Corpo de Dheorge Bernardino é encontrado após sete dias de buscas em Ilhabela
O corpo de Dheorge Pereira Bernardino é encontrado neste sábado (1º) após sete dias desaparecido no mar de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. O jovem some depois de um acidente com jet ski em 24 de maio, que mobiliza uma das maiores operações de busca recente na região.
Sete dias de busca em um mar vigiado
Dheorge desaparece durante um passeio de moto aquática em meio a uma confraternização na Praia do Pedro Arnaldo. Ele sai para o mar por volta das 16h do domingo, 24 de maio, ao lado da amiga Bruna Damaris Sant’anna da Silva, 26, e não volta ao ponto de partida. Amigos estranham a demora, acionam o socorro e dão início a uma corrida contra o tempo.
Nas horas seguintes, o que começa como busca localizada ganha dimensão regional. Embarcações da Marinha, da Defesa Civil e do Grupamento de Bombeiros Marítimos passam a vasculhar a costa e o mar aberto. No dia seguinte, 25 de maio, parte do jet ski é localizada afundando, o que permite traçar um perímetro mais preciso para as buscas. Dois dias depois, na quinta-feira (28), bombeiros marítimos confirmam que um colete encontrado boiando pertence a Dheorge.
Enquanto as equipes avançam sobre áreas mais distantes, o drama da família toma as redes sociais. A irmã de Dheorge, Lorrane Pereira, transforma o perfil pessoal em central de informação, compartilha fotos, rota provável do passeio e atualizações oficiais. Ela pede que pescadores, marinheiros e moradores avisem qualquer pista. “Não terminou da maneira que a gente queria, que era ele bem, era ele vivo, mas Deus deu a oportunidade da gente se despedir dele”, diz, já após a confirmação da morte. “Vamos trazer ele pra casa, a gente vai se despedir e é isso. Obrigada, muito, muito obrigada”.
Em paralelo, a sobrevivente do acidente tenta se recuperar. Bruna passa cerca de 42 horas à deriva antes de ser resgatada em 26 de maio, entre a Ilha de Búzios e a Ilha do Tamanduá, a cerca de 18 a 22 quilômetros do ponto de partida. Ela é encontrada debilitada, com quadro de hipotermia, e segue direto para atendimento médico. Só depois, já em casa, decide contar o que viveu.
Em comunicado nas redes, Bruna afirma que permanece com Dheorge no mar por quase dois dias. Segundo o relato, a correnteza forte empurra os dois para o mar aberto, longe da ilha. A moto aquática começa a afundar e deixa de servir como apoio de flutuação. “Ficamos juntos em todo momento até terça-feira (26) de madrugada. Meu colega não tirou o colete e eu não vi ele afundando”, escreve. Ela diz ainda que passa detalhes às autoridades e que, por orientação médica e pelo abalo emocional, opta pelo silêncio público nos primeiros dias.
Operação de resgate e alerta sobre segurança no mar
A confirmação da morte encerra uma operação que mobiliza, durante nove dias consecutivos, Marina do Brasil, Força Aérea e forças estaduais. A Marinha coordena a ação com embarcações, um helicóptero próprio e uma aeronave P-95 da Força Aérea Brasileira. No apoio, atuam equipes do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil e o helicóptero Águia da Polícia Militar de São Paulo. O corpo de Dheorge é localizado por uma embarcação da Defesa Civil e do GBMar nas proximidades da Praia do Pedro Arnaldo, a mesma região onde o passeio começa.
Em nota, a Marinha destaca o trabalho integrado e contínuo das equipes e manifesta solidariedade à família. A Delegacia da Capitania dos Portos em São Sebastião abre um inquérito administrativo para apurar causas e responsabilidades do acidente. Esse tipo de investigação examina condições do equipamento, clima, experiência dos ocupantes, uso de coletes e cumprimento de normas de navegação.
A tragédia reacende o debate sobre segurança em esportes náuticos em Ilhabela, um dos principais destinos de turismo marítimo do país. O município recebe milhares de visitantes em feriados e fins de semana prolongados, muitos deles atraídos justamente por passeios de lancha, vela e moto aquática. Correntes fortes, ventos irregulares e mudanças rápidas de tempo exigem planejamento e orientação, sobretudo de quem não conhece a região.
Especialistas em salvamento lembram que o colete salva-vidas, embora essencial, não é garantia absoluta de sobrevivência em mar aberto. Hipotermia, exaustão, desidratação e desorientação comprometem a capacidade de resistir por muitas horas. No caso de Bruna, o resgate após cerca de 42 horas deriva ilustra o limite entre o protocolo de segurança e a sorte. A morte de Dheorge, por outro lado, mostra o quanto minutos perdidos na saída, a ausência de plano de rota ou comunicação com a terra podem ser decisivos.
A Prefeitura de Ilhabela, em nota, manifesta solidariedade aos familiares e agradece o empenho das equipes que participam das buscas. O gesto reconhece o impacto do caso entre moradores e trabalhadores do mar. Pescadores, marinheiros de escuna e condutores de lanchas acompanham as atualizações diárias, muitos deles engajados em reforçar o alerta a turistas sobre os riscos de se afastar da costa sem orientação.
Investigação, lições e próximos passos em Ilhabela
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informa que o caso é investigado como morte suspeita na Delegacia de Ilhabela. A apuração criminal se soma ao inquérito da Marinha e deve ouvir sobrevivente, amigos que participam da confraternização, responsáveis pela moto aquática e agentes que atuam no resgate. As autoridades analisam laudos médicos, registros de chamadas de emergência e dados de navegação para reconstruir a cronologia exata do acidente.
Os desdobramentos podem ir além da responsabilização individual. Dependendo das conclusões, órgãos federais, estaduais e municipais podem rever regras para locação e uso de motos aquáticas, exigir mais fiscalização em trechos de maior risco e reforçar campanhas de orientação a turistas. Operadores locais avaliam, em conversas reservadas, que a visibilidade do caso deve pressionar por cursos obrigatórios e controle de saídas em dias de mar mais agitado.
Para a família de Dheorge, o foco imediato é o luto e a despedida. Para a comunidade náutica de Ilhabela, o episódio funciona como alerta duro sobre a fronteira estreita entre lazer e tragédia em alto-mar. A pergunta que agora se impõe às autoridades é se a morte do jovem vai resultar apenas em mais um inquérito arquivado ou em mudanças concretas na forma como se pratica turismo aquático em uma das áreas mais visitadas do litoral paulista.
