Fifa aprova regra ‘Prestianni’ e cartão vermelho por xingamento velado
A Fifa aprova nesta terça-feira (28), no Canadá, a chamada regra “Prestianni”, que pune com cartão vermelho jogadores que encobrem a boca para disparar ofensas. A mesma decisão determina derrota por WO para equipes que abandonam o campo em protesto contra a arbitragem.
Nova fronteira no combate à discriminação em campo
O movimento nasce no 76º congresso da entidade, realizado no Canadá, e é aprovado por unanimidade pelos representantes das federações nacionais. A regra entra em vigor a partir da Copa do Mundo de 2026, marcada para junho, e segue recomendação da International Board (IFAB), órgão que supervisiona as leis do jogo. A mira está voltada para episódios de racismo, homofobia e outros ataques disfarçados atrás do gesto de cobrir a boca, cada vez mais comum em discussões acaloradas.
A partir da próxima Copa, qualquer jogador que esconder os lábios ao discutir com adversários ou árbitros poderá ser expulso imediatamente, caso fique configurada ofensa, sobretudo de caráter discriminatório. A medida vale também para quem tentar usar o gesto como escudo contra câmeras de TV e sistemas de leitura labial, hoje presentes em praticamente todas as grandes transmissões. A Fifa aposta que o risco do cartão vermelho, que altera de forma direta o rumo de uma partida, funcione como freio para agressões verbais que vinham escapando às punições tradicionais.
Do caso Vinicius Júnior x Prestianni à regra global
A regra leva o apelido de “Prestianni” em referência a um episódio que ganha repercussão mundial na Champions League. No jogo de ida dos playoffs eliminatórios, no Estádio da Luz, em Lisboa, o argentino Gianluca Prestianni, meia-atacante do Benfica, discute com Vinicius Júnior e leva a mão à camisa para cobrir a boca. O brasileiro acusa o rival de tê-lo chamado de “macaco”, enquanto as imagens mostram apenas o gesto de ocultar o que é dito.
Prestianni, de 20 anos, nega ter usado o termo racista e, em nota publicada em seu perfil no Instagram, afirma que “Vinicius Júnior infelizmente interpretou mal o que acredita ter ouvido”. O Comitê de Controle, Ética e Disciplina da Uefa analisa o caso por semanas e, ao final, impõe suspensão de seis partidas ao jogador. No boletim, a entidade registra punição por “conduta discriminatória”, associada a homofobia, ao entender que o argentino utilizou a expressão “maricón” em referência ao brasileiro.
O episódio alimenta um debate mais amplo sobre como punir o que não aparece com clareza nas imagens. Entre árbitros, dirigentes e especialistas em direito esportivo, cresce o consenso de que o gesto de cobrir a boca serve muitas vezes como instrumento de proteção para ataques dirigidos a raça, orientação sexual e origem. A nova regra tenta fechar essa brecha, transferindo ao jogador a responsabilidade por tudo o que diz, mesmo longe dos microfones.
O endurecimento disciplinar não se limita às ofensas verbais. O congresso também aprova a punição automática por WO, a derrota por 3 a 0, para equipes que abandonarem o campo em protesto contra decisões da arbitragem. A decisão surge à sombra de um caso recente da Copa Africana de Nações, em que a Confederação Africana de Futebol (CAF) declara Marrocos campeão após entender que o rival deixa o gramado e não retorna. O processo ainda corre na Corte Arbitral do Esporte (CAS), mas já influencia a discussão dentro da Fifa.
Cartão vermelho mais perto e menos espaço para protesto
Na prática, o futebol de alto nível passa a conviver com um risco disciplinar maior a cada discussão em campo. Técnicos e comissões terão de ajustar o discurso nos vestiários e no dia a dia dos treinos, reforçando a jogadores e jogadoras que xingamentos e provocações agora podem custar uma expulsão direta, mesmo sem empurrões ou agressões físicas. Clubes também tendem a revisar códigos internos e multas previstas para atos de indisciplina, já que um cartão vermelho por ofensa discriminatória pode significar eliminação em mata-matas e perda de premiações milionárias.
A recomendação da IFAB, que reúne representantes de Fifa e das federações britânicas, indica que as federações nacionais adotem a regra em seus campeonatos a partir da próxima temporada. Ligas europeias, a Conmebol e confederações de outros continentes devem adaptar regulamentos entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. A tendência é que os campeonatos mais expostos, como Champions League, Libertadores, Brasileirão e grandes ligas nacionais, incorporem os novos critérios já nas próximas edições, pressionados por patrocinadores e organizações de defesa de direitos humanos.
O dispositivo sobre abandono de campo mira outro tipo de gesto que ganha espaço nos últimos anos: a saída coletiva em protesto contra decisões da arbitragem. A partir de agora, quem deixar o gramado deliberadamente sem autorização corre o risco de ver o placar final fixado em 3 a 0 para o adversário, independentemente do que aconteça antes. Dirigentes que incentivarem esse tipo de atitude também podem ser alcançados por processos disciplinares, com suspensões e multas ainda a definir em cada federação.
Adaptação imediata e teste na Copa do Mundo de 2026
A Copa do Mundo de 2026, distribuída por Estados Unidos, Canadá e México, se torna o primeiro grande laboratório da regra “Prestianni”. A Fifa prepara cursos específicos para árbitros, assistentes de vídeo e delegados de partida, que precisarão avaliar, em segundos, o conteúdo de discussões e o contexto em que o gesto de cobrir a boca aparece. As equipes chegam ao torneio com material didático atualizado e palestras obrigatórias, em um esforço para reduzir o número de expulsões logo na estreia da norma.
O desafio principal está em equilibrar rigor e bom senso. Associações de jogadores já sinalizam que apoiam o combate à discriminação, mas pedem critérios claros para evitar expulsões baseadas em suposições. A pressão recai também sobre as plataformas de transmissão, que terão papel central na identificação de lances duvidosos e no fornecimento de imagens em alta definição ao árbitro de vídeo. Se o novo pacote disciplinar conseguir reduzir insultos racistas e homofóbicos, o futebol dá um passo decisivo rumo a um ambiente mais igualitário. Se falhar, a regra “Prestianni” pode voltar à pauta do próprio congresso da Fifa mais cedo do que os dirigentes imaginam.
