Hezbollah rejeita cessar-fogo e mantém confronto com Israel
O Hezbollah rejeita nesta quarta-feira (3) o acordo de cessar-fogo anunciado pelos Estados Unidos entre Israel e Líbano e mantém os ataques na fronteira sul. A recusa, liderada por Naim Qassem, expõe o racha interno libanês e amplia o risco de uma nova escalada militar na região.
Reação ao plano de Washington e pressão na fronteira
Horas após Washington anunciar que Israel e Líbano concordam em implementar um cessar-fogo condicionado à retirada de combatentes do Hezbollah do sul do país, o grupo xiita reage com dureza. Em comunicado, Naim Qassem chama as conversas de “vergonhosas” e descreve a proposta americana como “um roteiro para a aniquilação de uma parte do povo libanês e a escravização do restante”.
O plano prevê a suspensão dos ataques e a retirada das forças do Hezbollah das áreas próximas à fronteira, onde Israel mantém desde o início da guerra o que chama de “zona de segurança”. Para o grupo libanês, essa exigência consolida a presença militar israelense em território libanês sem garantias reais para a população local. “Enquanto a ocupação existir, a resistência continuará”, afirma Qassem.
Conflito prolongado e influência regional
Os confrontos entre Israel e Hezbollah se intensificam em 2 de março, quando o grupo libanês abre fogo em apoio ao Irã, alvo de ataques conjuntos de Israel e Estados Unidos. Desde então, sucessivos anúncios de cessar-fogo por Washington, a partir de abril, falham em interromper de forma duradoura a troca de mísseis, drones e artilharia ao longo da fronteira. O combate volta a se concentrar em povoados do sul do Líbano e em cidades do norte de Israel, com deslocamento de milhares de moradores em ambos os lados.
O conflito deixa de ser apenas uma disputa de fronteira e se converte em peça central nas negociações diplomáticas sobre a crise regional. Teerã, que ajudou a fundar o Hezbollah em 1982 por meio da Força Quds da Guarda Revolucionária, pressiona para que qualquer acordo inclua o fim dos ataques israelenses em território libanês. O atual comandante da Força Quds define como “exigência mínima da resistência” a retirada de Israel às posições que ocupava antes da ofensiva e da invasão do sul do Líbano.
Nas cidades libanesas, o clima é de impasse. O presidente Joseph Aoun descreve a proposta de Washington como “uma última oportunidade para garantir um cessar-fogo abrangente e permanente”. Ele afirma que o acordo poderia entrar em vigor em um dia, caso todas as partes o aprovassem, referência indireta ao poder de veto do Hezbollah sobre qualquer trégua. A fala antecede a rejeição pública de Qassem, que esvazia, ao menos por ora, a aposta do governo libanês na mediação americana.
Território em disputa e riscos para civis
Naim Qassem insiste que qualquer cessar-fogo real precisa incluir o sul do Líbano, hoje sob forte presença militar israelense. Israel afirma que a “zona de segurança” criada na região serve para proteger seu norte de ataques do Hezbollah. O líder do grupo responde que as cidades israelenses seguirão vulneráveis enquanto vilarejos libaneses continuarem sob bombardeio. “As cidades no norte de Israel não estarão seguras enquanto nossas aldeias estiverem inseguras, bombardeadas, destruídas e nosso povo estiver sendo morto”, declara.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, confirma que não há recuo imediato nas operações. Ele diz que o país “continuará, por enquanto, seus ataques e operações em terra” e promete desmantelar “a infraestrutura terrorista na área”. Segundo Katz, Israel tem “liberdade de ação, com o apoio dos EUA, para atacar Beirute em resposta a ataques contra comunidades e território israelenses”. Fontes de segurança relatam diversos ataques aéreos no sul do Líbano nas últimas horas.
A Agência Nacional de Notícias do Líbano informa que ao menos cinco pessoas morrem em bombardeios na cidade de Sohmor. Moradores relatam drones sobrevoando bairros de Beirute, enquanto sirenes voltam a soar em localidades israelenses próximas à fronteira. Organizações humanitárias calculam que dezenas de milhares de libaneses deixam suas casas desde março, repetindo o padrão de deslocamento interno visto em conflitos anteriores, como os de 2006 e 2021.
Mediação em xeque e próximos passos
A recusa do Hezbollah atinge o coração da estratégia americana para conter a escalada no Oriente Médio. Ao condicionar o cessar-fogo à retirada do grupo do sul do Líbano, Washington tenta responder às exigências israelenses de segurança sem romper com o frágil governo de Beirute. A negativa pública de Qassem expõe tanto a limitação do poder de Aoun dentro do país quanto o peso de Teerã nas decisões militares da fronteira.
Diplomatas na região avaliam que, sem uma fórmula que trate ao mesmo tempo da presença israelense no sul do Líbano e dos ataques do Hezbollah, novos planos de cessar-fogo tendem a fracassar. A continuidade dos bombardeios amplia o risco de erros de cálculo, mortes em massa e arrasta o conflito para além da faixa de fronteira, com potencial de envolver diretamente outras milícias aliadas do Irã. Enquanto Israel prepara novas operações e o Hezbollah promete manter a “resistência”, permanece em aberto a pergunta central da crise: quem terá disposição política para ceder primeiro em uma guerra que nenhum dos lados declara pronto para encerrar?
