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Justiça da Colômbia veta uso de camisa da seleção por candidato

A Justiça da Colômbia proíbe, nesta quinta-feira (4), o candidato presidencial Abelardo de la Espriella de usar a camisa da seleção nacional em aparições públicas e campanhas. A decisão, tomada a menos de cinco meses das eleições de 2026, mira o uso político de símbolos patrióticos e acende um debate sobre os limites da propaganda eleitoral.

Judiciário entra em campo na corrida presidencial

O veto atinge um dos símbolos mais populares do país, presente em estádios, bares e praças sempre que a seleção entra em campo. Ao impedir que a camisa amarelinha seja convertida em marca de campanha, a Justiça busca, segundo a decisão, preservar a “neutralidade e a legalidade do processo eleitoral”.

Abelardo de la Espriella aparece nas pesquisas como um dos nomes mais visíveis da disputa de 2026 e vinha explorando a imagem da seleção em comícios, peças audiovisuais e transmissões ao vivo. Em vídeos recentes, ele surge vestindo o uniforme oficial, cercado por bandeiras, sob o slogan que associa patriotismo e renovação política.

A sentença, proferida em 4 de junho de 2026, atinge imediatamente toda a estrutura de campanha do candidato. A equipe jurídica de Espriella estuda recorrer, mas, enquanto isso, precisa retirar a camiseta da seleção de materiais impressos, redes sociais e eventos presenciais, sob pena de multas e sanções que podem incluir a cassação de registro de propaganda.

O processo nasce de representações apresentadas por adversários políticos e por entidades ligadas à fiscalização eleitoral, que apontam uso indevido de símbolos nacionais para obter vantagem nas urnas. A legislação colombiana proíbe a apropriação de emblemas estatais e de ícones que representem a totalidade da nação por qualquer força ou candidato, sobretudo em período de campanha.

Disputa entre patriotismo e propaganda

A camisa da seleção ocupa, na Colômbia, um espaço que extrapola o futebol. Em finais de Copa América e em Copas do Mundo, milhões de torcedores saem às ruas com o uniforme, transformando o país em um mar amarelo, azul e vermelho. Esse poder de mobilização seduz campanhas desde os anos 1990, mas a Justiça reage com mais rigor à medida que a polarização se acentua.

O tribunal que assina a decisão ressalta que “nenhum candidato pode pretender monopolizar símbolos que pertencem a todos os colombianos”. A sentença argumenta que, ao vestir a camisa em contextos explicitamente eleitorais, Espriella dilui a fronteira entre apoio à seleção e apoio político. “O eleitor precisa distinguir entre entusiasmo esportivo e adesão partidária”, registra um trecho do despacho.

Aliados de Espriella veem na medida uma tentativa de enfraquecer sua narrativa nacionalista. “É uma camisa, não um programa de governo”, reage um integrante da coordenação de campanha, sob reserva. Para esse grupo, o veto fere a liberdade de expressão e abre espaço para interpretações subjetivas sobre o que é ou não um símbolo político.

Críticos do candidato defendem o oposto. “Quando um presidenciável transforma a seleção em cabo eleitoral, ele pressiona emocionalmente o eleitor e contamina um espaço que deveria ser comum”, afirma um professor de direito constitucional da Universidade Nacional, ouvido pela reportagem. Segundo ele, a decisão “não é censura”, mas “aplicação estrita das regras do jogo democrático”.

O Conselho Nacional Eleitoral colombiano já monitora, há pelo menos dois ciclos eleitorais, o uso de bandeiras, brasões e hinos em campanhas. Em 2018, uma resolução interna advertiu partidos por exibirem o brasão da República em peças de televisão. Em 2022, candidatos ao Congresso foram multados por associar slogans partidários a imagens oficiais das Forças Armadas.

Impacto imediato na campanha e no jogo político

A proibição impõe uma mudança de rota concreta à campanha de Espriella. Equipes de marketing terão de refazer peças, recalibrar slogans e reconstruir a identidade visual em poucas semanas. A depender da extensão dos materiais, o custo adicional pode chegar a centenas de milhares de dólares, segundo estimativas de consultores políticos ouvidos reservadamente.

No curto prazo, a decisão tende a alimentar a narrativa de vitimização, frequente em campanhas que se apresentam como antissistema. Espriella já vinha explorando a ideia de enfrentamento ao establishment político e ao Judiciário, em linha com fenômenos de direita dura em outros países da região. O veto à camisa da seleção oferece um novo elemento para esse discurso.

Nas redes sociais, a repercussão é imediata. Em poucas horas, a hashtag com o nome do candidato aparece entre os assuntos mais comentados do país. Apoiadores acusam o tribunal de “politizar o futebol” e de “tomar a camisa do povo”. Usuários críticos comemoram o que chamam de “cartão amarelo” à mistura entre nacionalismo e marketing eleitoral.

O impacto, porém, não se limita a um candidato. A decisão funciona como recado para todo o campo político às vésperas do primeiro turno, previsto para o fim de 2026. Partidos começam a revisar jingles, vídeos e materiais impressos para evitar associação direta a símbolos que possam ser enquadrados como nacionais, sob risco de sanções semelhantes.

A discussão reacende um dilema conhecido em democracias da região: até que ponto o Estado deve intervir para impedir que campanhas capturem símbolos compartilhados pela sociedade. Para parte dos analistas, a resposta passa por regras claras e fiscalização estável, não por decisões casuísticas.

Precedentes, cenário de 2026 e o que vem a seguir

Especialistas lembram que a Colômbia, ao lado de países como Brasil e México, tem histórico de tensão em torno do uso político das cores nacionais. Em 2014 e 2018, torcidas misturaram camisetas de seleções e camisetas de candidatos em festas e protestos, borrando fronteiras entre arquibancada e palanque. A decisão contra Espriella tenta, justamente, reerguer esse muro em 2026.

O processo eleitoral deste ano já nasce sob forte carga emocional. A violência política registrada em ciclos anteriores, o descrédito em relação às instituições e a influência das redes sociais configuram um terreno fértil para símbolos potentes, como a seleção, serem usados como atalho para conquistar corações e votos. O tribunal insiste que esse atalho precisa ser bloqueado para proteger a igualdade de condições entre candidaturas.

A campanha de Espriella promete reagir. Assessores falam em recorrer a instâncias superiores e, se necessário, levar o caso a cortes internacionais, alegando violação de direitos políticos. Não há prazo público para julgamento de um eventual recurso, mas o calendário eleitoral corre: a menos de um ano da posse prevista para agosto de 2027, cada semana conta na disputa pela opinião pública.

A Justiça, por sua vez, sinaliza que o assunto não se encerra na camisa da seleção. Outras representações tramitam em instâncias eleitorais e podem atingir diferentes campanhas, caso se comprove uso indevido de símbolos estatais, religiosos ou militares. O caso Espriella tende a servir de referência, seja como exemplo de contenção bem-sucedida, seja como alerta sobre os riscos de decisões vistas como intervencionistas.

O desfecho ainda é aberto. A pergunta que ecoa, em Bogotá e além, é se a democracia colombiana consegue proteger seus símbolos sem sufocar o debate político, ou se a disputa pela camisa da seleção é apenas o primeiro tempo de uma partida mais longa entre Justiça, candidatos e eleitores.

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