Ataques de drones da Ucrânia matam dezenas de soldados russos em áreas ocupadas
Forças ucranianas lançam, entre a noite de 20 e o dia 21 de maio de 2026, uma série de ataques com drones contra alvos militares russos em territórios ocupados, matando dezenas de soldados e atingindo um quartel-general do serviço secreto de Moscou. Kyiv afirma que ao menos 65 cadetes de drones morrem em Snizhne e que quase 100 russos são mortos ou feridos em outra ofensiva na região de Kherson.
Escalada com drones em territórios ocupados
O comando ucraniano descreve as operações como parte de uma nova fase da guerra, marcada por ataques de médio alcance contra a infraestrutura russa atrás da linha de frente. Os alvos agora vão além de trincheiras e depósitos próximos ao combate direto. Entram no radar centros de treinamento, quartéis de inteligência e sistemas de defesa antiaérea em áreas ocupadas da Ucrânia e, em menor escala, em território russo.
O ataque mais letal atinge, na noite de quarta-feira, 20 de maio, um campo de treinamento de pilotos de drones em Snizhne, cidade industrial ocupada pela Rússia no leste da Ucrânia. Robert Brovdi, comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, afirma que a operação mira um complexo de 2.484 metros quadrados usado para abrigar drones, explosivos e um posto de comando. Segundo ele, ao menos 65 cadetes e um instrutor morrem no local.
Brovdi divulga nas redes sociais uma sequência de imagens que mostra drones de ataque unidirecional mergulhando contra um prédio de vários andares. A cada impacto, a estrutura perde parte da fachada e janelas, até ficar tomada por chamas. Vídeos publicados por moradores durante a noite exibem um incêndio intenso na mesma área de Snizhne, que a CNN localiza como sendo a região do campo de treinamento atingido.
No dia seguinte, o presidente Volodymyr Zelensky anuncia outro golpe simbólico. Em vídeo publicado nesta quinta-feira, 21, ele afirma que um quartel-general do FSB, o serviço de segurança russo, e um sistema de defesa aérea Pantsir-S1 são destruídos na região de Kherson, também sob ocupação russa. “Há bons resultados dos guerreiros do Centro de Operações Especiais ‘A’ do Serviço de Segurança da Ucrânia. Um quartel-general russo do FSB foi atingido e um sistema de mísseis terra-ar Pantsir-S1 foi destruído em nosso território temporariamente ocupado”, diz Zelensky.
O presidente ucraniano credita a uma única operação a morte e o ferimento de quase 100 russos, sem detalhar quantos mortos o governo contabiliza. Ele não informa o dia exato do ataque, mas apresenta imagens de edifícios destruídos e crateras profundas, que atribui à ofensiva contra o comando do FSB. A CNN afirma que não consegue verificar de forma independente os números e diz ter solicitado uma resposta às autoridades russas.
Guerra de versões e pressão estratégica
Os números divulgados por Kyiv destoam do padrão de comunicação da própria Ucrânia, que costuma ser mais contida ao detalhar baixas russas em operações específicas. Essa mudança sublinha o objetivo político dos anúncios: mostrar que o país não apenas resiste, mas passa a impor danos mais profundos à estrutura militar de Moscou em áreas ocupadas.
A Rússia mantém o silêncio sobre os ataques em Snizhne e Kherson até o início da tarde desta quinta. Ao longo do dia, o Ministério da Defesa russo prefere destacar o que chama de avanços na linha de frente e divulga combates bem-sucedidos em diferentes setores do front. Em paralelo, Moscou anuncia a entrega de parte de suas munições nucleares a depósitos em Belarus, como parte de exercícios conjuntos com as forças belarussas.
O Kremlin informa que o presidente Vladimir Putin e o líder de Belarus, Alexander Lukashenko, acompanham os exercícios nucleares por videoconferência. A mensagem, em meio ao aumento dos ataques de drones ucranianos, é dirigida tanto ao público interno quanto ao Ocidente: a Rússia faz questão de mostrar que mantém capacidade de escalada extrema, mesmo diante de pressões no campo de batalha convencional.
Os ataques de drones desta semana ocorrem num momento em que a Ucrânia tenta reverter um quadro de meses de perdas graduais de território. Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, observatório de conflitos sediado nos Estados Unidos, Kyiv recupera no mês passado mais área do que Moscou conquista pela primeira vez desde agosto de 2024. Ainda assim, a Rússia controla quase 20% do território ucraniano.
Esse avanço pontual é, em grande medida, atribuído à atual superioridade ucraniana no emprego de drones, tanto para reconhecimento quanto para ataque. Após concentrar esforços em alvos de curto alcance, próximos à linha de frente, e em ataques de longo alcance contra refinarias e instalações em solo russo, o comando em Kyiv intensifica agora uma terceira vertente: operações de médio alcance destinadas a desorganizar a logística russa em profundidade.
Na noite de quarta, outro ataque atinge a refinaria de petróleo de Syzran, na região russa de Samara, a mais de 800 quilômetros da fronteira. Zelensky afirma que a operação faz parte de uma estratégia sistemática para enfraquecer o esforço de guerra russo, comprometendo cadeias de suprimento de combustível. O governador local, porém, destaca o custo humano do ataque e confirma a morte de dois familiares de um soldado russo que luta na Ucrânia.
O Ministério da Defesa russo declara que suas defesas aéreas abatem 121 drones ucranianos em diferentes pontos da fronteira oeste durante a mesma noite, da região de Kursk a Belgorod e Bryansk. A Ucrânia não comenta o número. Enquanto isso, autoridades ucranianas informam que pelo menos cinco pessoas morrem e 41 ficam feridas em bombardeios russos entre a madrugada e o meio-dia desta quinta-feira, em um lembrete de que a população civil dos dois lados continua pagando o preço da escalada.
Capacidade em disputa e próximos movimentos
A destruição de um centro de treinamento em Snizhne, se confirmada, atinge uma das engrenagens mais sensíveis da máquina militar russa: a formação de operadores de drones. Ao eliminar, de uma só vez, mais de 65 cadetes em início de carreira, Kyiv espera desacelerar a renovação de quadros em uma área que virou peça-chave da guerra moderna. Atingir um quartel-general do FSB e um sistema Pantsir-S1 em Kherson amplia essa pressão, ao mirar tanto o comando de inteligência quanto a proteção aérea de unidades avançadas.
Na prática, a ofensiva reforça o protagonismo tecnológico da Ucrânia num campo em que o país, com apoio ocidental, ganha vantagem visível. Frotas de drones relativamente baratos e adaptáveis permitem que Kyiv compense parte da inferioridade em artilharia e aviação. A Rússia responde com adaptações próprias, sistemas de guerra eletrônica mais sofisticados e produção acelerada de aeronaves não tripuladas, mas enfrenta dificuldades para proteger toda a extensão de uma frente com milhares de quilômetros.
Os ataques desta semana também funcionam como mensagem política para aliados. Ao mostrar que consegue atingir centros estratégicos em territórios ocupados e instalações energéticas a centenas de quilômetros de distância, a Ucrânia tenta convencer governos ocidentais de que investimentos adicionais em tecnologia de drones e defesa aérea se traduzem em ganhos concretos no campo de batalha. O recado acompanha pedidos recorrentes por mais mísseis de longo alcance e sistemas capazes de interceptar bombardeios russos.
Do lado russo, a combinação de anúncios de avanços táticos, abates de drones e exercícios nucleares em Belarus compõe uma narrativa de força e disposição para sustentar uma guerra longa. A presença simbólica de Putin e Lukashenko na simulação nuclear lembra à comunidade internacional que qualquer deterioração brusca da situação no front vem acompanhada de um pano de fundo atômico.
O equilíbrio entre essas duas agendas — a ofensiva de drones da Ucrânia e a reafirmação nuclear da Rússia — tende a definir o ritmo dos próximos meses de guerra. Se Kyiv mantiver a capacidade de golpear centros de comando e infraestrutura sensível, pode impor custos crescentes a Moscou e ganhar espaço em futuras negociações. Se a Rússia conseguir ampliar a proteção de suas bases e sustentar os avanços terrestres, os ganhos ucranianos podem se diluir.
O que está em disputa, no fim, é quem controla o tempo da guerra. Os ataques em Snizhne, Kherson e Syzran indicam que o relógio volta a andar mais rápido, mas ainda não esclarecem em direção a qual lado ele vai apontar.
