Líder iraniano diz que Golfo Pérsico não abrigará mais bases dos EUA
O líder iraniano Mojtaba Khamenei afirma, em discurso na terça-feira (26), que países do Golfo Pérsico não vão mais abrigar bases militares dos Estados Unidos. A fala ocorre durante uma festividade muçulmana e aponta para o enfraquecimento da presença americana na região, segundo ele.
Discurso em meio à celebração religiosa
O anúncio vem durante uma grande festividade muçulmana, diante de uma plateia composta por autoridades religiosas, militares e convidados estrangeiros. Em tom confiante, Khamenei afirma que a era da presença militar americana no Golfo “se aproxima do fim” e que as bases dos EUA “não terão mais lugar” nos países vizinhos ao Irã.
Ele sustenta que a influência norte-americana sofre um declínio constante há pelo menos uma década e atribui essa mudança a erros estratégicos de Washington, como guerras prolongadas e alianças frágeis. Segundo Khamenei, governos do Golfo, que por anos abrigam tropas e equipamentos dos EUA, agora calculam riscos políticos internos e buscam reduzir a dependência da proteção militar americana.
Reconfiguração do xadrez regional
A declaração toca diretamente no coração da arquitetura de segurança do Oriente Médio. Hoje, dezenas de milhares de militares americanos se distribuem em bases aéreas, navais e instalações de comando em países como Arábia Saudita, Qatar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, apoiando operações no Iraque, na Síria e no próprio Golfo Pérsico. A retirada ou redução drástica dessa estrutura, se confirmada, muda o equilíbrio de forças em uma região que responde por cerca de 30% das exportações mundiais de petróleo.
Khamenei apresenta essa possível transição como resultado de um processo mais amplo. “Os povos da região não aceitam mais a tutela estrangeira”, afirma, segundo relatos de participantes do evento. Para ele, governos que antes se apoiavam no guarda-chuva de segurança dos EUA agora enfrentam pressão de sociedades mais jovens, conectadas e sensíveis a símbolos de ocupação, mesmo quando revestidos do discurso de parceria estratégica.
Tensões com Washington e disputa por influência
A fala do líder iraniano agrava a já delicada relação entre Teerã e Washington. Desde a década de 1980, o Golfo é o principal palco da presença militar americana no Oriente Médio, com frota naval permanente, aviões de combate e sistemas de defesa antimísseis. Essas estruturas são tanto um escudo para monarquias do Golfo quanto um ponto de atrito com o Irã, que vê as bases como ameaça direta à sua segurança.
Especialistas ouvidos por diplomatas na região avaliam que a declaração de Khamenei funciona como sinal político para vários públicos ao mesmo tempo. Internamente, reforça a imagem de um Irã em ascensão, capaz de influenciar vizinhos ricos em petróleo. Externamente, envia recado aos Estados Unidos de que qualquer tentativa de reforço militar encontrará resistência, inclusive diplomática, em capitais que historicamente abrem espaço para navios e aviões americanos.
Vácuo de poder e novos atores
A possibilidade de esvaziamento das bases abre espaço para outros competidores globais. China e Rússia, que nos últimos anos ampliam presença naval, acordos de armas e investimentos em infraestrutura energética no Oriente Médio, podem ocupar parte do vácuo deixado pelos EUA. Em 2023 e 2024, Pequim assina uma sequência de contratos bilionários com países do Golfo e patrocina conversas de reconciliação entre Irã e Arábia Saudita, enquanto Moscou aprofunda a cooperação militar com Teerã e com aliados da região.
Mercados acompanham o movimento com atenção. Cada sinal de instabilidade no Golfo costuma repercutir em prêmios de risco no barril de petróleo e em contratos futuros de gás natural. A perspectiva de enfraquecimento da proteção americana, somada ao histórico de ataques a instalações de petróleo e rotas marítimas, alimenta dúvidas sobre a segurança dos estreitos que escoam milhões de barris por dia. Investidores e governos consumidores, como os da União Europeia e da Ásia, monitoram não só a retórica, mas também eventuais cronogramas e gestos concretos dos governos do Golfo.
Quem ganha e quem perde
Uma retirada dos EUA reduz o conforto estratégico de monarquias que contam, há mais de 30 anos, com a dissuasão americana para conter ameaças externas e choques internos. Governos do Golfo podem ser forçados a elevar gastos militares, investir em sistemas de defesa nacionais e diversificar fornecedores, o que rearranja contratos bilionários de armas e tecnologia. Empresas norte-americanas perdem terreno para concorrentes russas, chinesas e europeias, enquanto o Irã tenta converter influência política em acordos econômicos e de segurança.
Para Teerã, o cenário ideal é um Golfo menos alinhado a Washington e mais aberto a arranjos regionais sob sua liderança ou em equilíbrio com a sua presença. Khamenei insiste, no discurso, que “a segurança do Golfo deve ser garantida pelos países do Golfo”, fórmula que reforça a ideia de um sistema sem potências externas. Na prática, porém, qualquer desenho alternativo depende da disposição de rivais históricos, como Arábia Saudita e Emirados, em aceitar mesas de negociação em que o Irã se apresenta como protagonista.
Incertezas e próximos movimentos
Até o momento, governos do Golfo não divulgam cronogramas de fechamento ou redução de bases americanas, nem comentam detalhes da fala de Khamenei. Em Washington, a tendência é minimizar publicamente a declaração, enquanto estrategistas militares revisam cenários de médio prazo. Uma diminuição gradual da presença no Golfo, compensada por arranjos com aliados na Europa e na Ásia, já está em discussão desde o início da década, em paralelo ao foco crescente dos EUA no Indo-Pacífico.
A próxima rodada de cúpulas regionais, prevista para os próximos meses, deve indicar se o discurso do líder iraniano antecipa uma mudança em curso ou apenas amplia a pressão política sobre vizinhos e sobre Washington. Enquanto não surgem decisões oficiais, a frase sobre um Golfo sem bases americanas funciona como lembrete de que a antiga arquitetura de segurança da região já não oferece garantias de estabilidade automática.
