Cláudio Castro acerta salário de R$ 38 mil no PL e abre escritório
O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro acerta, em maio de 2026, salário mensal de R$ 38 mil com o PL e inaugura um escritório de advocacia na capital fluminense. O movimento ocorre semanas após duas operações da Polícia Federal mirarem seu entorno político e financeiro, ampliando a pressão sobre seu futuro.
Valdemar articula acordo e reforça blindagem política
Cláudio Castro deixa o Palácio Guanabara sob desconfiança e em disputa com antigos aliados, mas encontra no Partido Liberal uma espécie de porto político. O acordo é costurado e defendido diretamente pelo presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, que atua para manter o ex-governador abrigado na máquina partidária em meio ao cerco judicial.
As investigações avançam em ritmo acelerado. Em um intervalo de apenas 11 dias, duas operações da Polícia Federal atingem pessoas próximas a Castro e levantam dúvidas sobre contratos, repasses e uso de estruturas do governo. O ex-governador nega irregularidades e atribui as ações a um ambiente de disputa política, mas evita confrontos públicos com investigadores.
A direção do PL opta por um gesto duplo. Garante um salário de R$ 38 mil, valor próximo ao recebido por deputados estaduais fluminenses, e estimula Castro a retomar a carreira de advogado, com a abertura de um escritório próprio no Rio. A combinação oferece renda fixa, narrativa de retorno à vida profissional e manutenção de relevância interna em um partido que mira as próximas eleições municipais e estaduais.
Valdemar apresenta o ex-governador, em conversas reservadas, como um quadro importante para a legenda no estado. Dirigentes ouvidos nos bastidores descrevem o acerto como “um seguro político” em meio à incerteza sobre o alcance das operações federais. Publicamente, o PL evita confrontar a Polícia Federal, mas insiste no discurso de que Castro tem “direito à defesa” e à “presunção de inocência”.
Salário, escritório e disputas no tabuleiro fluminense
A movimentação mexe com o equilíbrio de forças na política do Rio de Janeiro. O PL controla fatia relevante da bancada fluminense em Brasília e tenta preservar o capital eleitoral acumulado por Castro desde 2020, quando assume o governo após o afastamento de Wilson Witzel. O salário de R$ 38 mil, financiado pelo partido, é visto por rivais como um gesto explícito de blindagem.
Lideranças da oposição questionam, nos bastidores, o uso da estrutura partidária para sustentar figuras sob investigação. “Não é razoável que partidos funcionem como refúgio remunerado de políticos acuados”, afirma um dirigente de centro-esquerda, sob reserva. Aliados rebatem e dizem que “o partido valoriza quem ajudou a construir sua presença no estado” e que Castro “segue com base forte em vários municípios”.
A abertura do escritório de advocacia funciona como contraponto simbólico às suspeitas. A equipe de Castro tenta reforçar a imagem de técnico, formado em Direito e capaz de atuar na área privada, distante do orçamento público. O próprio ex-governador, em conversas recentes, repete que “a advocacia sempre foi um projeto” e que o retorno ao setor privado “não depende de mandato”. A coincidência com o momento de maior pressão judicial, porém, alimenta leituras de que se trata também de uma estratégia de sobrevivência.
Especialistas em ética pública apontam a linha tênue entre reconstrução profissional legítima e uso do prestígio político para negócios privados. “Quando um ex-governante abre escritório logo após deixar o cargo, é natural que clientes o procurem mais pela influência do que pela técnica”, avalia um professor de direito administrativo ouvido pela reportagem. Para ele, o salário pago pelo partido reforça a percepção de que a fronteira entre interesse público e interesse privado permanece borrada.
Pressão judicial, calendário eleitoral e próximos movimentos
As operações da Polícia Federal colocam Castro sob luz dura em um momento de reorganização das forças políticas do Rio. As investigações miram esquemas que, segundo investigadores, envolvem contratos milionários de áreas sensíveis, como infraestrutura e assistência social. O clima de maior escrutínio afeta não só o ex-governador, mas todo o grupo político que se formou em torno dele desde sua chegada ao Palácio Guanabara.
No xadrez eleitoral, a manutenção de Castro com salário no PL e escritório montado na capital preserva sua capacidade de influenciar candidaturas a prefeito em 2026 e, mais adiante, alianças para a disputa do governo estadual. A sigla calcula que, mesmo desgastado, ele ainda é capaz de transferir votos em redutos onde concentrou investimentos de obras e programas sociais. Prefeitos e ex-prefeitos ligados ao ex-governador seguem em contato frequente com a cúpula partidária.
Adversários tentam explorar o desgaste. A tendência é que o tema do salário bancado pelo partido e das suspeitas levantadas pela PF apareça em debates e programas eleitorais. Bancadas de oposição na Assembleia Legislativa do Rio estudam requerimentos para ampliar o acesso a dados de contratos sob investigação, em busca de elementos que reforcem a narrativa de abuso de poder e uso político da máquina.
O futuro de Castro depende do ritmo e da profundidade das apurações. Se denúncias formais forem apresentadas, o custo político para o PL tende a subir, aumentando a pressão interna por um afastamento gradual. Caso as investigações não avancem ou percam força, o ex-governador pode tentar converter o período de recolhimento remunerado em plataforma para um novo mandato, seja no Legislativo, seja novamente no Executivo.
A combinação de salário partidário, escritório privado e investigações federais coloca em evidência um teste mais amplo para o sistema político fluminense: até que ponto os partidos estão dispostos a financiar a sobrevivência de seus quadros mais problemáticos e qual é o limite ético aceitável para acordos que misturam proteção, influência e dinheiro público indireto. Essa resposta, agora, passa tanto pelas urnas quanto pelos inquéritos.
