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Câmara dos EUA reage e tenta limitar poder de Trump em guerra com Irã

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprova nesta quarta-feira (3/6), por margem estreita, uma resolução que tenta limitar os poderes militares de Donald Trump contra o Irã. A iniciativa, apoiada por parte dos republicanos, mira novas ações bélicas e expõe o desgaste interno com uma guerra que se arrasta desde fevereiro no Oriente Médio.

Rebelião rara em Washington em meio à guerra

O placar de 215 votos a 208 revela um Congresso dividido, mas disposto a testar os limites da Casa Branca em plena ofensiva militar. Quatro republicanos rompem com o partido e se juntam à maioria democrata, em uma das críticas mais contundentes ao presidente desde o início do conflito.

Thomas Massie, Brian Fitzpatrick, Tom Barrett e Warren Davidson desafiam a liderança republicana e apoiam o texto, que busca frear novas operações sem aval legislativo. O democrata Jared Golden, do Maine, que resiste em votações anteriores, muda de posição e reforça o recado de desgaste com a escalada no Golfo Pérsico.

“Somente o Congresso declara guerra, isso é algo que certamente precisamos proteger”, afirma Barrett, deputado por Michigan, ao justificar o voto. Questionado sobre possíveis retaliações políticas da Casa Branca, ele responde: “Eu voto de acordo com minha consciência, pelo que acho certo, e estou disposto a aceitar isso”.

A resolução aprovada não encerra a guerra nem obriga o governo a recuar de imediato, mas tenta restabelecer o papel do Legislativo no controle do uso da força. É a quarta vez que a Câmara tenta reduzir os poderes de Trump desde o início da ofensiva contra o Irã, em 28 de fevereiro, refletindo um incômodo que cresce a cada novo ataque.

Guerra se arrasta e pressiona Congresso e Casa Branca

O conflito começa quando Estados Unidos e Israel lançam ataques coordenados contra alvos iranianos no fim de fevereiro. Teerã reage com mísseis contra Israel e contra Estados aliados de Washington no Golfo, além de praticamente fechar o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa parte crucial do petróleo mundial.

Em abril, o governo americano anuncia um bloqueio naval a embarcações que navegam de ou para a costa iraniana. A medida encarece o transporte marítimo, agrava tensões com aliados europeus e alimenta previsões de alta prolongada nos preços de combustíveis.

Os dois países anunciam um cessar-fogo inicial em 8 de abril, mas a trégua se mostra frágil. Nas últimas semanas, os Estados Unidos voltam a bombardear alvos iranianos, e o Irã responde com ataques ao Kuwait, aliado estratégico de Washington no Golfo. As ofensivas multiplicam riscos de erro de cálculo e de um confronto mais amplo na região.

O deputado Gregory Meeks, principal democrata no Comitê de Relações Exteriores da Câmara, descreve o voto desta quarta como uma “repreensão bipartidária significativa à guerra ilegal do presidente Trump no Irã e o primeiro passo para encerrá-la de uma vez por todas”. Para ele, Trump falha ao não alcançar os objetivos declarados da campanha militar, enquanto provoca alta de combustíveis e dificulta uma saída diplomática para o programa nuclear iraniano.

“A aprovação desta medida hoje sinaliza um ponto de virada significativo: cada vez mais republicanos estão ouvindo seus eleitores, que não querem outra guerra sem fim no Oriente Médio”, afirma Meeks.

Limites reais e cálculo político no Capitólio

A resolução segue agora para o Senado, controlado pelos republicanos. Em maio, os senadores conseguem avançar em um texto semelhante, após sete tentativas frustradas, mas ainda não o levam ao plenário. Mesmo se o projeto prosperar nas duas Casas, o presidente pode vetar a medida.

Para derrubar um veto, seria necessário o apoio de dois terços da Câmara e do Senado, patamar distante do equilíbrio atual de forças. Na prática, o gesto da Câmara funciona como sinal político ao governo e às Forças Armadas: qualquer nova escalada militar tende a enfrentar resistência maior em Washington.

Trump tenta minimizar o desgaste e insiste que as negociações com Teerã “vão muito bem”. Na Casa Branca, horas antes da votação, o presidente diz a jornalistas que um acordo pode ser fechado “já neste fim de semana”. Ele reconhece, no entanto, que a pressão continua sobre o Irã. “Nós os atingimos com força na noite anterior, e também na noite anterior a essa”, afirma, ao comentar os bombardeios recentes.

O presidente descreve parte dos ataques iranianos como resposta previsível à posição de força americana. “Algumas pessoas diriam que eles foram ligeiramente provocados, porque tomamos uma ação forte por um motivo diferente, então eles estavam apenas revidando”, diz. Mesmo assim, ele tenta reforçar a ideia de que o fim da guerra está próximo. “Em teoria, eles estão bem perto de assinar. Na verdade, nós nos demos muito bem com eles”, declara, ao falar de Teerã.

Cessar-fogo paralelo entre Israel e Líbano eleva pressão por paz

Enquanto o Legislativo americano tenta redesenhar os limites da guerra, a diplomacia dos Estados Unidos anuncia um avanço em outro front. Também nesta quarta, Israel e Líbano concordam com um cessar-fogo, mediado em Washington e divulgado em comunicado oficial do Departamento de Estado.

O acordo prevê a “interrupção completa” dos ataques do Hezbollah, grupo xiita apoiado pelo Irã, e impõe novas condições para a presença de combatentes no sul do Líbano. O texto menciona a retirada de todos os integrantes do Hezbollah de uma faixa que vai da fronteira até o rio Litani, chamada de Setor Sul do Litani. O grupo ainda não comenta publicamente a proposta.

A trégua acontece após uma semana de escalada. Ataques israelenses matam ao menos nove pessoas no sul do Líbano nesta quarta, enquanto o Hezbollah lança foguetes contra o norte de Israel. O Líbano entra na guerra em 2 de março, quando o grupo dispara mísseis em resposta a um ataque israelense que mata o líder supremo do Irã.

Desde então, Israel realiza uma campanha aérea intensa e avança com tropas terrestres no território libanês. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, chega a anunciar, no fim de março, a criação de uma zona de segurança no sul do país vizinho, impedindo o retorno de milhares de moradores deslocados até que o norte de Israel seja considerado seguro.

Os custos humanos são altos. Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, ao menos 3.516 pessoas morrem desde o início da guerra, sem distinção entre civis e combatentes. A ONU registra mais de 1 milhão de deslocados internos. Israel informa a morte de 26 soldados e quatro civis dos dois lados da fronteira.

Equilíbrio de poderes e incerteza no horizonte

O cessar-fogo entre Israel e Líbano entra em vigor em meio a uma trégua parcial já testada nos últimos dias. As partes concordam em retomar negociações em 22 de junho, com a meta de um acordo mais amplo e definitivo. Estados Unidos, Israel e Líbano reforçam em comunicado que o futuro da relação entre os dois países deve ser decidido por seus governos soberanos, sem interferência de atores externos.

No Capitólio, o movimento para limitar os poderes de guerra de Trump reforça a disputa de prerrogativas entre Executivo e Legislativo, um tema recorrente na política americana desde o Vietnã. A votação desta quarta não encerra a guerra no Irã nem os confrontos no Líbano, mas marca uma mudança no clima político em Washington, onde cresce a aversão a conflitos prolongados e caros.

Se o Senado confirmar a resolução e se o Congresso conseguir impor algum freio duradouro à Casa Branca, futuras intervenções americanas no Oriente Médio tendem a enfrentar mais debate e exposição pública. Se a medida travar no caminho, Trump terá sinal verde político para seguir apostando em pressão militar enquanto tenta vender ao eleitorado a promessa de um acordo “sem matar todo mundo”.

Entre o avanço diplomático no Líbano, a guerra aberta com o Irã e a disputa de poder em Washington, o próximo capítulo depende tanto de votos no Senado quanto de decisões de campo. A questão agora é se a política americana consegue acompanhar o ritmo das bombas no Oriente Médio.

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