Ultimas

Ataque com drones ucranianos atinge navio russo às vésperas de fórum

A Ucrânia lança, na madrugada de 3 de junho de 2026, um ataque maciço com centenas de drones contra cidades russas e atinge a corveta Boikiy, da Frota do Báltico, perto de São Petersburgo. A ofensiva ocorre poucas horas antes da abertura do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, vitrine anual do presidente Vladimir Putin para investidores e autoridades estrangeiras.

Ataque coordenado às vésperas da vitrine de Putin

O ataque cruza a fronteira política e simbólica da guerra. Drones ucranianos alcançam Moscou, atingem três distritos de São Petersburgo e miram alvos militares estratégicos na região de Leningrado. No mar Báltico, perto do porto da ilha de Kronstadt, as Forças Armadas ucranianas dizem atingir a corveta Boikiy, navio equipado com mísseis guiados e usado para escoltar embarcações da frota petrolífera russa paralela.

O Ministério da Defesa russo afirma que suas defesas aéreas interceptam e destroem mais de 350 drones ao longo da noite, em áreas próximas à fronteira e no interior do país, incluindo a região de Novgorod. Moscou, porém, não confirma de imediato o dano ao navio de guerra. A CNN informa ter solicitado posicionamento oficial ao governo russo sobre o ataque à Boikiy e sobre o alcance real dos estragos.

Na versão ucraniana, o recado é claro. Atingir um navio escolta de uma frota que Moscou usa para contornar sanções significa mirar diretamente um dos pilares econômicos da máquina de guerra russa: a exportação de petróleo. Militares ucranianos afirmam que Moscou utiliza a Boikiy para proteger carregamentos da chamada “frota sombria”, responsável por transportar petróleo fora do radar das sanções ocidentais.

A ofensiva acontece poucas horas antes da abertura do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, que começa oficialmente nesta quarta-feira, 3 de junho. O evento reúne, segundo a agência estatal russa TASS, mais de 20 mil participantes de mais de 100 países e é tratado pelo Kremlin como uma espécie de Davos russo, criado para mostrar resiliência econômica diante do isolamento imposto pelo Ocidente desde 2022.

Pressão militar, econômica e simbólica

O impacto é imediato na rotina da cidade-sede do fórum. O aeroporto internacional de São Petersburgo restringe o espaço aéreo pela manhã e atrasa cerca de duas dezenas de voos. As operações só são retomadas na tarde de quarta-feira, no horário local, após a queda do número de drones em circulação. O governador Aleksandr Beglov confirma que três distritos da cidade sofrem ataques, sem detalhar a extensão dos danos.

Ao levar a guerra de forma tão visível para a segunda maior cidade da Rússia, a Ucrânia testa a narrativa de segurança interna do Kremlin. São Petersburgo não é apenas um centro econômico e cultural: é a cidade natal de Vladimir Putin e palco anual da agenda internacional que ele usa para sinalizar que o país continua aberto a negócios, apesar das sanções. A coincidência de datas amplia o desgaste político.

O fórum deste ano tenta justamente convencer investidores de que a economia russa resiste às restrições. O assessor presidencial Yury Ushakov promete, na véspera, um “grande discurso” de Putin para sexta-feira, 5 de junho, centrado em “problemas econômicos” e “questões políticas”. A ofensiva ucraniana insere na programação um tema que o Kremlin prefere controlar: a vulnerabilidade de suas infraestruturas estratégicas longe da linha de frente.

A lista de convidados adiciona um elemento diplomático delicado. Entre as figuras estrangeiras esperadas estão a podcaster americana Candace Owens e Rodney Mims Cook Jr., presidente da Comissão de Belas Artes dos Estados Unidos, nomeado para o cargo pelo então presidente Donald Trump. Cook se torna o primeiro funcionário americano a participar do fórum desde 2017, o que dá peso adicional à percepção externa de segurança na cidade.

A guerra já tinha cruzado fronteiras geográficas ao longo de 2024 e 2025, com ataques de drones ucranianos contra refinarias, depósitos de combustível e aeroportos militares no interior da Rússia. A investida desta semana amplia essa estratégia. Em vez de focar apenas na capacidade de combate imediato, Kiev mostra que pode atingir também a infraestrutura que mantém o petróleo russo circulando e alimentando o orçamento do Estado.

O que muda na guerra e no tabuleiro internacional

Para a Ucrânia, o ataque serve a mais de um objetivo. Ao mirar a Boikiy, Kiev busca enfraquecer a proteção da frota petrolífera russa e encarecer o esforço para driblar as sanções. Ao espalhar drones por dezenas de localidades, quer sobrecarregar as defesas aéreas e testar respostas em diferentes frentes. Ao fazer tudo isso às vésperas do fórum, tenta expor fissuras na imagem de estabilidade que Putin apresenta a parceiros e investidores.

Do lado russo, o discurso oficial tende a insistir na ideia de “atos terroristas” e a ressaltar o número de drones abatidos, mais de 350 segundo o Ministério da Defesa. A ênfase na eficácia do escudo aéreo busca compensar a falta de detalhes sobre eventuais danos a navios, bases ou instalações industriais. A mensagem interna é de controle da situação, mesmo quando explosões ocorrem a poucos quilômetros de um dos eventos mais vigiados do calendário político do país.

As repercussões extrapolam o campo de batalha. Seguradoras marítimas, operadores de petróleo e governos que ainda mantêm algum grau de cooperação econômica com Moscou observam com atenção a capacidade ucraniana de atingir comboios ligados ao comércio de energia. Cada ataque bem-sucedido contra essa frota paralela pode elevar custos, reduzir margens de lucro e, em última instância, afetar a receita russa com exportações.

O cálculo político também se desloca para as capitais ocidentais. A demonstração de alcance dos drones ucranianos alimenta o debate sobre o fornecimento de tecnologia, inteligência e armas de longo alcance para Kiev. Governos europeus e os Estados Unidos, que discutem há meses limites para o uso de seus equipamentos em território russo, enfrentam agora um cenário em que a Ucrânia mostra que já consegue agir com relativa autonomia em profundidade estratégica.

O Fórum de São Petersburgo segue programado, e o Kremlin tenta manter a rotina de painéis, encontros bilaterais e discursos planejados. A questão que permanece em aberto é se o ataque desta semana será um ponto de inflexão na forma como investidores e governos enxergam o risco de se aproximar da economia russa ou apenas mais um capítulo de uma guerra que insiste em ultrapassar fronteiras militares e geográficas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *