Mergulho em túnel nas Maldivas termina em tragédia com cinco italianos
Cinco mergulhadores italianos morrem nas Maldivas em 14 de maio, após entrarem no túnel errado durante um mergulho com cilindros inadequados. Um socorrista local também perde a vida na operação de resgate.
Túneis sem saída em um mar agitado
O acidente ocorre em um dos cartões-postais do turismo de aventura mundial, cerca de 100 quilômetros ao sul de Malé, capital das Maldivas. A região vive naquele dia mar agitado, sob alerta amarelo para embarcações de passageiros e pescadores, segundo a polícia local.
Na manhã de 14 de maio, o grupo de italianos entra na água a partir de uma embarcação de mergulho turística. Entre eles estão Giorgia Sommacal, de 20 anos, a mãe dela, Monica Montefalcone, de 52, o instrutor e gerente de operações Gianluca Benedetti, de 44, além de Muriel Oddenino e Federico Gualtieri, ambos de 31 anos. A tripulação espera o retorno à superfície, mas o tempo passa e nenhum deles reaparece.
O desaparecimento é comunicado às autoridades e dá início a uma corrida contra o relógio em um labirinto subaquático. O local não é um simples recife, mas um sistema de câmaras interligadas por túneis estreitos, descrito pelo jornal italiano la Repubblica. A primeira câmara leva a uma segunda por um corredor de cerca de 30 metros de comprimento e 3 metros de largura. Da segunda, a entrada do corredor de volta fica parcialmente escondida por um banco de areia. Logo acima, existe uma terceira câmara, um beco sem saída.
É nesse ponto cego que a expedição termina. De acordo com informações divulgadas pela CBS News e confirmadas por Laura Marroni, CEO da companhia que coordena a operação de busca, os italianos seguem pelo caminho errado ao tentar sair da caverna. “Não havia saída por aquele caminho”, afirma ela ao la Repubblica.
Pânico, ar no limite e uma rota que não perdoa
O mergulho é de scooby diving, modalidade em que cada mergulhador leva seu próprio cilindro e respira de forma autônoma debaixo d’água, sem ligação com a superfície. O apelo é justamente a sensação de liberdade e a possibilidade de explorar áreas profundas. Nas Maldivas, esse tipo de turismo cresce há anos e atrai milhares de visitantes, com poucos acidentes graves registrados, segundo a BBC. O caso italiano rompe essa estatística e acende um alerta global.
As equipes de busca locais, apoiadas por mergulhadores da organização de pesquisa DAN Europe, mapeiam o sistema de túneis em busca de qualquer sinal do grupo. O cenário que encontram, dias depois, é o retrato de uma sucessão de decisões erradas somadas a condições adversas. Os corpos de Monica Montefalcone, Giorgia Sommacal, Muriel Oddenino e Federico Gualtieri aparecem próximos à saída da terceira câmara, a cerca de 50 metros de profundidade. O de Gianluca Benedetti é localizado perto da entrada da mesma câmara, em 14 de maio.
Segundo o grupo finlandês enviado pela DAN Europe, os italianos entram na terceira câmara por engano e entram em pânico ao perceber que não há saída antes que o oxigênio acabe. Quanto mais profundo o mergulho, menor o tempo seguro de permanência, sobretudo com cilindros comuns. Laura Marroni detalha que eles usam cilindros padrão de 12 litros, adequados para passeios até cerca de 30 metros. A 50 metros, a margem de segurança praticamente desaparece. “Estamos falando de 10 minutos, talvez até menos”, afirma. “Perceber que o caminho não é o certo e ter pouco ar depois de dar ré, talvez, é aterrorizante”, completa.
O resgate também cobra um preço alto. O sargento-mor Mohamed Mahudhee, mergulhador das Maldivas que integra as buscas, morre em 16 de maio devido à complexidade da operação. As correntes fortes e a visibilidade reduzida tornam cada descida um risco adicional, inclusive para profissionais experientes.
Especialistas ouvidos pela imprensa europeia apontam que mergulhos em cavernas e túneis exigem certificações específicas, redundância de equipamentos e protocolos rígidos de planejamento de rota e consumo de ar. Em ambientes fechados, qualquer erro de navegação, falha de equipamento ou mudança nas condições do mar reduz rapidamente as chances de retorno.
Pressão por novas regras em mergulhos extremos
A tragédia se torna, em poucos dias, tema de discussão em fóruns de mergulho na Europa e na Ásia. Organizações do setor falam em revisar padrões internacionais para atividades em cavernas subaquáticas turísticas, especialmente quando envolvem visitantes estrangeiros, que muitas vezes não dominam o ambiente local. A morte dos cinco italianos e do sargento-mor Mahudhee alimenta um debate sobre até que ponto resorts e operadores devem restringir o acesso a áreas consideradas técnicas.
Para famílias e amigos das vítimas, as perguntas imediatas são mais diretas: por que um grupo com cilindros padrão desce a 50 metros em um labirinto de túneis? Que tipo de brecha regulatória permite uma combinação tão arriscada de profundidade, mar agitado e rota confusa? As autoridades das Maldivas ainda não divulgam um relatório final sobre responsabilidades, mas a pressão por respostas cresce na Itália e em organismos internacionais ligados ao turismo.
Companhias de seguro e operadoras de viagem acompanham o caso de perto. Mudanças de protocolo podem encarecer pacotes de mergulho, exigir seguros específicos para atividades de alto risco e limitar o acesso a cavernas apenas a mergulhadores com certificação avançada. Há também discussão sobre o uso de monitoramento em tempo real, com linhas-guia visíveis, sensores de localização e checagem obrigatória de mistura de gases adequada para cada profundidade.
DAN Europe e outras entidades de pesquisa avaliam produzir recomendações mais duras para mergulhos em sistemas de túneis e cavernas turísticas. A intenção é transformar o episódio maldivo em um ponto de inflexão, não em mais um caso de estatística trágica. “Teria sido muito complicado retornar, especialmente com a pouca quantidade de ar disponível”, resume Marroni, ao descrever o cenário enfrentado pelos italianos.
O que permanece em aberto após a tragédia
As investigações formais seguem em curso nas Maldivas, com apoio de especialistas estrangeiros. A principal expectativa é por um relatório técnico que detalhe erros de planejamento, falhas de supervisão e lacunas de segurança. As conclusões tendem a servir de base para novos protocolos em destinos de mergulho ao redor do mundo, do Pacífico à costa mediterrânea.
Enquanto familiares aguardam a repatriação completa dos corpos e respostas oficiais, o caso se fixa como alerta para um setor que vende aventura e liberdade embaixo d’água, mas ainda convive com zonas cinzentas de regulação. O sistema de túneis onde o grupo italiano se perde continua no mesmo lugar, sujeito à força das correntes e às mudanças de areia no fundo do mar. A pergunta que resiste, em meio ao luto e às homenagens, é se essa caverna seguirá aberta ao turismo da mesma forma ou se a morte de seis pessoas será, enfim, o limite que obriga uma mudança definitiva de rota.
