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Esposa de chefe do Comando Vermelho é presa em operação contra lavagem

A Polícia Civil prende nesta sexta-feira (29) Raquel Neves dos Santos Mendonça, mulher de Antônio Ilário Ferreira, o Rabicó, apontado como chefe do Comando Vermelho. A ação mira um esquema de lavagem de dinheiro que usa empresas de reciclagem e ferros-velhos para escoar milhões de reais do tráfico de drogas.

Rede de sucatas vira engrenagem financeira do Comando Vermelho

Equipes saem às ruas no início da manhã para cumprir dezenas de mandados em pelo menos sete cidades do Rio e em cinco outros estados. Os alvos se espalham da capital fluminense a São Gonçalo, Duque de Caxias, Itaboraí, Iguaba Grande, Armação dos Búzios e São João de Meriti, além de endereços em São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Maranhão.

Raquel é apontada como peça-chave no núcleo financeiro comandado por Rabicó. Segundo as investigações, o casal usa empresas de fachada para dar aparência legal ao dinheiro do tráfico de drogas e de outras atividades criminosas da facção. A engrenagem inclui contas bancárias de passagem, depósitos fracionados em espécie e emissão de notas fiscais frias, sempre com o objetivo de dificultar o rastreamento dos valores.

Relatórios de Inteligência Financeira e quebras de sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático sustentam a operação. Ao longo de meses, analistas cruzam dados e identificam uma movimentação financeira que passa da casa dos milhões de reais entre empresas ligadas ao grupo. Parte relevante desse fluxo sai de firmas de reciclagem e comércio de sucata e chega diretamente a contas controladas por Rabicó ou por pessoas ligadas a ele.

Investigadores descrevem um modelo de negócio que mistura o mercado formal de reciclagem com atividades clandestinas. Áreas usadas para a queima ilegal de cabos de cobre e depósitos de materiais de origem suspeita são vinculados a empresas ligadas ao chefe do Comando Vermelho. “Essas estruturas se integram à cadeia de lavagem de dinheiro da facção”, afirma um delegado envolvido no caso, sob reserva.

Golpe na tesouraria da facção expõe fragilidades do Estado

A prisão de Raquel atinge diretamente a tesouraria do Comando Vermelho, considerada por especialistas o coração de qualquer organização criminosa. Ao mirar operadores financeiros, a Polícia Civil tenta asfixiar a capacidade da facção de transformar dinheiro do crime em patrimônio limpo, de imóveis de luxo a frotas de veículos e investimentos em empresas.

Mensagens interceptadas ao longo da investigação indicam que Rabicó centraliza a lavagem de dinheiro do grupo. Ele gerencia empresas de fachada, movimenta contas em nome de terceiros e coordena a pulverização de recursos em diferentes bancos para reduzir o risco de bloqueios. Em conversas sob sigilo, um professor de direito penal que acompanha o caso vê na operação um avanço, mas também um alerta. “O Brasil ainda falha de forma sistemática no combate às facções. Sem cooperação internacional e uso intensivo de inteligência financeira, a estrutura se recompõe”, diz.

Os Estados Unidos já classificam o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, o que abre espaço para medidas mais duras contra ativos no exterior. No Brasil, a reação ainda é desigual. O caso revela como o crime organizado se infiltra em cadeias produtivas pouco fiscalizadas, como o comércio de sucata e a reciclagem de metais. Ao mesmo tempo, expõe a dificuldade de estados e União em manter um monitoramento permanente dessas transações.

Relatórios usados na investigação apontam indícios de receptação qualificada, com compra de materiais de origem suspeita e revenda por valores subfaturados ou superfaturados para simular negócios legítimos. Entre 2023 e 2025, empresas ligadas ao grupo movimentam, de forma atípica, somas de sete dígitos em períodos curtos, sempre com fracionamento de depósitos para escapar de alertas automáticos de bancos.

Próximos passos e pressão por mudanças no combate ao crime

Delegados envolvidos afirmam que a operação desta sexta-feira é apenas a primeira etapa de uma ofensiva mais ampla contra o braço financeiro do Comando Vermelho. A expectativa é que as quebras de sigilo em curso revelem novos sócios ocultos, laranjas e empresas usadas como biombo para o dinheiro da facção. A análise de contratos, notas fiscais e movimentações atípicas deve se estender pelos próximos meses.

Autoridades ouvidas reservadamente falam em uma mudança de foco: menos confrontos armados nas favelas e mais investigações financeiras de longo prazo. A estratégia segue modelos adotados em países como Estados Unidos e Itália, que priorizam rastrear o dinheiro e confiscar bens de origem ilícita. “Enquanto o fluxo de caixa das facções seguir intacto, qualquer prisão de liderança é apenas temporária”, resume um investigador.

O caso reabre o debate sobre reformas na legislação de lavagem de dinheiro e sobre a integração entre polícias civis, Polícia Federal, Receita e órgãos de controle. Também coloca pressão sobre o sistema bancário e o setor de reciclagem, que podem ser cobrados por mecanismos mais rígidos de monitoramento. No curto prazo, a prisão de Raquel e o avanço sobre as empresas ligadas a Rabicó aumentam a pressão sobre a cúpula do Comando Vermelho.

Resta saber se o golpe na estrutura financeira da facção será profundo o bastante para reduzir de forma duradoura seu poder nas ruas ou se, mais uma vez, o mercado clandestino encontrará um novo caminho para circular o dinheiro do crime.

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