Brasileiro é suspeito de feminicídio brutal contra ex-namorada no Paraguai
A estudante catarinense Julia Vitoria Sobierai Cardoso, 21, é encontrada morta com 67 ferimentos no apartamento onde mora em Assunção. A polícia paraguaia aponta o ex-namorado brasileiro, Vitor Rangel Aguiar, 27, como principal suspeito e emite ordem de captura internacional nesta sexta-feira, 24 de abril de 2026.
Crime brutal em bairro de classe média de Assunção
O corpo de Julia é descoberto por uma colega de apartamento, horas depois do ataque, em um prédio residencial na Avenida Capitán del Puerto, no bairro Obrero, região central da capital paraguaia. As duas dividem o imóvel enquanto cursam Medicina em uma universidade local, parte de um fluxo crescente de jovens brasileiros que buscam formação no país vizinho.
Peritos contam 67 golpes de arma branca no corpo da estudante. Segundo o promotor responsável pelo caso, Osvaldo Zaracho, 60 deles são provocados por uma tesoura de cutícula e sete por uma faca de cozinha. Dois cortes atingem o pescoço. As duas armas ficam no local do crime, o que reforça para os investigadores a hipótese de um ataque prolongado, marcado por extrema violência.
As investigações indicam que o agressor entra no apartamento de Julia na sexta-feira, 24, e a ataca dentro do imóvel. Vizinhos relatam movimento incomum, mas não ouvem gritos que indiquem pedido de socorro. Quando a colega retorna, encontra Julia sem vida e aciona a polícia. A morte é tratada desde o início como feminicídio, categoria que, na legislação paraguaia, abrange homicídios de mulheres motivados por gênero ou por relações de poder em vínculos afetivos.
O principal suspeito, Vitor Rangel Aguiar, 27, é natural do Maranhão e também cursa Medicina no Paraguai. Ele vive em Assunção com dois irmãos, em um outro endereço. Os dois mantêm um relacionamento por cerca de cinco meses, já encerrado quando o crime ocorre. Testemunhas ouvidas pela Promotoria relatam que Vitor tenta retomar o namoro e insiste em se aproximar de Julia nas semanas anteriores à morte.
Caçada internacional e cooperação entre Brasil e Paraguai
Logo após a confirmação da identidade da vítima, o Ministério Público do Paraguai pede à Justiça uma ordem de captura internacional contra Vitor. O nome do brasileiro passa a integrar um protocolo de prisão nacional por feminicídio e é incluído em bases de dados usadas para cooperação policial com países vizinhos. As autoridades paraguaias o consideram foragido.
O promotor Osvaldo Zaracho afirma que a principal linha de investigação aponta para a fuga do suspeito rumo ao Brasil, pouco depois do crime. “Já estamos em coordenação com nossos colegas do Brasil a fim de localizar o suposto autor do fato”, diz ele ao g1 de Santa Catarina. A Promotoria não detalha por qual fronteira Vitor teria passado, nem se há registro formal de saída em controles migratórios.
Investigadores paraguaios vão até o apartamento onde o estudante vive com a família em Assunção. São recebidos por um dos irmãos de Vitor, que entrega o celular à equipe da polícia. O aparelho é apreendido e passa por perícia, em busca de mensagens, ligações e deslocamentos que possam comprovar a presença do suspeito na cena do crime ou traçar sua rota de fuga. Documentos e outros pertences também são analisados.
As autoridades brasileiras são comunicadas formalmente por canais diplomáticos e policiais. O caso mobiliza unidades especializadas em combate à violência contra a mulher e delegacias de fronteira. Fontes envolvidas na cooperação descrevem a prioridade do caso, tanto pela brutalidade do crime quanto pelo fato de envolver uma vítima jovem, brasileira, em território estrangeiro. Até a publicação desta reportagem, a defesa de Vitor não se manifesta e não há registro de entrega espontânea às autoridades.
Enquanto a investigação avança em Assunção, a família de Julia se concentra em Navegantes, no Litoral Norte de Santa Catarina, onde o corpo é velado na segunda-feira, 27. Amigos e parentes se despedem da estudante, que deixa o Brasil para cursar Medicina no Paraguai com o projeto de retornar ao país como médica. O velório reúne colegas de escola, professores e outros jovens que também planejam estudar fora.
Violência de gênero, rotina de estudantes e alerta para políticas de proteção
A morte de Julia repercute em grupos de estudantes brasileiros no Paraguai e em redes sociais no Brasil. Colegas relatam medo e insegurança, principalmente entre jovens mulheres que vivem em repúblicas ou dividem apartamentos em áreas centrais de Assunção e de cidades próximas à fronteira. A notícia circula em grupos de mensagens que reúnem centenas de universitários, muitos deles em situação semelhante à da vítima: longe da família, em outro país, com pouca rede de proteção.
Organizações que acompanham casos de violência contra a mulher lembram que feminicídios costumam ocorrer em contextos de relacionamento afetivo, mesmo após o fim da relação. No caso de Julia, a investigação parte da hipótese de que a tentativa de reaproximação por parte do ex-namorado desencadeia uma sequência de conflitos que culmina no ataque. A Promotoria não divulga ainda o teor dos depoimentos, mas confirma que a ex-colega de quarto da vítima identifica Vitor como ex-parceiro e aponta o histórico de insistência.
O episódio reacende debates sobre a responsabilidade de universidades, repúblicas estudantis e governos na criação de mecanismos de denúncia rápida e proteção para estudantes estrangeiros. A ausência da família, a dependência de poucos vínculos locais e a dificuldade de acesso a redes de apoio em outro idioma tornam esse grupo mais vulnerável a abusos e agressões. Tanto no Brasil quanto no Paraguai, especialistas defendem canais binacionais de denúncia e acompanhamento de casos de violência de gênero envolvendo estudantes.
No Paraguai, o feminicídio passa a ser tipificado com mais rigor na última década, em meio à pressão de movimentos de mulheres e organismos internacionais. No Brasil, a lei que inclui o feminicídio no Código Penal é de 2015. Mesmo com avanços legais, tanto aqui quanto lá, estatísticas mostram que a maior parte das vítimas conhece o agressor, e que a separação é um momento de risco elevado, cenário que ecoa no caso de Julia.
A repercussão do crime ultrapassa a comunidade acadêmica. Parlamentares e entidades de defesa dos direitos das mulheres cobram respostas rápidas e transparência na investigação, sob o argumento de que a impunidade, em casos assim, reforça a sensação de desproteção. Nos bastidores, autoridades brasileiras avaliam protocolos para agilizar a localização de foragidos em crimes de violência de gênero envolvendo cidadãos brasileiros fora do país.
Pressão por respostas e próximos passos da investigação
O Ministério Público do Paraguai concentra esforços na coleta de provas materiais e digitais que confirmem a autoria do crime. Laudos periciais sobre os 67 golpes de arma branca e sobre o local do ataque devem embasar eventual denúncia formal por feminicídio qualificado. A cooperação com a polícia brasileira busca localizar Vitor, que só pode responder ao processo em liberdade ou em prisão preventiva após ser encontrado.
O caso se torna um teste para a agilidade dos mecanismos de cooperação entre Brasil e Paraguai em crimes que envolvem violência contra a mulher. A emissão da ordem de captura internacional abre caminho para pedido de prisão e posterior extradição, se confirmada a presença do suspeito em território brasileiro. A tramitação pode levar meses, dependendo de recursos e da estratégia da defesa, ainda ausente do debate público.
Familiares de Julia e grupos de estudantes acompanham cada novo desdobramento à distância, entre o luto e a cobrança por responsabilização. O velório em Navegantes transforma a dor em ato público contra a violência de gênero, com faixas, flores e homenagens à jovem que deixa o Brasil para realizar o sonho de estudar Medicina. Amigos resumem o sentimento em um pedido recorrente: que o caso não se torne apenas mais um número nas estatísticas.
O futuro do processo depende agora da localização do suspeito e da robustez das provas reunidas em Assunção. A pergunta que ecoa, do Paraguai a Santa Catarina, é se a resposta do Estado estará à altura da violência sofrida por Julia e do medo que hoje assombra outras jovens que seguem estudando longe de casa.
