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Governo libera R$ 10 bi para modernizar máquinas do campo

O vice-presidente Geraldo Alckmin lança neste domingo (26), na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), uma linha de crédito de R$ 10 bilhões para financiar máquinas e tecnologias agrícolas. A nova modalidade do programa MOVE Brasil mira a modernização do campo, com foco em inovação, eficiência e sustentabilidade.

Crédito turbinado em meio a safra recorde

O anúncio ocorre em um momento de expansão acelerada do agronegócio brasileiro. Em 2025, o setor exporta US$ 169,2 bilhões e responde por quase metade das vendas externas do país. A safra de grãos atinge 346,1 milhões de toneladas, um recorde histórico, segundo a Conab, com projeções de nova alta para o ciclo 2025/2026.

O governo tenta ancorar esse avanço em uma base tecnológica mais sólida. A linha de crédito usa recursos do superávit do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e é gerida pela Finep, agência de fomento ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A ideia é levar ao campo máquinas mais modernas, sistemas digitais e equipamentos que reduzam custos, desperdícios e impacto ambiental.

Os financiamentos devem estar disponíveis entre 20 e 30 dias. Produtores poderão acessar o crédito diretamente na Finep ou por meio de bancos e instituições financeiras credenciadas. O governo aposta em juros abaixo das taxas de mercado para repetir o desempenho da linha voltada à renovação da frota de caminhões, lançada no início de 2026, que esgota R$ 10 bilhões em pouco mais de dois meses.

Pela primeira vez, cooperativas agrícolas podem tomar esses recursos de forma direta, sem depender exclusivamente de intermediação bancária. A mudança amplia o alcance do programa e fortalece estruturas coletivas que concentram pequenos e médios produtores. Na prática, uma única operação de crédito pode destravar a compra de tratores, colheitadeiras e sistemas de agricultura digital para centenas de associados.

Do trator à agricultura digital

Os recursos da nova modalidade do MOVE Brasil cobrem desde máquinas tradicionais até tecnologias de ponta. Entram na lista tratores, colheitadeiras, pulverizadores, adubadeiras e sementadeiras, mas também sensores, softwares de gestão e equipamentos de agricultura de precisão, que permitem mapear o solo, ajustar a dose de insumos e monitorar a lavoura em tempo real.

Ao atrelar o crédito ao FNDCT, o governo busca estimular projetos de pesquisa e desenvolvimento em toda a cadeia agroindustrial. A expectativa em Brasília é que o dinheiro irrigue não só o produtor rural, mas também a indústria de máquinas, empresas de tecnologia e centros de pesquisa. “A ideia é usar o crédito como alavanca para inovação, produtividade e sustentabilidade”, afirma um integrante da área econômica ouvido pela reportagem.

Essa lógica já aparece na experiência recente do MOVE Brasil com caminhões. A linha criada para renovar a frota, no começo de 2026, é aprovada rapidamente, com empresas e autônomos trocando veículos antigos por modelos mais eficientes e menos poluentes. O governo vê nesse resultado um sinal de demanda reprimida por crédito de longo prazo com condições mais favoráveis.

No campo, o potencial de impacto é ainda maior. O parque de máquinas agrícolas brasileiro envelhece nos últimos anos, pressionando custos de manutenção e consumo de combustível. A falta de acesso a crédito de investimento, sobretudo para médios e pequenos produtores, trava a adoção de equipamentos mais modernos, capazes de operar com menor desperdício de água, fertilizantes e defensivos.

Especialistas ouvidos pelo governo defendem que a modernização tecnológica é condição para o Brasil manter espaço em mercados mais exigentes, especialmente na Europa e na Ásia. Países compradores passam a cobrar comprovação de práticas sustentáveis, rastreabilidade da produção e redução de emissões, metas difíceis de cumprir com máquinas antigas e baixa automação.

Concorrência, meio ambiente e próximos passos

A nova linha de crédito se soma ao Plano Safra 2025/2026, que oferece volumes recordes de financiamento para custeio e investimento no campo. A combinação de recursos do Plano Safra com o MOVE Brasil cria, na avaliação do governo, um pacote de estímulo capaz de aumentar a capacidade produtiva e acelerar a adoção de tecnologia nas propriedades.

A indústria de máquinas agrícolas é uma das principais beneficiadas. Com a perspectiva de R$ 10 bilhões em novas compras, fabricantes de tratores, colheitadeiras e equipamentos de agricultura digital preparam estratégias para ampliar vendas e, em alguns casos, destravar projetos de expansão de fábricas e de desenvolvimento de novos modelos. A cadeia de fornecedores de peças e componentes também tende a ser puxada nessa esteira.

No médio prazo, o efeito esperado é um salto de produtividade e eficiência. Máquinas mais modernas reduzem o tempo de operação no campo, cortam gastos com combustível e manutenção e permitem um uso mais racional de insumos. Ganhos ambientais, como menor emissão de gases de efeito estufa e melhor manejo do solo, ajudam o país a sustentar o discurso de liderança em agricultura sustentável.

Ainda não há detalhamento público das taxas de juros e prazos máximos de financiamento, pontos que serão decisivos para definir o alcance real da medida. Entidades do setor já se movimentam para tentar garantir condições mais favoráveis para cooperativas e pequenos produtores, historicamente os mais vulneráveis a ciclos de crédito escasso e juros altos.

No terreno político, o lançamento em plena Agrishow tem peso simbólico. A feira, uma das maiores do mundo em tecnologia agrícola, reúne produtores, executivos e representantes de governos estaduais e estrangeiros em Ribeirão Preto. Ao anunciar o pacote diante desse público, o Planalto envia o recado de que pretende disputar a narrativa sobre o futuro do agronegócio, associando competitividade à inovação e à transição para práticas mais sustentáveis.

Os próximos meses vão mostrar se o apetite por crédito no campo repete a corrida vista na troca de caminhões. Se a demanda superar a oferta, como projeta parte do setor, a pressão será por novos aportes no MOVE Brasil e por uma política permanente de financiamento tecnológico para o agronegócio. A dúvida é se o espaço fiscal e político permitirá transformar essa linha de R$ 10 bilhões em um programa duradouro de modernização do campo.

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