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Irã exige liberação de US$ 12 bi em ativos congelados em negociação com EUA

O Irã condiciona o avanço das negociações com os Estados Unidos à liberação de US$ 12 bilhões em ativos congelados, com garantia do Catar. A exigência é apresentada durante encontros em Doha na semana passada e torna-se o ponto central de um possível acordo provisório entre Teerã e Washington.

garantia financeira no centro do impasse

O montante reivindicado por Teerã funciona, na prática, como um seguro contra mudanças bruscas de humor diplomático. Metade dos US$ 12 bilhões corresponde a fundos iranianos já congelados em mecanismos internacionais, enquanto os outros US$ 6 bilhões seriam um novo valor a ser desbloqueado nesta fase das conversas. O Catar se apresenta como garantidor desses recursos, segundo relatos de integrantes da delegação iraniana.

A exigência vem à tona em meio a uma rodada de negociações discretas em Doha, na semana anterior a 2 de junho de 2026, com participação do principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf. Um integrante da equipe de imprensa que acompanha a delegação relata, à mídia estatal, que a estrutura de acesso aos ativos é tratada como condição mínima para qualquer anúncio. “As negociações avançaram de tal forma que, se o Irã perceber qualquer interrupção no acesso aos ativos congelados, poderemos nos retirar do acordo”, afirma o jornalista Saeed Ajorlu, que acompanha de perto as conversas.

Segundo Ajorlu, o desenho proposto busca blindar o dinheiro de sobressaltos políticos e de riscos de guerra. “Em outras palavras, a estrutura de acesso a esses US$ 12 bilhões deve servir como garantia para a implementação do acordo”, diz. O cálculo em Teerã é simples: sem uma âncora financeira concreta, qualquer compromisso com Washington pode desmoronar diante de novas sanções ou de um eventual conflito na região do Golfo.

papel do Catar e disputa de narrativas

O Catar assume um lugar central na equação. Doha abriga as reuniões entre iranianos e americanos e oferece o que diplomatas descrevem como uma camada extra de proteção aos fundos. Na prática, o emirado se coloca como guardião dos ativos, responsável por garantir que o Irã não volte a perder acesso ao dinheiro em caso de escalada militar ou mudança de orientação em Washington. A agência Fars, ligada ao Estado iraniano, cita Ajorlu ao afirmar que o país do Golfo atua como “garantidor” do acordo financeiro.

A tarefa é delicada. O governo catariano se apressa em negar que tenha “oferecido” US$ 12 bilhões ao Irã, após versões circularem em veículos regionais. A diferença de narrativa revela a sensibilidade do tema. Para o Irã, é crucial mostrar que não depende de favores, mas apenas reivindica acesso a recursos que já lhe pertencem ou que são resultantes de negociações. Para o Catar, é vital evitar a imagem de financiador de Teerã, em meio a alianças complexas com Washington e parceiros do Golfo.

Os números em discussão ajudam a dimensionar o que está em jogo. A agência estatal Tasnim informa que, se houver acordo provisório, até US$ 24 bilhões em ativos iranianos podem ser liberados em etapas — o equivalente a cerca de R$ 120 bilhões, na cotação atual. Metade desse valor, cerca de US$ 12 bilhões, seria desbloqueada no anúncio do entendimento, enquanto o restante dependeria da implementação de cláusulas posteriores.

impacto econômico e peso geopolítico

A injeção de US$ 12 bilhões na economia iraniana, em um primeiro momento, pode aliviar pressões internas causadas por anos de sanções e restrições financeiras. O dinheiro tende a reforçar reservas internacionais, sustentar a moeda local e financiar importações estratégicas de alimentos, remédios e tecnologia. Analistas ouvidos pela imprensa estatal apontam que a simples expectativa de liberação já reduz a incerteza entre empresários e bancos que ainda operam com Teerã.

No plano geopolítico, o arranjo testaria a capacidade de Washington de usar o descongelamento de ativos como alavanca diplomática sem abrir mão de instrumentos de pressão. Para o governo iraniano, a garantia catariana diminui o risco de ficar novamente exposto a congelamentos repentinos, como ocorreu em diferentes fases do programa nuclear. “A ideia é que não devemos entrar em negociações, assinar um acordo e, em seguida, perder novamente o acesso aos nossos ativos caso outra guerra ecloda”, resume Ajorlu, ecoando a preocupação dominante em Teerã.

Os efeitos se estendem à região. Um acordo que envolva até US$ 24 bilhões em ativos cria espaço para gestos de descompressão em frentes sensíveis, como o estreito de Ormuz e o apoio iraniano a grupos armados. Ao mesmo tempo, pode provocar reação de rivais regionais, que veem no alívio financeiro um estímulo para que o Irã mantenha sua política de projecção de influência. Cada passo em Doha é acompanhado com atenção em capitais como Riad, Tel Aviv e Bruxelas.

negociações abertas e incertezas adiante

As conversas em Doha seguem sem prazo público para conclusão. Delegações do Irã e dos Estados Unidos voltam a seus países para consultas internas, enquanto mediadores catarianos tentam preservar o ímpeto das últimas rodadas. O ponto de atrito continua sendo o desenho de garantias: Teerã quer acesso contínuo, previsível e à prova de sobressaltos; Washington evita se comprometer com mecanismos que limitem sua margem de manobra em futuras crises.

Nas próximas semanas, a disputa em torno dos US$ 12 bilhões tende a servir como termômetro da disposição das duas capitais em evitar uma escalada maior. Se houver sinal verde para o pacote inicial e para a perspectiva dos US$ 24 bilhões, o Oriente Médio pode assistir a um raro movimento de distensão, com reflexos em mercados de energia e na política interna dos envolvidos. Se as negociações travarem, a exigência iraniana corre o risco de transformar-se em mais um capítulo de frustração diplomática, em uma região em que promessas de alívio costumam durar menos do que as crises que tentam resolver.

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