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Babá de Henry admite mentira e relata pressão em júri no Rio

A babá Thayná Ferreira admite, em maio de 2026, que mentiu em depoimentos anteriores e relata ter sofrido pressão para defender Jairinho e Monique Medeiros no julgamento do caso Henry, no Rio. A testemunha se emociona, interrompe o relato e pede para deixar o plenário diante da tensão no tribunal do júri.

Depoimento tenso expõe bastidores do caso

Thayná entra na sala de audiências pouco depois das 10h e, em poucos minutos, a atmosfera muda. Ela respira fundo, evita olhar para o casal de réus e começa a descrever a rotina ao lado do menino Henry, morto em 8 de março de 2021, em um apartamento na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. A voz oscila quando o juiz pergunta se ela mantém as versões anteriores dadas à polícia e ao Ministério Público. A resposta inaugura um dos momentos mais dramáticos do julgamento.

“Eu não disse toda a verdade antes”, afirma, com o olhar fixo na bancada do júri. Em seguida, relata ter sofrido pressão para preservar a imagem do então vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e da professora Monique Medeiros, mãe de Henry. “Me pediram para falar bem deles, para não prejudicar”, diz. A confissão atinge diretamente o coração do processo, que há mais de três anos mobiliza a opinião pública e se transforma em símbolo da discussão sobre violência contra crianças no país.

O clima na sala se torna mais pesado quando a babá detalha episódios de tensão com Jairinho. Ela menciona momentos em que o político se mostra irritado com o comportamento de Henry e descreve um ambiente de medo no apartamento. Sem entrar em pormenores técnicos, o Ministério Público tenta reforçar a ideia de um padrão de agressões, enquanto a defesa busca explorar as contradições de Thayná para enfraquecer sua credibilidade.

Ao longo de mais de uma hora de perguntas, a testemunha alterna respostas firmes e silêncios longos. Em determinado momento, a pressão emocional se torna visível. “Eu preciso sair daqui, eu não estou bem”, diz, com a voz embargada, dirigindo-se ao juiz. O pedido expõe o desgaste de uma jovem que, desde 2021, vê sua própria vida atravessada pela tragédia que matou uma criança de 4 anos e transformou a rotina privada de um apartamento em caso de repercussão nacional.

Contradições podem redesenhar avaliação das provas

A admissão de que mentiu em depoimentos anteriores acende um alerta entre jurados, acusação e defesa. Thayná já foi ouvida pela polícia, pelo Ministério Público e na fase de instrução do processo, entre 2021 e 2023. Cada uma dessas falas compõe o mosaico de evidências que sustenta a acusação de homicídio qualificado contra Jairinho e Monique. Ao admitir que cedeu a pressões, a babá coloca em xeque a própria linha do tempo construída ao longo da investigação.

Para a acusação, a nova versão reforça a tese de que houve um esforço organizado para proteger o casal após a morte de Henry. A pressão relatada pela babá se encaixa na suspeita de manipulação de testemunhas, hipótese já aventada em peças processuais. “Ela confirma que não se sentia livre para falar. Isso ajuda a explicar lacunas e inconsistências anteriores”, avalia, em conversa reservada no corredor, um integrante da equipe que atua ao lado do Ministério Público. A defesa, por sua vez, tenta transformar as contradições em trunfo.

Advogados de Jairinho e Monique insistem, diante dos jurados, que uma testemunha que admite ter mentido antes pode voltar a mentir agora. O objetivo é minar o peso do depoimento, sugerindo que Thayná age sob influência da comoção pública em torno do caso. A cada resposta da babá, os defensores anotam detalhes e pedem ao juiz para lembrar o júri de que ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo. O embate revela uma disputa milimétrica em torno de cada palavra dita em plenário.

Especialistas em direito penal ouvidos na saída do tribunal lembram que mudanças de versão não anulam automaticamente um depoimento, mas exigem cuidado redobrado na análise. Em casos de forte repercussão, como o de Henry, a pressão externa pesa sobre todos: réus, testemunhas e julgadores. O julgamento envolve, além da dor da família, debates sobre responsabilidade do Estado, políticas de proteção à infância e a forma como o sistema de justiça lida com crimes violentos contra crianças.

O impacto social do processo se mede também pela presença constante da imprensa desde os primeiros passos da investigação. Desde 2021, reportagens, entrevistas e programas de televisão acompanham cada movimento do caso, o que torna o ambiente do júri ainda mais carregado. O depoimento de Thayná, com quebras de voz e pedidos para deixar a sala, ecoa fora do fórum e alimenta discussões nas redes sociais, em grupos de família e em debates acadêmicos sobre abuso infantil.

Pressão sobre testemunhas e próximos capítulos do júri

O relato da babá reacende o debate sobre a forma como testemunhas são tratadas em processos criminais no Brasil. A imagem de uma jovem chorando, ao dizer que não está bem, expõe a fragilidade de quem ocupa uma posição intermediária: não é vítima direta, não é ré, mas carrega informações decisivas para a reconstrução dos fatos. A sensação de medo diante de figuras de poder, como um político influente, ajuda a explicar por que versões podem ser moldadas ou silenciadas.

Organizações que atuam na defesa dos direitos da criança e do adolescente defendem, há anos, protocolos específicos para ouvir pessoas próximas a vítimas mirins, com apoio psicológico contínuo. O caso Henry se torna, na prática, um laboratório doloroso dessa discussão. Se a fala de Thayná levar à reavaliação de outros depoimentos, o tribunal poderá revisitar trechos da prova oral e solicitar novas oitivas, estendendo o julgamento por semanas além do previsto inicialmente.

Enquanto o júri avança, famílias de todo o país acompanham o desfecho com atenção. Em 2023, o Brasil registra mais de 100 mil denúncias de violência contra crianças e adolescentes no Disque 100, segundo dados oficiais. O número ajuda a dimensionar por que a morte de um menino de 4 anos, dentro de casa, vira símbolo de algo maior do que um caso isolado. Cada nova sessão do julgamento reacende perguntas sobre o que falhou na rede de proteção e como o Estado poderia ter agido antes.

O tribunal retoma as sessões com a expectativa de ouvir novas testemunhas e, na sequência, iniciar os debates orais entre acusação e defesa. O veredicto ainda não tem data certa, mas a tendência é que saia nas próximas semanas, após a conclusão de todas as oitivas. Até lá, a palavra de Thayná, entre lágrimas e recuos, permanece no centro das atenções e se torna peça-chave para entender não apenas a morte de Henry, mas também os limites e as fissuras da busca pela verdade em um dos julgamentos mais acompanhados do país.

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