Ultimas

Chefe do Pentágono ameaça retomar ataques ao Irã em busca de acordo

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, ameaça retomar ataques contra o Irã se não houver acordo de paz, nesta sexta-feira (30), em Singapura. A declaração ocorre em meio à guerra iniciada em 28 de fevereiro, que já mata milhares de pessoas e abala a economia global.

EUA pressionam por acordo em meio a guerra prolongada

Hegseth fala no Diálogo de Shangri-La, principal fórum de defesa da Ásia, diante de ministros, militares e diplomatas de dezenas de países. No palco, em um dos momentos mais aguardados do encontro, ele envia um recado direto a Teerã e aos aliados na região: Washington está disposto a manter a trégua, mas não descarta uma nova ofensiva militar.

“Nossa capacidade de retomar os ataques, se necessário… somos mais do que capazes”, afirma o chefe do Pentágono. Em seguida, reforça a mensagem de força: “Nossos estoques são mais do que adequados para isso, tanto lá quanto ao redor do mundo, então estamos em uma posição muito boa”. O discurso marca uma tentativa calculada de aumentar a pressão diplomática sobre o Irã, ao mesmo tempo em que preserva a imagem de potência militar confiável diante dos parceiros asiáticos.

O conflito, iniciado em 28 de fevereiro por Estados Unidos e Israel, já deixa milhares de mortos no Irã e no Líbano, segundo estimativas de governos e organismos internacionais. O fechamento efetivo do Estreito de Ormuz por Teerã, rota por onde circulam cerca de 20% do petróleo negociado no mundo, eleva os preços da energia e alimenta temores de recessão global. A ameaça de nova rodada de ataques reacende o risco de uma escalada regional ainda mais ampla.

Base industrial em alta e paciência limitada na Casa Branca

Para sustentar a posição de força, Hegseth destaca o esforço para ampliar a capacidade de produção militar dos EUA. “Podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo”, diz, em referência à guerra no Oriente Médio e ao compromisso de presença na Ásia-Pacífico. “Estamos impulsionando nossa base industrial de defesa para que possamos produzir duas, três, quatro vezes mais munições em breve, para garantir que todos os nossos planos operacionais sejam devidamente financiados em todo o mundo.”

A mensagem mira pelo menos três plateias. Para o Irã, sinaliza que o cessar-fogo em vigor desde o início de abril não nasce de fragilidade, mas de cálculo político. Para aliados asiáticos, como Japão, Coreia do Sul e Austrália, tenta afastar a percepção de que a guerra desloca a atenção americana da contenção da China. E para o público doméstico, oferece a imagem de um país preparado para enfrentar conflitos prolongados sem comprometer sua capacidade militar em outras frentes.

Hegseth afirma que o presidente Donald Trump é “paciente” e busca um “grande acordo” com Teerã. O objetivo declarado é duplo: impedir que o Irã desenvolva armas nucleares e fechar um entendimento que encerre a guerra. A proposta em discussão na Casa Branca, segundo o secretário, estende o cessar-fogo iniciado no começo de abril por mais 60 dias, empurrando as negociações de paz até, pelo menos, o fim de junho de 2026.

Na mesma sexta-feira, em Washington, Trump diz que vai se reunir em uma sala segura da Casa Branca para tomar uma “decisão final” sobre o plano de cessar-fogo ampliado. A reunião, marcada como decisiva por assessores, define se os Estados Unidos mantêm a via diplomática aberta ou autorizam a retomada das operações ofensivas contra alvos iranianos. No pano de fundo, cresce a pressão de aliados europeus por uma solução negociada e o temor, em capitais árabes, de que um novo ciclo de ataques destrua pontes ainda frágeis de diálogo com Teerã.

Impacto global e riscos de nova escalada

As declarações em Singapura ecoam de forma imediata nos mercados de energia. O efetivo bloqueio do Estreito de Ormuz desde fevereiro já provoca alta consistente no barril de petróleo, com picos acima de 30% em algumas sessões desde o início da guerra. Empresas de transporte marítimo redirecionam rotas, seguradoras recalculam riscos e governos importadores, como Índia e países europeus, correm para diversificar fornecedores.

Economistas alertam que um eventual colapso da trégua pode empurrar o preço do petróleo a novos recordes e pressionar a inflação em série de países ainda em recuperação pós-pandemia. Em paralelo, o conflito provoca deslocamentos internos no Irã e no Líbano, destrói infraestrutura civil e amplia a dependência de ajuda humanitária em regiões já vulneráveis. A população paga o preço mais alto enquanto as grandes potências calibram discursos e arsenais.

Na arena militar, a decisão dos EUA de manter estoques elevados e acelerar a produção de munições envia sinal claro de que Washington se prepara para um cenário de longo prazo. Essa postura alimenta críticas de países que veem na expansão da indústria bélica um incentivo à prolongação dos conflitos. Ao mesmo tempo, reforça a confiança de aliados que dependem do guarda-chuva de segurança americano, em especial na Ásia-Pacífico, onde a presença naval dos EUA é citada por Hegseth como “prioridade inegociável”.

Especialistas em segurança regional apontam que a combinação de pressão militar e janela diplomática curta cria um ambiente de negociação de alto risco. Um erro de cálculo, um ataque mal atribuído ou uma ruptura súbita no cessar-fogo pode puxar a corda em direção a uma guerra aberta entre o Irã e uma coalizão liderada por EUA e Israel. Nessas condições, a estabilidade no Golfo Pérsico e em rotas críticas de comércio se torna ainda mais frágil.

Prazo apertado e incerteza sobre futuro do conflito

O relógio político agora corre contra negociadores em Washington, Teerã e capitais mediadoras, como Doha e Ancara. Os 60 dias adicionais de cessar-fogo propostos pela Casa Branca, se aprovados, oferecem uma margem estreita para transformar uma trégua informal em acordo duradouro. Cada dia sem avanço concreto aumenta a pressão para que Trump demonstre firmeza interna e para que a liderança iraniana não pareça recuar diante de ameaças.

Diplomatas envolvidos no processo descrevem um cenário em que concessões graduais sobre inspeções nucleares, abertura de rotas marítimas e alívio parcial de sanções podem compor um pacote mínimo de entendimento. Nada garante, porém, que esse desenho sobreviva a ataques de facções internas em ambos os países, interessadas em manter o confronto. A fala de Hegseth em Singapura cristaliza essa tensão: os EUA dizem estar prontos para a paz, mas fazem questão de lembrar que também estão prontos para a guerra. A resposta do Irã a essa equação define não apenas o destino do cessar-fogo, mas o rumo da segurança energética global nos próximos meses.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *