Sinner sente o corpo, leva virada e cai na segunda rodada em Roland Garros
Jannik Sinner, número 1 do mundo, é eliminado na segunda rodada de Roland Garros nesta quinta-feira (28) após sofrer com problemas físicos e queda brusca de rendimento em Paris.
Virada inesperada na Philippe Chatrier
O italiano de 24 anos deixa a quadra Philippe Chatrier visivelmente abatido depois de perder por 3 sets a 2 para o argentino Juan Manuel Cerundolo, com parciais de 3/6, 2/6, 7/5, 6/1 e 6/1. A partida começa sob controle total de Sinner, que domina os dois primeiros sets, confirma o favoritismo e parece a poucos games de uma vitória protocolar.
A noite em Paris muda de tom a partir do fim do terceiro set. O ritmo do número 1 despenca, as pernas pesam, o saque perde potência e a movimentação no fundo de quadra deixa de acompanhar o padrão que o levou aos títulos de Monte Carlo, Madrid e Roma na mesma temporada de saibro. Cerundolo, 25 anos, lê o cenário, alonga os pontos e força o desgaste do rival até transformar um jogo quase perdido em uma virada histórica.
Do domínio no saibro ao colapso físico
A sequência de torneios explica parte da queda. Em pouco mais de um mês, Sinner empilha troféus em três Masters 1000 sobre o saibro, assume com folga a liderança do ranking e chega a Paris embalado, com apenas uma derrota em 2026 nessa superfície. A estreia em Roland Garros, definida em três sets e com autoridade, reforça a impressão de que o italiano está pronto para aproveitar a ausência do lesionado Carlos Alcaraz e brigar pelo primeiro título no torneio e pelo Career Grand Slam.
A preparação intensa cobra preço alto na segunda rodada. “Em geral, muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo… Joguei muito e não tive muito tempo para me recuperar”, admite Sinner, em uma sala de imprensa lotada, pouco depois de deixar a quadra central. Ele relata uma virada de chave brusca entre a boa estreia e o dia da eliminação. “Cheguei aqui, fiz uma primeira partida muito boa, muito sólida… mesmo terminando tarde, não foi tão tarde assim”, lembra.
O relato sobre a manhã do jogo ajuda a dimensionar o quadro físico. “Hoje de manhã eu não dormi bem. Quando acordei, estava sentindo dificuldades, mas isso pode acontecer. Normalmente, em Grand Slams, há alguns dias em que você não se sente perfeito”, afirma. O problema, desta vez, não se limita a um leve mal-estar: a partir do terceiro set, o corpo não responde mais ao nível exigido por partidas de cinco sets em alto rendimento.
A temperatura em Paris ultrapassa os 30°C, e o calor volta ao debate. Sinner, nascido em San Candido, na região do Tirol do Sul, no norte da Itália, já sofre em situações de umidade extrema. Ele cita dois exemplos recentes para contextualizar o desconforto. “Xangai, em outubro, foi muito complicado. A umidade estava alta”, relembra sobre a desistência no torneio chinês em 2024. “A Austrália também estava muito quente neste ano. É diferente quando você joga em quadras duras, porque o calor vem também do chão”, explica.
Desta vez, nega que o clima seja o vilão principal. “Aqui estava quente, mas estava tudo bem. Não foi como se eu estivesse morrendo por causa do calor. Hoje foi um cenário completamente diferente, mas isso acontece”, diz. O incômodo, segundo o próprio jogador, se aproxima mais de um quadro de doença associado ao desgaste acumulado do que de uma dificuldade pontual com as condições de jogo.
Impacto na temporada e vaga aberta no topo
A eliminação precoce em 28 de maio, ainda na segunda rodada, interrompe a narrativa que cercava Sinner desde o início da temporada de saibro. O italiano chega a Paris com a chance concreta de conquistar Roland Garros pela primeira vez e completar o Career Grand Slam em um cenário sem Alcaraz, afastado por lesão. A derrota muda o enredo do torneio e redistribui as forças na chave masculina.
O número 1 do mundo perde a oportunidade de ampliar a vantagem no ranking justamente em um Grand Slam, onde a margem de pontos é decisiva para consolidar hegemonias. A porta se abre para rivais diretos, que agora têm uma janela de 2.000 pontos em disputa sem a presença de um dos grandes favoritos. Dentro do vestiário, a queda do líder também reequilibra a percepção de favoritismo e oferece espaço para surpresas em uma parte da temporada que costuma ser dominada por poucos nomes.
Sinner admite a frustração com a interrupção abrupta da sequência vitoriosa. “É difícil aceitar, claro, pela situação em que eu estava e considerando tudo, mas agora terei bastante tempo para me recuperar”, afirma. A fala evidencia que o impacto da derrota vai além da estatística: mexe com a confiança de um jogador que, desde janeiro, constrói uma imagem de consistência quase inabalável em diferentes superfícies.
O resultado em Paris também pressiona o planejamento da transição para a grama. Em 2025, Sinner conquista Wimbledon e transforma o título em símbolo de sua chegada definitiva à elite do circuito. Em 2026, precisa administrar a defesa de 2.000 pontos em Londres depois de sair mais cedo do que o esperado do saibro e com o corpo em alerta.
Pausa estratégica antes da defesa de Wimbledon
A resposta imediata surge na própria coletiva em Roland Garros. Sinner sinaliza uma mudança clara de rota para as próximas semanas. “Provavelmente não vou jogar nenhum torneio na grama antes de Wimbledon”, admite, ao ser questionado sobre o calendário. A frase marca um corte na rotina dos principais nomes do circuito, que tradicionalmente usam eventos como Halle e Queen’s para ajustar o jogo à superfície mais rápida da temporada.
O italiano fala em recuperar o corpo, mas também em descomprimir a cabeça. “Preciso realmente de um tempo para me recuperar completamente, também mentalmente, e então estar pronto para voltar”, diz. A decisão tende a reduzir a exposição física imediata, mas carrega risco esportivo: Sinner chegará ao All England Club, cujo quadro principal começa em 29 de junho, sem ritmo oficial na grama em 2026.
O intervalo forçado abre espaço para que outros jogadores ocupem o centro do palco na curta temporada sobre grama e testem o próprio jogo sem enfrentar o número 1 antes de Wimbledon. Dentro da equipe do italiano, a prioridade passa a ser entender o limite entre ambição esportiva e preservação de longo prazo. A questão que acompanha Sinner a partir de agora não é se ele consegue ganhar mais um Slam, mas quantas vezes o corpo vai permitir que ele chegue inteiro às semanas em que isso está em jogo.
