Esportes

Morre Leivinha, ídolo do Palmeiras e da Seleção, aos 76 anos

O ex-meia-atacante Leivinha, ídolo do Palmeiras e da Seleção Brasileira, morre nesta quinta-feira, 4 de junho de 2026, em São Paulo, aos 76 anos. Ele enfrenta complicações decorrentes do Alzheimer, doença que o afasta da vida pública nos últimos anos.

Despedida de um símbolo da Segunda Academia

A notícia da morte de João Leiva Campos Filho, o Leivinha, corre rápido entre ex-companheiros, torcedores e clubes. As primeiras manifestações surgem ainda pela manhã, em notas oficiais e publicações nas redes sociais. O tom é de luto, mas também de gratidão pela trajetória de um dos jogadores mais elegantes de sua geração.

Nascido em 11 de setembro de 1949, em Novo Horizonte, no interior paulista, Leivinha chega ao Palmeiras em 1971 e encontra um clube em reconstrução. Ele se encaixa de imediato na chamada Segunda Academia, time que marca época pelo futebol ofensivo e pela combinação de técnica e intensidade. Em apenas três anos, ajuda a conduzir o Verdão ao bicampeonato brasileiro, em 1972 e 1973, e consolida seu nome entre os grandes da história alviverde.

O meio-campista ofensivo se destaca pelo senso de colocação, pela capacidade de pensar o jogo e pela precisão no cabeceio. Em tempos sem estatísticas avançadas, seus números ainda impressionam: são 267 partidas e 108 gols com a camisa palmeirense, além de seis títulos conquistados. Os dados o colocam em patamar de ídolo, mas é a memória afetiva dos torcedores que sustenta o mito.

No Morumbi, em 1971, ele vive um dos episódios mais lembrados de sua carreira. Em final de Campeonato Paulista contra o São Paulo, o time tricolor vence por 1 a 0 e joga pelo empate para ser campeão. No segundo tempo, o lateral Eurico cruza da direita, Leivinha se antecipa à defesa e cabeceia para o gol. O auxiliar corre para o meio de campo, mas o árbitro Armando Marques anula o lance ao marcar toque de mão. As imagens mostram depois que o contato é apenas com a cabeça. A decisão entra para o folclore do futebol paulista, e o gol inexistente reforça a aura trágica em torno do ídolo.

Carreira marcante no Brasil, na Europa e na Seleção

Antes de virar referência no Palmeiras, Leivinha passa pela base do Linense e ganha espaço no futebol profissional pela Portuguesa. Depois do auge no clube alviverde, transfere-se para o Atlético de Madrid, em movimento comum nos anos 1970, quando a Espanha se torna destino de jogadores brasileiros. Mais tarde, ainda atua pelo São Paulo, fechando um ciclo por grandes camisas do futebol nacional.

A carreira se encerra de forma precoce, aos 29 anos, por causa de problemas físicos que se acumulam ao longo da década. O fim antecipado alimenta a sensação de que Leivinha poderia ir ainda mais longe. Àquela altura, porém, o legado já está consolidado, dentro e fora do país.

Pela Seleção Brasileira, ele participa de todo o ciclo que leva à Copa do Mundo de 1974, na então Alemanha Ocidental. Disputa três partidas na primeira fase do Mundial, diante de Iugoslávia e Escócia, ambos empates por 0 a 0, e na vitória por 3 a 0 sobre o Zaire. O torneio termina com o Brasil em quarto lugar, em transição após o tricampeonato de 1970, e ajuda a projetar uma nova geração de jogadores.

Em 1973, o meia-atacante escreve outro capítulo simbólico de sua trajetória. No Maracanã, em amistoso contra a Bolívia, ele marca o milésimo gol da Seleção Brasileira, em vitória por 5 a 0. O número vira marca histórica e o acompanha até o fim da vida, como lembrete de seu lugar na linha do tempo do futebol nacional. Ao todo, são 27 jogos e sete gols com a camisa do Brasil.

Depois de pendurar as chuteiras, Leivinha se mantém ligado ao esporte. No início dos anos 2000, trabalha como comentarista esportivo no canal por assinatura SporTV, levando ao estúdio a experiência de quem viveu vestiários de elite no Brasil e na Europa. A presença em transmissões e programas ajuda a apresentar sua história a uma nova geração de torcedores.

Impacto, luto e preservação da memória

A morte de Leivinha mobiliza o Palmeiras, a Seleção e os clubes por onde passou. As diretorias preparam homenagens em jogos do fim de semana, com minuto de silêncio, faixas nas arquibancadas e exibição de imagens históricas nos telões. Ex-companheiros de campo, jornalistas e torcedores compartilham relatos pessoais e fotos antigas, transformando as redes sociais em um grande memorial digital.

Na torcida palmeirense, o sentimento é duplo. Há o luto pela perda de um dos protagonistas da Segunda Academia, um período que define a identidade do clube. E há também a percepção de que a geração de ídolos dos anos 1970 se despede aos poucos, o que reforça a urgência de preservar histórias, imagens e registros. O clube já mantém ações de memória, mas a morte de um personagem central costuma acelerar projetos de museu, documentários e séries especiais.

O caso também chama atenção para o impacto do Alzheimer em ex-atletas. A doença, que avança de forma silenciosa e progressiva, afeta a memória e a autonomia do paciente. Leivinha convive com o quadro nos últimos anos, afastado da rotina de eventos, programas e estádios. Especialistas em saúde do esporte defendem mais pesquisas sobre a relação entre traumas repetidos na cabeça e problemas neurológicos em ex-jogadores, discussão ainda incipiente no Brasil.

No ambiente midiático, emissoras e portais de notícias montam coberturas especiais, recuperam gols, entrevistas e jogos completos. Programas esportivos dedicam blocos inteiros ao ex-jogador, detalham sua trajetória e ouvem relatos emocionados de quem dividiu vestiário com ele. A lembrança de cabeceios precisos, gols decisivos e atuações em clássicos reforça a imagem de um jogador ao mesmo tempo cerebral e decisivo.

Homenagens, legado e a pergunta que fica

O velório e o enterro de Leivinha reúnem familiares, ex-companheiros, dirigentes e torcedores, em São Paulo. O Palmeiras se organiza para promover uma homenagem permanente ao ídolo, que pode incluir um espaço fixo no museu do clube, exibição de camisas históricas e ações com as categorias de base. Dirigentes defendem que jovens atletas conheçam a história de quem ajudou a construir a identidade palmeirense.

O legado de Leivinha se projeta além dos números. Ele simboliza uma época em que o futebol brasileiro combina estética e competitividade, e em que o cabeceio, hoje menos comum, decide títulos e clássicos. Ao recontar sua trajetória, o futebol brasileiro revisita uma parte de si próprio e se vê diante de uma pergunta incômoda: como garantir que memórias como a de Leivinha não se percam quando o apito final da vida já soa faz tempo?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *