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Poupança de ex-escravizados na Caixa expõe apagão de reparação

Cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas no Rio de Janeiro entre 1865 e o início do século 20 seguem sem explicação clara sobre o destino do dinheiro. Muitos poupavam para comprar a própria liberdade, mas a maior parte dos valores permanece sem registro de saque décadas após a Abolição.

Arquivos revelam economia silenciosa de escravizados

Documentos da Caixa Econômica Federal mostram que homens e mulheres escravizados, e depois libertos, mantêm contas ativas pelo menos até 1931 sem movimentação de retirada. Em 1865, por exemplo, um africano identificado como Evaristo deposita 75.420 mil-réis em uma caderneta de poupança no Rio, quantia significativa para a época e incompatível, à primeira vista, com a imagem de completa miséria associada ao cativeiro.

A descoberta, detalhada em pesquisa divulgada pela Revista Piauí, ilumina um capítulo pouco conhecido da escravidão brasileira: a tentativa de construir, em segredo, fundos para comprar a própria alforria. A historiadora responsável pelo estudo pergunta, ao se deparar com as cadernetas: “Por que pessoas escravizadas confiavam seus recursos a um banco público?” A resposta, indica o levantamento, passa pela crença de que a poupança permitiria negociar a saída do cativeiro, num sistema que transformava a liberdade em mercadoria.

Os registros consultados mostram pelo menos 158 cadernetas de pessoas escravizadas, número considerado apenas uma fração do universo real, já que o acervo da Caixa está incompleto e ainda em processo de catalogação. As contas aparecem abertas sobretudo a partir de 1865, atravessam as últimas décadas do regime escravista e avançam pelo início da República, sem registro de que os valores sejam resgatados integralmente pelos titulares ou seus herdeiros.

O caso de Lydia, lavadeira que acumula mais de 1 milhão de mil-réis em 1931 sem nunca sacar o dinheiro, simboliza as lacunas. “O que aconteceu com as economias de Lydia?”, questionam os pesquisadores. A trajetória da lavadeira, assim como a de Evaristo e de dezenas de outros poupadores negros, permanece em aberto nos arquivos, interrompida por folhas amareladas e anotações burocráticas, mas sem desfecho financeiro claro.

Omissão histórica trava reparação e memória

As cadernetas revelam que, ao contrário da narrativa oficial que insiste na gratuidade da Abolição em 13 de maio de 1888, muitos homens e mulheres escravizados pagam, ao longo dos anos, pela própria liberdade. Guardam pequenas quantias, acumuladas em serviços urbanos e trabalhos extras, e apostam no banco público como espaço de proteção. Depois da Lei Áurea, a maioria dessas economias segue parada. Pesquisadores relatam tentativas de libertos e descendentes de acessar os recursos, quase sempre sem sucesso documentado.

O silêncio sobre o destino desse dinheiro alimenta o debate sobre reparação econômica e justiça histórica. Valores que poderiam ter ajudado ex-escravizados a comprar casas, abrir pequenos negócios ou garantir estudo aos filhos desaparecem na transição do trabalho cativo para uma liberdade formal e desamparada. A ausência de resgates registrados expõe um projeto de país que, ao abolir a escravidão sem indenizar as vítimas, também não garante sequer o acesso ao que elas próprias acumulam.

O posicionamento da Caixa, descrito como “defensivo” pela Revista Piauí, amplia as desconfianças. A instituição informa, por meio de sua área cultural, que a pesquisa sobre as cadernetas é “um processo contínuo” e ressalta a complexidade de organizar arquivos que atravessam mais de um século e diferentes regimes jurídicos. Historiadores contestam a lentidão e afirmam que a instituição tem o “dever de garantir aos cidadãos o direito à informação”, sobretudo quando se trata de recursos de pessoas historicamente lesadas pelo Estado brasileiro.

Movimentos negros cobram transparência total, digitalização dos documentos e abertura de um canal público para consulta das antigas contas, com apoio técnico para famílias que queiram investigar possíveis vínculos. Entidades veem nas cadernetas um dado concreto que reforça o direito a medidas de reparação, seja na forma de indenizações diretas, seja em políticas robustas de ação afirmativa financiadas com recursos do próprio sistema financeiro estatal.

Pressão por transparência e disputa pelo passado

A revelação das contas esquecidas ocorre em meio a um ambiente de maior cobrança por responsabilidade histórica de empresas e instituições que lucram durante a escravidão. Bancos europeus e norte-americanos já enfrentam ações na Justiça e comissões de verdade dedicadas a mapear ganhos com o tráfico negreiro e com o trabalho compulsório. No Brasil, a discussão ainda engatinha, e o caso da Caixa surge como um primeiro teste de fôlego para medir até onde vai a disposição do Estado em encarar o passado.

Pesquisadores defendem um esforço coordenado entre a Caixa, o Arquivo Nacional, universidades públicas e organizações da sociedade civil para localizar novas cadernetas, identificar herdeiros possíveis e mensurar, com rigor, a dimensão financeira desse apagão. A análise de valores como os 75.420 mil-réis de Evaristo ou o mais de 1 milhão de mil-réis de Lydia, atualizados a preços de hoje, poderia quantificar parte da perda imposta a essas famílias e servir de base para políticas de reparação.

Advogados consultados por movimentos sociais argumentam que, mesmo quando a legislação bancária considera contas antigas prescritas, permanece o princípio do direito à verdade e à memória. Nesse cenário, a divulgação integral dos dados, acompanhada de um pedido público de desculpas e de medidas concretas em benefício da população negra, aparece como caminho possível para a Caixa evitar que a discussão termine em disputa judicial. O banco, por enquanto, limita-se a dizer que colabora com pesquisadores e que novas informações serão divulgadas “conforme o avanço dos trabalhos”.

A disputa em torno dessas cadernetas já extrapola o campo da historiografia e alcança o debate político. Parlamentares discutem audiências públicas e pedidos formais de esclarecimento à direção da Caixa. Organizações negras planejam campanhas para localizar descendentes de antigos correntistas e pressionar por respostas. No centro da controvérsia, permanece uma pergunta simples e ainda sem resposta oficial: onde está o dinheiro economizado por Evaristo, por Lydia e por tantos outros escravizados que confiaram à poupança a chance rara de comprar a própria liberdade?

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