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Trump ameaça retomar guerra com Irã se soldados dos EUA forem mortos

Donald Trump ameaça, nesta quinta-feira (4), retomar ações militares contra o Irã caso soldados americanos sejam mortos por forças iranianas. A declaração é feita no Salão Oval, em meio a negociações frágeis e nova escalada de tensões no Oriente Médio.

Linha vermelha em meio a negociações travadas

Trump fala diante de repórteres no Salão Oval e deixa claro qual é, para ele, o limite da contenção. Questionado se a morte de militares americanos por Teerã cruzaria uma linha vermelha, responde sem rodeios: “Bem, seria um bom motivo. Vou ser honesto com você”. Em seguida, reforça que a reação seria imediata. “Se eles matassem soldados americanos, acho que eu faria isso muito rapidamente. Sim, essa é uma pergunta muito interessante”, afirma.

A ameaça ocorre enquanto Washington tenta sustentar, ao mesmo tempo, dois movimentos opostos: pressionar o regime iraniano e manter aberta uma porta para um acordo que encerre a guerra iniciada após o ataque conjunto de Estados Unidos e Israel contra o país persa. Trump insiste, desde a véspera, que um entendimento é possível “neste fim de semana”. Em Teerã, porém, o chanceler afirma que não há “processo significativo” de negociação em curso, expondo o descompasso entre discurso e realidade.

No gabinete presidencial, o clima é de simultânea escalada e tentativa de controle. Trump repete que impedir o Irã de ter uma arma nuclear é objetivo inegociável. “Se você quiser chamar de guerra, se quiser chamar de operação militar, não se pode deixar o Irã ter uma arma nuclear, e todos concordam com isso”, diz. A fala ecoa posições de governos democratas e republicanos ao longo das últimas duas décadas, mas ganha novo peso após a ofensiva recente e o endurecimento das sanções.

Pressão sobre Teerã, impacto global no petróleo

Ao reafirmar a disposição de voltar à ofensiva militar, Trump mira diretamente a cúpula iraniana. Ele diz estar disposto a se reunir com o novo líder supremo do Irã, condição que vincula a um acordo para encerrar a guerra. “Eu não quero me reunir. Mas, se eu me reunisse, ficaria honrado em encontrá-lo. Gostaria de ver se fazemos um acordo, mas, se fizermos um acordo, é possível que eu me reúna com ele. Eu ficaria bem com isso”, afirma.

Trump admite que não é “a pessoa favorita” do líder iraniano, mas o descreve como “provavelmente um profissional” que, “em alguns círculos, tem uma reputação muito boa, na verdade”. O presidente evita detalhar onde poderia ocorrer um eventual encontro. Questionado se a reunião aconteceria nos Estados Unidos, responde que não sugeriu essa opção, embora “algumas pessoas” tenham levantado a possibilidade.

Enquanto a diplomacia patina, o campo de batalha pressiona a economia global. O ataque que desencadeia a fase mais recente do conflito leva o regime iraniano a fechar, na prática, o Estreito de Ormuz, ponto por onde passa uma parcela significativa do petróleo exportado no mundo. O estrangulamento da rota represa navios, encarece seguros e eleva o preço do barril em mercados já sensíveis desde o início da guerra na região.

No Salão Oval, o secretário de Energia, Chris Wright, tenta blindar a Casa Branca do desgaste provocado pela alta dos combustíveis nos Estados Unidos. Ele responsabiliza as políticas ambientais dos democratas, e não o conflito no Oriente Médio, pelo aumento das contas de energia. “A maior ameaça aos preços de energia nos Estados Unidos são as políticas de energia verde dos democratas”, afirma. Segundo Wright, essas medidas “elevaram os preços de energia muito mais do que um conflito no Irã, e o conflito no Irã vai chegar ao fim”.

Libano em fogo cruzado e disputa política em Washington

A ofensiva americana contra o Irã repercute diretamente no Líbano, onde o Hezbollah, aliado de Teerã, enfrenta Israel. Horas após o anúncio de um cessar-fogo mediado por Washington entre Beirute e o governo de Benjamin Netanyahu, um soldado israelense morre atingido por um míssil antitanque do grupo xiita no sul libanês. Tiros e foguetes voltam a cruzar a fronteira poucas horas depois do início formal da trégua.

Trump insiste que há “progresso” para encerrar os combates e relata contatos diretos tanto com Netanyahu quanto com o Hezbollah. O presidente afirma que o grupo armado “ligou para nós e disse: ‘Que tal parar?’”. Na prática, o cessar-fogo depende do fim dos ataques do Hezbollah, que não é parte oficial do acordo e tem seu líder publicamente contrário ao pacto. “O conflito está interconectado com o Irã”, resume o republicano. “Seria muito bom se o Líbano pudesse ter alguma paz. O Líbano está sob ataque há tantos anos, sempre como o lado mais fraco, seria muito bom se isso pudesse acabar”, diz.

Enquanto a região se rearranja sob fogo, Trump enfrenta resistências crescentes no Capitólio. A Câmara dos Representantes aprova, na quarta-feira, resolução que limita seus poderes de guerra em relação ao Irã, num recado direto ao presidente sobre o alcance de sua autoridade militar. No dia seguinte, porém, os deputados rejeitam, por 324 votos a 92, outro texto, apresentado pela democrata Rashida Tlaib, que exigia a retirada das forças americanas de qualquer operação no Líbano em até sete dias.

A liderança democrata se posiciona contra a resolução de Tlaib e argumenta que não há militares dos Estados Unidos envolvidos em combate direto no país. Os parlamentares preferem uma proposta mais restrita, também de autoria da deputada, que prevê tirar tropas de “quaisquer hostilidades no Líbano”, mas deixa espaço para cooperação com as Forças Armadas libanesas e para a proteção de embaixadas. As votações revelam um Congresso dividido entre conter aventuras militares e manter margem de manobra para apoiar aliados em uma região que concentra boa parte das reservas de petróleo do planeta.

Alertas aos americanos e incerteza no horizonte

O Departamento de Estado reforça, nesta quinta-feira, o alerta a cidadãos americanos em todo o Oriente Médio. Em comunicado publicado no X e em notas de segurança enviadas a embaixadas, Washington cita “altas tensões” e um ambiente “complexo” que pode mudar “rapidamente”. Os Estados Unidos e o Irã seguem trocando ataques, mesmo após o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmar publicamente que a guerra “acabou”.

Na véspera, mísseis iranianos atingem o Kuwait, ferem dezenas de pessoas e matam ao menos uma, segundo autoridades locais. A lista de países com recomendação para que americanos reconsiderem viagens já inclui Bahrein, Israel, Cisjordânia, Jordânia, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, todos classificados no Nível 3. Irã, Iraque, Líbano, Síria, Gaza e Iêmen permanecem no Nível 4, o grau máximo de risco, que indica “não viaje”.

A combinação de ameaças militares, mercado de energia pressionado e disputa política em Washington cria um cenário de incerteza para as próximas semanas. A promessa de Trump de reagir “muito rapidamente” a qualquer morte de soldados americanos na mão de forças iranianas adiciona um gatilho explícito ao tabuleiro. Cada novo ataque na região passa a ser medido também pelo potencial de acionar essa resposta.

Diplomatas em Washington e capitais europeias tentam, nos bastidores, manter abertos canais de diálogo que evitem esse desfecho e garantam alguma previsibilidade ao fluxo de petróleo e à segurança de civis. Até agora, porém, sinais divergentes entre Casa Branca e Teerã, a rejeição do cessar-fogo pelo Hezbollah e a fragmentação do apoio no Congresso indicam que a paz ainda está distante. Resta saber se a linha vermelha traçada por Trump contém o conflito ou se torna o próximo passo rumo a uma nova fase de guerra aberta.

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