alianças. A eficácia da decisão de Washington dependerá menos do rótulo de terrorismo e mais da capacidade de conectar, em tempo real, investigações que hoje ainda correm em trilhos separados.
