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EUA indiciam Raúl Castro e elevam pressão por fim do regime em Cuba

Os Estados Unidos indiciam o ex-presidente cubano Raúl Castro, 94, por assassinato, em maio de 2026, e reacendem o fantasma de mudança de regime em Cuba. A acusação se soma a uma campanha de máxima pressão que já provoca a pior crise de energia e combustíveis na ilha em décadas. Washington agora testa até onde pode ir para forçar o enfraquecimento do governo comunista de 66 anos.

Escalada judicial em meio à pior crise em décadas

O indiciamento mira o episódio de fevereiro de 1996, quando caças cubanos derrubam duas aeronaves civis ligadas ao grupo anticastrista Irmãos ao Resgate. Na peça apresentada em tribunal americano, promotores atribuem a Castro responsabilidade direta pelas mortes e abrem caminho para pedidos de prisão e sanções adicionais. O gesto jurídico, quase 30 anos depois do ataque, ganha peso político imediato em Havana e em Miami.

O caso surge quando Cuba enfrenta apagões diários, escassez de combustíveis e filas por alimentos básicos. Autoridades locais admitem que a oferta de energia cai a níveis não vistos desde o chamado “período especial” dos anos 1990. O governo dos Estados Unidos endurece sanções, restringe crédito, trava remessas e isola a ilha em organismos internacionais. Em Washington, parlamentares falam abertamente em aproveitar a vulnerabilidade econômica para acelerar o fim do regime.

O presidente Donald Trump diz acreditar que “a escalada” não será necessária, mas mantém o tom de ameaça. A Casa Branca afirma que não tolera um “Estado vilão” a apenas 144 quilômetros da Flórida e evita descartar opções militares. O cenário lembra outros momentos de ruptura na região. Em janeiro, forças americanas realizam operação relâmpago na Venezuela, capturam Nicolás Maduro e o levam a Nova York para responder a acusações de drogas e armas. Em 1989, milhares de soldados invadem o Panamá na Operação Justa Causa para derrubar Manuel Noriega.

O paralelo alimenta especulações em Havana de que Castro possa se tornar alvo de ação similar. Legisladores republicanos defendem a ideia em público. “Não devemos retirar nada da mesa”, afirma o senador Rick Scott, da Flórida. “O mesmo que aconteceu com Maduro deveria ocorrer com Raúl Castro.” Trump, pressionado, nega que haja plano aprovado para uma incursão em Cuba, mas não oferece garantias duradouras. O silêncio sobre linhas vermelhas claras mantém o país em suspense.

Regime sob pressão, mas sem sucessor óbvio

Em 2018, Raúl Castro entrega a Presidência, mas continua influente na cúpula do Partido Comunista. Aos 94 anos, mantém poder simbólico que vai além de cargos formais. Analistas em Washington consideram que sua captura teria impacto mais doméstico do que estratégico. “Não acho que afetaria muito a estrutura de poder em Cuba. Ele tem 94 anos”, avalia Adam Isacson, do Escritório de Washington sobre a América Latina. Para ele, a dinastia Castro pesa na memória, mas não sustenta sozinha o sistema.

Ainda assim, o valor político de ver um dos líderes da revolução de 1959 atrás das grades seduz falcões em Washington. “Eles adorariam humilhar os Castro”, diz Isacson, antes de questionar o efeito prático da medida. A máquina do Estado cubano, consolidada ao longo de seis décadas, se apoia em Forças Armadas, serviços de segurança e estruturas partidárias locais. Para especialistas, esse aparato segue funcionando, apesar do colapso econômico que encolhe salários, raciona bens e derruba o consumo diário para algo entre 1.000 e 1.500 calorias por pessoa, segundo estimativas independentes.

Dentro do governo Trump, ganha força uma segunda via: negociar uma transição controlada em Havana. O roteiro lembra o que ocorre na própria Venezuela, após a saída forçada de Maduro e a ascensão de Delcy Rodríguez, vista como figura mais pragmática. O regime permanece, mas abre canais com Washington e com investidores estrangeiros. Trump indica, em 12 de maio, que mantém contato com quadros cubanos que buscam apoio externo em meio à crise. “Cuba está pedindo ajuda e iremos conversar”, escreve na rede Truth Social.

Dias depois, o diretor da CIA, John Ratcliffe, encontra-se com autoridades cubanas, entre elas o neto de Raúl, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, conhecido como “Caranguejo”, e o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas. Os encontros sinalizam busca por uma figura capaz de garantir estabilidade, afastar serviços de inteligência russos e chineses e, ao mesmo tempo, aceitar abertura econômica gradual. O secretário de Estado, Marco Rubio, resume a estratégia em viagem à Flórida, em 21 de maio. “Iremos colaborar com os cubanos… Eles precisam tomar uma decisão. Seu sistema simplesmente não funciona”, diz. Rubio reforça que a preferência é por um “acordo negociado”.

O problema, reconhecem assessores e acadêmicos, é a falta de um nome óbvio para ocupar esse espaço. “Não acho que exista uma óbvia Delcy Rodríguez na ilha”, afirma Michael Shifter, professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Georgetown e ex-diretor do Diálogo Interamericano. Segundo ele, o poder em Cuba se distribui de forma diferente, com núcleos militares, partidários e de inteligência que se equilibram entre si. “É difícil encontrar o que eles estão procurando, mas acho que buscam algum tipo de estrutura de governo” que converse com Washington sem romper com a ordem interna.

Crise econômica, risco migratório e incerteza regional

Enquanto a diplomacia tateia saídas, a realidade nas ruas se deteriora. Cortes de energia se estendem por várias horas ao dia em diferentes províncias. Postos de gasolina fecham por falta de diesel e gasolina, afetando transporte, agricultura e turismo. Nas cidades, filas para comprar arroz, óleo e carne se alongam por quarteirões. Hospitais relatam escassez de insumos básicos, de antibióticos a luvas descartáveis. A crise, alimentada por sanções americanas e erros internos de gestão econômica, piora mês a mês em 2026.

Trump insiste que o agravamento é prova de que a pressão funciona. “O lugar está se desfazendo. É um desastre e eles perderam o controle, até certo ponto”, afirma. Especialistas, porém, alertam que o colapso da economia não se traduz automaticamente em queda do regime. “Você precisa distinguir a economia cubana do Estado e do governo de Cuba”, explica Shifter. “A economia cubana pode entrar em colapso e está entrando… mas o Estado ainda funciona, especialmente em relação à segurança.” Para Washington, um eventual desmoronamento institucional também carrega riscos concretos.

Um deles é o aumento súbito da migração. Em cenários analisados por órgãos americanos, milhões de cubanos poderiam tentar deixar a ilha se a situação piorar, repetindo ondas anteriores, como o êxodo do Mariel em 1980. A maioria seguiria rumo à Flórida, mas especialistas esperam também fluxos para o México e para outros países do Caribe. “Se houver um colapso, você verá uma grande parte da população cubana fazer tudo o que puder para fugir, da mesma forma que ocorre no Haiti há anos”, projeta Isacson. Ele admite surpresa por esse movimento ainda não ter explodido. “É de se imaginar que eles já estejam construindo seus barcos”, afirma.

A política migratória dos Estados Unidos, endurecida durante o governo Trump, fecha a porta do asilo automático a cubanos e restringe vistos. A combinação de repressão interna, fronteiras externas mais rígidas e economia em frangalhos alimenta um impasse difícil de resolver. O indiciamento de Raúl Castro funciona como catalisador desse quadro: amplia a pressão internacional, alimenta apostas em mudanças rápidas, mas não responde à pergunta central. Cuba cede à negociação, enfrenta uma substituição negociada de liderança, ou assiste a um colapso lento, com consequências imprevisíveis para toda a região do Caribe?

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