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Polícia apura desvio de verba de Wi‑Fi para filme sobre Bolsonaro

Policiais civis cumprem nesta segunda-feira (1º.jun.2026) mandados de busca na Secretaria Municipal de São Paulo e em uma produtora ligada ao filme “Dark Horse”. A investigação mira um possível desvio de recursos de um contrato de Wi‑Fi gratuito da prefeitura para financiar o longa-metragem sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mandados atingem secretaria e produtora de cinema

A operação tem início nas primeiras horas da manhã e se concentra em setores estratégicos da administração municipal, responsáveis pela contratação do serviço de internet sem fio. Equipes também vasculham endereços vinculados à produtora que atua no financiamento e na pós-produção de “Dark Horse”, filme de viés político que acompanha a trajetória de Bolsonaro até o Palácio do Planalto.

Os mandados são autorizados pela Justiça a partir de um inquérito que corre sob sigilo. Investigadores apuram se parte da verba destinada à expansão do Wi‑Fi público em bairros periféricos foi desviada, por meio de empresas intermediárias, para bancar despesas de roteiro, filmagens e divulgação do longa. Documentos, computadores, contratos e registros bancários são apreendidos para rastrear a origem e o destino de cada pagamento.

Relatórios preliminares apontam movimentações financeiras consideradas atípicas em contratos firmados pela prefeitura a partir de 2024, quando o programa de internet gratuita é ampliado para dezenas de praças e terminais de ônibus. Em pelo menos um lote, técnicos identificam notas fiscais que não detalham serviços prestados e transferências para a produtora investigada poucos dias depois do repasse público.

Um agente envolvido nas diligências, que fala sob reserva por causa do sigilo, afirma que o objetivo é “seguir o caminho do dinheiro”. Segundo ele, a ordem é cruzar registros contábeis, comprovantes de entrega de equipamentos e cronogramas de filmagem do longa. “A principal pergunta é se o serviço de Wi‑Fi foi de fato entregue na escala paga pelo município”, diz.

Wi‑Fi gratuito sob suspeita expõe fragilidade de controle

O programa de internet gratuita é apresentado pela prefeitura como uma das vitrines da gestão, com o discurso de inclusão digital para cerca de 2 milhões de moradores. A promessa é de pontos de acesso em praças, parques, CEUs e corredores de transporte, com velocidade mínima de 20 megabits por segundo para cada usuário conectado. O contrato principal, firmado por meio de licitação, prevê pagamentos em parcelas mensais atreladas à instalação e manutenção das redes.

A suspeita de que parte dessa verba bancou um filme de conotação política acende alerta sobre o uso de recursos vinculados a serviços essenciais. Se a hipótese de desvio se confirma, a população perde duas vezes: deixa de receber o acesso à internet prometido e vê dinheiro público irrigar um projeto privado, com potencial de influência eleitoral. Especialistas em gestão pública ouvidos pela reportagem apontam falhas na checagem de entregas e na auditoria digital dos contratos de tecnologia.

O caso também atinge o setor audiovisual, que já enfrenta críticas recorrentes sobre a transparência de seu financiamento. A eventual comprovação de uso irregular de verba de infraestrutura para bancar “Dark Horse” tende a alimentar desconfiança em relação a produções de cunho político, independentemente de sua orientação ideológica. Produtores temem uma onda de deslegitimação que pode respingar até em projetos corretamente financiados por editais e leis de incentivo.

Ao associar um programa de inclusão digital a um filme sobre Bolsonaro, a investigação adiciona carga política a um caso que, na origem, é de contabilidade pública. A prefeitura corre o risco de enfrentar desgaste tanto entre usuários que dependem do Wi‑Fi gratuito para estudar e trabalhar quanto entre eleitores sensíveis a denúncias de desvio de dinheiro em ano pré-eleitoral. Assessores já avaliam reforçar campanhas de comunicação para mostrar pontos instalados e tentar conter o dano à imagem da administração.

Investigação avança sobre fluxo financeiro e responsabilidade

Os próximos passos concentram-se no rastreamento detalhado dos pagamentos. Peritos devem confrontar ordens de serviço, medições técnicas e comprovantes de instalação física de antenas com a trilha do dinheiro até a produtora ligada a “Dark Horse”. Caso encontrem indícios robustos de fraude, policiais e promotores podem pedir o bloqueio de bens de empresas e dirigentes, além de afastamentos cautelares de servidores responsáveis pela fiscalização do contrato.

Procuradores acompanham a apuração e avaliam a abertura de ações por improbidade administrativa, crime de peculato e formação de organização criminosa, dependendo do grau de coordenação identificado. A gestão municipal, por sua vez, estuda instaurar processos disciplinares internos e revisar contratos de tecnologia firmados nos últimos cinco anos, movimento que pode travar novos investimentos em conectividade até a conclusão das auditorias.

Analistas do setor público apostam que o caso se tornará referência em futuras discussões sobre compliance em contratos de serviço digital. A tendência é de endurecimento nas exigências de transparência, com mais controles sobre subcontratações, rastreamento de pagamentos em tempo real e cruzamento automático de notas fiscais com bancos de dados públicos. Debates na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa devem pressionar por mudanças em leis de licitações e em regras de prestação de contas.

A investigação ainda está em estágio inicial e não há denunciados formalmente, mas o impacto político e simbólico é imediato. A pergunta que se impõe agora é se a capital consegue transformar um escândalo potencial em gatilho para uma fiscalização mais rigorosa, capaz de impedir que contratos pensados para reduzir desigualdades digitais virem, de novo, caixa paralela para projetos particulares e campanhas disfarçadas de cinema.

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