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Zema usa vídeo com IA para atacar Moraes e contrato de R$ 129 mi

O ex-governador de Minas e pré-candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) divulga neste domingo, 26 de abril de 2026, um vídeo musical feito com inteligência artificial para atacar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na peça, um avatar do político associa o magistrado a um contrato de até R$ 129 milhões entre o antigo Banco Master e o escritório de advocacia da esposa de Moraes.

Zema leva disputa com STF para a arena digital

No novo vídeo, um boneco estilizado como Zema, de camisa com a frase “Sô mineirin sim, uai”, canta críticas ao ministro enquanto uma banda também criada por IA acompanha a melodia. O personagem afirma que Moraes está “careca de saber que a casa dele já caiu” e cobra explicações sobre o contrato que envolve o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, do qual Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, é sócia ao lado de dois filhos do casal.

O roteiro mistura humor e insinuações pesadas. Em um dos trechos, o avatar reclama de uma tentativa de incluí-lo no chamado “inquérito do fim do mundo”, como a direita radical costuma se referir ao inquérito das fake news. “Tão querendo me colocar no ‘inquérito do fim do mundo’, mas estão se esquecendo de olhar o seu passado que é imundo”, canta o boneco. Em seguida, emenda: “Tem um ministro careca de saber que a casa dele já caiu, mas o que ele tem que fazer é explicar R$ 129 milhões para o Brasil”.

O contrato citado se torna público em março, quando o escritório divulga nota para explicar o acordo. Segundo o comunicado, o vínculo com o antigo Banco Master vigora de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, com pagamento mensal de R$ 3,5 milhões. O valor total poderia chegar a R$ 129 milhões ao longo de três anos. O contrato é encerrado após a liquidação extrajudicial da instituição financeira pelo Banco Central.

O vídeo surge em meio à escalada do confronto de Zema com a Corte. O pré-candidato mira diretamente Moraes, relator de inquéritos que atingem a extrema direita, e tenta colar no ministro a imagem de privilégio e falta de transparência. A estratégia aposta na combinação de linguagem de rede social, estética de entretenimento e ataques personalizados para ampliar o alcance da mensagem.

Ofensiva contra ministros e defesa de um “novo STF”

A peça não se limita a Moraes. Zema resgata também vídeo anterior, que já o coloca na mira do Supremo, em que fantoches caricaturam os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Nessa produção, o personagem inspirado em Toffoli pede a suspensão da quebra de seus sigilos, determinada pela CPI do Crime Organizado em São Paulo, e é atendido pelo boneco associado a Gilmar. Em troca, surge um pedido de “cortesia” em um resort, referência ao Tayayá, antigo empreendimento de Toffoli comprado por um fundo ligado ao empresário Daniel Vorcaro.

Gilmar reage à primeira investida e encaminha notícia-crime pedindo a inclusão de Zema no inquérito das fake news, alegando que o material “vilipendia não apenas a honra e a imagem deste Supremo Tribunal Federal, como também da minha própria pessoa”. O novo vídeo responde a essa iniciativa e tenta deslocar o foco do pré-candidato para os negócios privados associados a familiares de ministros. “A coisa tende a piorar, os intocáveis estão assustados. É jatinho, Vorcaro e Tayayá na conta dos graúdos”, canta o avatar de Zema na nova peça.

O embate digital se encaixa no discurso de campanha que Zema apresenta neste mês, ao lançar seu programa de governo. Um dos pilares é a criação de um “novo STF”, com mudanças rígidas nas regras de acesso à Corte. Segundo ele, a primeira medida, se chegar ao Planalto, será propor um Supremo em que “seus membros prestem conta de seus atos” e que coloque fim à “farra dos intocáveis”.

O pré-candidato defende critérios mais duros para a escolha de ministros. Fala em idade mínima de 60 anos, exigência de ao menos 15 anos de experiência e restrição a negócios jurídicos de parentes. O objetivo declarado é transformar a cadeira no Supremo em “coroação de carreira irretocável”, expressão que repete em entrevistas e eventos fechados com apoiadores.

A aposta em vídeos com inteligência artificial reforça essa narrativa. A tecnologia permite produzir conteúdos com baixo custo, aparência profissional e alto potencial de viralização. A figura do boneco mineiro, que fala em tom bem-humorado e usa expressões regionais, funciona como uma espécie de escudo: suaviza a forma das acusações, sem diluir o conteúdo explosivo.

Impacto político, reação do Judiciário e disputa de narrativa

O uso de IA por um pré-candidato presidencial para atacar diretamente ministros do STF eleva o patamar da tensão entre a política e o Judiciário. A ofensiva de Zema coincide com um cenário em que a Corte tenta conter a desinformação em período pré-eleitoral e discute regras para o uso de ferramentas digitais avançadas em campanhas. O novo vídeo, que circula em X, Instagram e WhatsApp, testa na prática as fronteiras entre liberdade de expressão, sátira política e ataque à reputação de autoridades.

O caso também reacende o debate sobre contratos de escritórios de advocacia ligados a familiares de agentes públicos. O Barci de Moraes Sociedade de Advogados insiste que o acordo com o antigo Banco Master é regular, foi firmado dentro da lei e teve duração claramente delimitada, de fevereiro de 2024 a novembro de 2025. A liquidação extrajudicial da instituição, determinada pelo Banco Central, encerra o vínculo antes de o teto potencial de R$ 129 milhões ser alcançado.

Especialistas em direito eleitoral e em regulação de plataformas veem no episódio um laboratório das campanhas de 2026. A combinação de avatares, música e humor facilita o compartilhamento em massa e pode influenciar eleitores que não acompanham o noticiário tradicional. Ao mesmo tempo, o uso de inteligência artificial para dar voz a acusações sem contextualização completa acende alertas sobre a criação de narrativas simplificadas em torno de temas complexos, como contratos privados e processos disciplinares.

Dentro do STF, a tendência é de reação institucional. A notícia-crime já apresentada por Gilmar Mendes contra Zema abre caminho para que Alexandre de Moraes, relator do inquérito das fake news, avalie se as novas peças com IA configuram reiteradas tentativas de descredibilizar a Corte. Uma resposta mais dura, com ampliação de investigações ou imposição de medidas cautelares, pode alimentar o discurso do pré-candidato de que existe uma “perseguição” da Justiça a adversários políticos.

Próximos passos e riscos para a campanha de 2026

O vídeo deste domingo consolida a estratégia de Romeu Zema de transformar o STF em um dos principais alvos de sua pré-campanha. A narrativa de combate aos “intocáveis” se soma a críticas mais brandas ao governo Lula e mira um eleitorado que cobra endurecimento contra o que vê como privilégios do sistema de Justiça. A aposta é que a defesa de um “novo STF” funcione como bandeira estruturante de sua candidatura, em sintonia com o sentimento antipolítica que ainda resiste em parte do eleitorado.

A escalada, porém, carrega riscos. Uma eventual decisão de Moraes para incluí-lo formalmente no inquérito das fake news, a partir da notícia-crime de Gilmar e dos novos vídeos, pode transformar o pré-candidato em alvo direto da Justiça em plena pré-campanha. Isso tende a polarizar ainda mais o ambiente, multiplicar reações nas redes e pressionar outros presidenciáveis a se posicionar sobre o papel do Supremo e os limites da crítica a ministros.

O uso de inteligência artificial como arma política também deve entrar no radar do Tribunal Superior Eleitoral nas próximas semanas, com possíveis ajustes nas resoluções sobre conteúdo sintético em campanhas oficiais. Até lá, os vídeos de Zema seguem em circulação, alimentando um embate que já não se restringe aos gabinetes de Brasília e que coloca à prova, mais uma vez, a capacidade das instituições de lidar com novas tecnologias sem sufocar o debate público.

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