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Ataques de drones e mísseis elevam risco de ruptura entre EUA e Irã

EUA e Irã trocam ataques limitados com drones e mísseis nos dias 27 e 28 de maio de 2026, na região do Estreito de Ormuz, após Donald Trump rejeitar um acordo de compromisso com Teerã. A escalada, em meio a um cessar-fogo frágil, põe em dúvida o fim da guerra de três meses no Golfo Pérsico e reacende o temor de ruptura total das negociações.

Cessar-fogo sob pressão em rota vital do petróleo

A nova rodada de violência ocorre enquanto diplomatas tentam transformar desde o início de abril um cessar-fogo tênue em acordo definitivo para encerrar uma guerra que já dura três meses e mata milhares de pessoas. O conflito fecha, na prática, a principal artéria do mercado global de petróleo: o Estreito de Ormuz, por onde circulam antes da guerra mais de cem navios por dia, em média.

A ofensiva desta semana começa depois de Washington relatar o que descreve como uma operação de drones iraniana perto do estreito. Em seguida, em vez de validar um rascunho de entendimento para aliviar as tensões, Trump rejeita o compromisso ventilado por Teerã e por mediadores do Golfo, endurece o discurso e reforça sanções.

O Comando Central dos EUA afirma que suas forças abatem cinco drones de ataque iranianos e bombardeiam uma estação de controle em Bandar Abbas, no litoral iraniano, que estaria prestes a lançar um sexto aparelho. O alvo fica próximo de uma das rotas de saída do Golfo Pérsico, o que aumenta o alerta em navios-tanque e em companhias de navegação.

Minutos depois, um míssil balístico é lançado em direção ao Kuwait, que abriga uma grande base americana. As forças do país dizem interceptar o projétil ainda no ar. O governo kuwaitiano condena o disparo e cobra de Teerã o fim imediato do que classifica como “grave escalada”.

Autoridades em Washington tentam enquadrar o episódio como reação controlada. “Essas ações foram calculadas, puramente defensivas e destinadas a manter o cessar-fogo”, afirma à Reuters um oficial americano, sob condição de anonimato. Em Teerã, a narrativa é oposta. A Guarda Revolucionária Islâmica diz ter mirado justamente a base responsável por um ataque anterior perto do aeroporto de Bandar Abbas e promete “resposta mais decisiva” a qualquer repetição.

Trump endurece, Omã vira alvo e vizinhos se veem no fogo cruzado

A troca de golpes ocorre no feriado muçulmano de Eid al-Adha, quando famílias se reúnem em toda a região. A data, tradicionalmente associada a trégua e visitas, é marcada por sirenes de alerta aéreo no norte de Israel, explosões no Líbano e mísseis no Golfo. O conflito que começou em 28 de fevereiro, com ataques de EUA e Israel contra o Irã, se expande em círculos concêntricos.

No Líbano, Israel anuncia que ataca infraestrutura do Hezbollah em Tiro e atinge também áreas de Beirute. O Exército libanês relata a morte de um de seus soldados em um dos bombardeios. Israel mantém um avanço profundo pelo território libanês e desloca centenas de milhares de pessoas. Em seu norte, sirenes soam mais uma vez, sinal de que o risco de uma frente aberta com o Hezbollah segue alto.

Teerã, que considera o Líbano peça central em qualquer acordo amplo para encerrar as hostilidades, tenta se mostrar resiliente. Em carta ao Parlamento, o líder supremo Mojtaba Khamenei afirma que o país sai “fortalecido” da guerra e convoca deputados a preservar a unidade, enfrentar inflação e corrupção e começar a reparar danos.

Enquanto isso, Trump insiste em público que o fim da guerra está próximo, mas admite, em reunião de gabinete na quarta-feira (27), que não está satisfeito com o ritmo das tratativas. Deixa claro que não discute alívio de sanções, uma das exigências centrais de Teerã. “A conclusão é que o Irã jamais terá uma arma nuclear”, reforça o secretário de Estado, Marco Rubio, ecoando a ala mais dura em Washington.

A TV estatal iraniana divulga que há um rascunho informal de acordo para restaurar em um mês a navegação no estreito aos níveis pré-guerra, com gestão conjunta do tráfego por Irã e Omã e retirada gradual das forças americanas da região. A Casa Branca reage com virulência e chama o texto de “completa invenção”. Trump vai além. “Ninguém vai controlar o estreito. São águas internacionais, e Omã se comportará como qualquer outro país, ou teremos que explodi-los. Eles entendem isso, tudo ficará bem”, dispara o presidente.

A ameaça pública a um parceiro tradicional, com quem os EUA mantêm laços militares e econômicos há décadas, alarma diplomatas. Omã não comenta a ideia de controle conjunto com o Irã, mas admite ter discutido com Teerã a liberdade de navegação. A resposta iraniana é imediata. O governo expressa solidariedade ao sultanato diante do que chama de “ameaças de autoridades americanas” e tenta explorar a fissura entre Washington e um de seus interlocutores mais pragmáticos no Golfo.

Petróleo, sanções e um estreito cada vez mais estreito

No mar, a guerra silenciosa por Ormuz continua. A Guarda Revolucionária afirma controlar o estreito e relata ter interceptado duas embarcações e liberado a passagem de outras 26 nas últimas 24 horas. Antes da guerra, mais de cem navios cruzam o corredor diariamente, respaldados por garantias legais internacionais. Hoje, cada travessia tem custo maior de seguro, escolta naval e incerteza.

Os reflexos aparecem imediatamente nos mercados. Depois de cair 5% na quarta-feira (27), o contrato futuro de petróleo bruto nos EUA sobe cerca de 3% com a notícia dos ataques. Bolsas recuam, e o dólar ganha força, reflexo direto da perda de confiança dos investidores em um acordo rápido considerado chave para segurar riscos de inflação global.

Em Teerã, negociadores insistem que a paz passa pelo bolso. O vice-secretário do Conselho de Segurança Nacional, Ali Bagheri Kani, afirma que o Irã quer a liberação de fundos congelados, o fim do bloqueio americano a seus portos e a suspensão das sanções. O Departamento do Tesouro responde na direção contrária e anuncia, também na quarta-feira, a inclusão da recém-criada Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico na lista de entidades sob sanção.

A minuta mencionada pela TV iraniana prevê ainda discussões mais longas, por 60 dias, sobre o programa nuclear de Teerã. O ponto é sensível. Parte da base política de Trump exige o desmantelamento completo da capacidade nuclear iraniana. O Irã reafirma que o projeto tem fins “exclusivamente pacíficos” e que não aceitará limitar sua soberania tecnológica sem contrapartidas claras.

Negociações à beira do abismo

A ofensiva com drones e mísseis não rompe formalmente o cessar-fogo, mas expõe o quão frágil ele se torna. Cada ataque “limitado” testa a linha vermelha do outro lado. Até agora, ambos evitam alvos civis em grande escala e preservam espaço para a diplomacia, mas a margem para erro diminui a cada dia.

Na prática, quem depende da rota energética do Golfo acumula perdas. Países importadores de petróleo encaram preços voláteis. Empresas de transporte e seguros repassam custos. Economias frágeis, sobretudo no Sul global, sofrem com a perspectiva de energia mais cara em meio a inflação já elevada. No front político, Trump leva para o debate interno a imagem de líder disposto a confrontar Teerã, enquanto Khamenei tenta transformar resistência em capital nacionalista.

Diplomatas da região ainda enxergam brechas. A mediação de países como Omã e Kuwait, apesar de pressionada por ameaças e mísseis, preserva canais de diálogo entre generais e negociadores. O fato de Irã e EUA conversarem, mesmo por meio de recados públicos e intermediários, indica que nenhum lado está pronto para assumir o custo de uma guerra aberta e prolongada em Ormuz.

Os próximos dias devem mostrar se os ataques desta semana funcionam como recado de força antes de uma nova rodada de negociações ou como o início de um ciclo de escalada difícil de conter. Enquanto drones e navios cruzam o estreito cada vez mais militarizado, a pergunta que ecoa em capitais de todo o mundo é simples e inquietante: quem cede primeiro antes que um erro de cálculo feche de vez a principal torneira de petróleo do planeta?

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