Novo líder do Irã diz que estrangeiros ‘não têm lugar’ no Golfo
O novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirma nesta quinta-feira (data local) que estrangeiros “não têm lugar” no Golfo Pérsico e promete defender o programa nuclear e de mísseis do país. A declaração, transmitida pela TV estatal em meio à guerra com Estados Unidos e Israel, amplia a tensão em uma das rotas de petróleo mais importantes do mundo.
Pronunciamento sob guerra e sucessão traumática
O pronunciamento ocorre pouco mais de sete semanas após o assassinato de Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro em um ataque coordenado de EUA e Israel em Teerã. Desde então, o Irã entra em guerra aberta com os dois países, enquanto a elite religiosa corre para consolidar a sucessão e preservar o regime.
Mojtaba é escolhido por um conselho de altos clérigos e autoridades de segurança, em um processo fechado que provoca críticas internas e externas. Donald Trump chama a escolha de “grande erro” e diz que Mojtaba é “inaceitável” para comandar o Irã. Mesmo assim, a nova liderança tenta se apresentar como continuidade direta do pai.
O comunicado desta quinta-feira segue essa linha. Em mensagem escrita, lida pela TV estatal, Mojtaba diz que o Irã e os países vizinhos “compartilham um destino comum” no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã. “Atores estrangeiros — que vêm de milhares de quilômetros de distância com intenções gananciosas — não têm lugar aqui, exceto nas profundezas de suas águas”, afirma, segundo a emissora.
O texto é divulgado no chamado Dia do Golfo Pérsico, data simbólica em Teerã usada para exaltar a presença iraniana na região. A cerimônia, que em outros anos tem tom nacionalista forte, ganha agora contornos de recado militar em meio à guerra.
Apesar de ter sido anunciado como líder supremo há mais de sete semanas, Mojtaba ainda não aparece em público nem fala em vídeo. Iranianos o conhecem apenas por fotos antigas e por comunicados oficiais divulgados desde a morte de Ali Khamenei. O silêncio alimenta boatos em Teerã e dá espaço a dúvidas no Ocidente.
Dias antes da mensagem, o secretário de Estado americano, Mark Rubio, declara que Washington tem “indícios de que o aiatolá está vivo”, mas questiona se ele possui “as credenciais clericais para de fato atuar como líder supremo”. O comentário reforça a tentativa dos EUA de minar a legitimidade do sucessor perante a população iraniana e os aliados regionais.
Nuclear, mísseis e bloqueio: o tabuleiro no Golfo
Na mesma mensagem, Mojtaba afirma que o Irã entrou em um “novo capítulo da ordem regional e global” e promete “salvaguardar” as capacidades nucleares e de mísseis do país. Esses dois programas são o centro de qualquer negociação com Washington desde pelo menos 2015, quando o acordo nuclear original é assinado e depois abandonado por Trump.
A fala chega enquanto assessores de Trump discutem um bloqueio prolongado aos portos iranianos, segundo fontes ouvidas por governos da região. A Casa Branca vê a interrupção das exportações como principal alavanca para forçar Teerã a voltar à mesa de negociações e aceitar limites ao programa nuclear em troca de alívio de sanções e, agora, de um cessar-fogo.
Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, os EUA dizem ter destruído dezenas de navios iranianos, sistemas de defesa aérea, aviões e outras instalações militares. O Irã responde com ataques a alvos ligados a EUA e Israel em pelo menos oito países da região, entre eles Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Iraque e Omã.
Os números da guerra mostram o custo crescente. A Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, com sede nos EUA, estima mais de 1.900 civis mortos em território iraniano desde o início dos combates. O governo americano registra ao menos 13 soldados mortos em ataques atribuídos diretamente ao Irã. No Líbano, mais de 2.500 pessoas morrem após o Hezbollah, apoiado por Teerã, atacar Israel e provocar sucessivas ofensivas aéreas israelenses.
O Estreito de Ormuz, ponto mais sensível do Golfo, sente o impacto imediato. Autoridades regionais relatam queda drástica no tráfego marítimo, com seguradoras cobrando prêmios mais altos para navios que cruzam a área e algumas empresas desviando rotas para evitar a região. Qualquer bloqueio prolongado ali ameaça mais de um quinto do comércio mundial de petróleo.
Para Teerã, o discurso de Mojtaba serve também como aviso de que o Golfo continua sendo linha vermelha. Ao dizer que estrangeiros só têm lugar “nas profundezas de suas águas”, o líder faz eco a décadas de retórica iraniana contra a presença de frotas americanas e britânicas na região, agora com o peso de uma guerra em curso.
Pressão internacional, risco de escalada e o dia seguinte
O endurecimento de tom complica qualquer perspectiva de distensão no curto prazo. Ao blindar o programa nuclear e de mísseis, Mojtaba fecha a porta para concessões rápidas, justamente no ponto em que EUA e aliados concentram a pressão. Em Washington, a expectativa é de aumento de sanções financeiras e comerciais, além da consolidação de um bloqueio naval de longo prazo.
Governos do Golfo, que já vivem sob o fogo cruzado da guerra, veem o pronunciamento com ambivalência. De um lado, ouvem o apelo de “destino comum” feito por Mojtaba. De outro, continuam a ser alvo de mísseis e drones lançados pelo Irã contra bases e empresas associadas a EUA e Israel. Emirados, Arábia Saudita e Catar parecem os mais expostos, tanto militarmente quanto economicamente.
No mercado de energia, operadores trabalham com cenários de alta persistente nos preços do petróleo, caso o tráfego em Ormuz siga reduzido por semanas ou meses. Um bloqueio efetivo dos portos iranianos, somado ao risco de ataques a navios, tende a pressionar estoques globais e a alimentar inflação em economias dependentes de combustíveis fósseis, inclusive no Brasil.
Dentro do Irã, a ascensão de Mojtaba é lida por analistas como continuidade da repressão política, sem espaço para reformas. Com boa parte da antiga cúpula morta nos ataques de fevereiro, o novo líder se apoia em forças de segurança e em setores mais duros do clero para consolidar sua autoridade. Isso reduz a margem de manobra para negociar concessões significativas com o Ocidente.
Diplomatas na região descrevem um impasse perigoso: os EUA apostam na pressão máxima e em um bloqueio prolongado; o Irã responde com ataques assimétricos e com a blindagem de seu programa nuclear e de mísseis. Nem Washington nem Teerã querem parecer frágeis diante de suas bases internas.
O próximo movimento deve acontecer no Golfo. Se o bloqueio americano se intensificar e Teerã tentar forçá-lo com novas ações militares, o risco é de uma escalada direta entre forças navais, com impacto imediato sobre o fluxo de petróleo e sobre a segurança de milhões de pessoas na região. A dúvida, por enquanto, é quanto tempo a comunidade internacional consegue assistir a esse embate sem impor um caminho de negociação.
