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Sem encontro com Trump, Flávio Bolsonaro volta de Washington esvaziado

Flávio Bolsonaro chega a Washington nesta terça-feira (26) na expectativa de uma foto com Donald Trump, mas sai sem reunião oficial na Casa Branca. A agenda do presidente dos Estados Unidos ignora o senador brasileiro e expõe os limites da tentativa de se credenciar como aliado preferencial de Washington na corrida ao Planalto em 2026.

Viagem em busca de fôlego eleitoral

A passagem de Flávio pela capital americana é pensada como gesto calculado para reposicioná-lo após semanas de desgaste. O senador do PL tenta recuperar terreno na disputa com o presidente Lula, em meio à crise aberta pela revelação de contatos com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do liquidado Banco Master. A agenda com Trump seria vendida ao eleitorado como sinal de prestígio internacional e alinhamento com a direita global.

Essa construção, porém, esbarra no calendário e nas prioridades de Washington. Nesta semana, Trump concentra a atenção em decisões militares recentes no Golfo Pérsico. Na segunda-feira (25), o republicano ordena ataques contra instalações de lançamento de mísseis e embarcações iranianas no Estreito de Ormuz, em pleno cessar-fogo frágil e em meio a negociações para encerrar a guerra. A Casa Branca reserva o dia a reuniões internas no Salão Oval e a uma visita ao Centro Médico Militar Walter Reed, sem espaço para encontros públicos com parlamentares estrangeiros.

Aliados de Flávio apostam até o último momento em uma brecha de agenda. A comitiva circula discretamente por corredores de Washington em conversas com assessores, lobistas e intermediários da direita americana. Em público, o discurso é de cautela. Em privado, a avaliação é mais direta: o peso político do senador ainda não garante prioridade no gabinete do homem mais poderoso do mundo.

Tentativa de encaixe com JD Vance e disputa com Lula

Sem aceno claro de Trump, o plano B passa a ser um encontro com o vice-presidente, JD Vance. Segundo apuração da CNN Brasil, auxiliares próximos ao senador admitem que a reunião na Casa Branca pode ocorrer apenas com Vance, figura em ascensão no Partido Republicano e potencial ponte com o eleitorado conservador brasileiro. A diferença, para efeitos de campanha, é grande: a imagem ao lado do presidente americano rende manchetes; a foto com o vice exige mais explicações.

Flávio tenta transformar qualquer conversa em ativo eleitoral. A estratégia mira principalmente a comparação com Lula em temas de segurança pública. O senador quer defender a equiparação de facções brasileiras a organizações terroristas, linha hoje cara à administração Trump. A aposta é falar a mesma língua do eleitorado que exige respostas duras ao crime organizado, num momento em que facções brasileiras ampliam presença em países vizinhos e integram rotas internacionais de drogas e armas.

O discurso contrasta com a narrativa construída pelo governo Lula, que tenta equilibrar enfrentamento ao crime com agenda de direitos humanos e cooperação policial regional. Ao se associar a Washington nesse debate, Flávio busca sinalizar que um eventual governo seu abraça a doutrina de tolerância zero, inspirado em modelos adotados por Estados Unidos e por experiências latino-americanas recentes.

O contexto doméstico, porém, pesa. As revelações sobre Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, fragilizam o senador em setores do centro político e no mercado financeiro. Adversários exploram o episódio para questionar sua capacidade de liderar uma agenda de segurança e combate ao crime enquanto responde a questionamentos sobre relações com empresários sob suspeita. Lideranças como o governador Ronaldo Caiado, do União Brasil, cobram explicações públicas. “Os problemas que ele tem que responder estão no Brasil”, afirma Caiado, em tom de recado.

O que está em jogo para a campanha de 2026

A ausência de um compromisso oficial com Trump não é apenas um tropeço de protocolo. O episódio ajuda a medir o alcance da influência de Flávio fora do país e alimenta especulações sobre um possível resfriamento na relação pessoal entre as famílias Bolsonaro e Trump. Em 2019 e 2020, Jair Bolsonaro explora intensamente a proximidade com o republicano. Sete anos depois, o cenário é outro: o herdeiro político tenta repetir a fórmula, mas encontra portas menos escancaradas em Washington.

No tabuleiro eleitoral de 2026, cada gesto internacional conta. Pesquisas recentes indicam disputa apertada em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio, com diferença na casa de poucos pontos percentuais. Em um ambiente tão polarizado, uma foto na Casa Branca pode render horas de exposição em telejornais e milhões de reproduções em redes sociais. A falta dessa imagem, por outro lado, alimenta narrativas de fragilidade e isolamento.

A viagem também expõe a tensão entre o calendário eleitoral brasileiro e a agenda externa dos Estados Unidos. Enquanto Flávio tenta construir um roteiro político em Washington, Trump lida com os efeitos imediatos dos ataques no Estreito de Ormuz e com as negociações de cessar-fogo com Teerã. A diplomacia americana fecha o cerco a aparições que possam ser lidas como gestos eleitorais a aliados estrangeiros em meio a uma crise militar de alta sensibilidade.

Especialistas em relações internacionais ouvidos reservadamente avaliam que a insistência de Flávio em uma agenda simbólica com Trump pode ter efeito ambíguo. No curto prazo, reforça sua imagem junto ao eleitorado mais fiel ao bolsonarismo e ao trumpismo. No médio, pode cristalizar a percepção de que sua plataforma externa se resume a um alinhamento personalista, mais dependente de figuras específicas do que de uma estratégia de Estado.

Próximos movimentos e incertezas

De volta ao Brasil, o senador tenta capitalizar o que vier de Washington. Se o encontro com JD Vance se confirma, a campanha deve explorar o vice como símbolo de renovação conservadora e parceria em temas de segurança. Se nem isso acontece, a comunicação de Flávio terá de investir em imagens de reuniões com parlamentares e técnicos, além de discursos duros sobre crime organizado e defesa da soberania, para reduzir a impressão de viagem esvaziada.

O governo Lula observa à distância. Assessores no Itamaraty minimizam o impacto imediato do périplo do rival, mas admitem que qualquer sinal de aproximação formal entre Flávio e a Casa Branca pode complicar a gestão da relação bilateral em um ano pré-eleitoral. Até aqui, porém, é a ausência de Trump na foto que fala mais alto. A campanha do senador volta a Brasília com menos do que planejava e com uma pergunta em aberto: quanto peso real Flávio Bolsonaro tem hoje fora das fronteiras brasileiras?

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