Na Faria Lima, CEOs disputam quem dorme melhor para render mais
Na Faria Lima, alguns dos nomes mais influentes do mercado passam a disputar quem tem o melhor sono. Nas últimas semanas, reuniões e encontros informais entre CEOs da área econômica e empresarial giram em torno de aplicativos de monitoramento, horas de descanso e rotina noturna. O objetivo declarado é simples e pragmático: dormir melhor para trabalhar mais focado, por mais tempo e com menos desgaste.
Quando a métrica do dia começa na noite anterior
No corredor mais simbólico do capitalismo brasileiro, a conversa que antes se mede em pontos do Ibovespa, porcentuais da Selic ou metas de EBITDA agora inclui ciclos de sono REM, número de despertares e notas dadas por aplicativos como se fossem relatórios trimestrais. Em encontros de networking nas últimas quatro semanas, o tema se repete com insistência. Entre um cafezinho e outro, executivos que administram bilhões em ativos comparam quem dorme 7,5 horas, quem alcança 85% de “sono eficiente” e quem consegue manter a mesma rotina por 30 dias seguidos.
Nos bastidores, o que muda é o foco. A disputa por melhor tempo no último triatlo, que dominava as conversas pré-abertura de mercado até 2023, perde espaço para relatos de noites inteiras sem olhar o celular depois das 22h. A maratona de 42 quilômetros cede lugar à meta de 8 horas de travesseiro. “Hoje, dizer que viramos a noite trabalhando já não soa como medalha de honra, soa como erro de gestão de energia”, relata um gestor de fundos que atua na região há mais de dez anos.
O interesse não surge do nada. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que adultos precisam de 7 a 9 horas de sono por noite para manter desempenho cognitivo adequado. Pesquisas citadas por consultorias de recursos humanos indicam que privação crônica de sono pode reduzir a produtividade em até 20% e elevar em 30% o risco de erros graves em decisões sob pressão. Em um ambiente em que uma má escolha pode custar milhões em minutos, a nova equação é direta: mais descanso, menos erro.
Da planilha ao travesseiro: o sono como diferencial competitivo
O movimento ganha força sobretudo após a pandemia, que escancarou o custo da exaustão. Em 2020 e 2021, uma série de fusões, reestruturações e operações de captação na Faria Lima consolidou o modelo do executivo sempre conectado, disponível 24 horas, sete dias por semana. Em 2024 e 2025, os relatos de burnout, afastamentos médicos e crises de ansiedade começaram a aparecer com mais frequência nas conversas privadas. Em 2026, essa conta chega em forma de mudança de comportamento.
Em encontros recentes, organizados em restaurantes da região e em eventos fechados de casas de análise, a pauta se desloca com naturalidade do cenário macroeconômico para o ritual de dormir. Alguns líderes exibem números na tela do relógio inteligente como quem apresenta performance de carteira. Outros narram cronogramas quase militares: janta leve até 20h, telas desligadas às 21h30, meditação guiada de 10 minutos, quarto escuro e silencioso. “Hoje, minha principal vantagem competitiva é acordar às 5h30 descansado, em vez de acordar às 7h destruído”, diz um CEO do setor de serviços financeiros.
Consultorias especializadas em bem-estar corporativo começam a monetizar essa virada. Pacotes de acompanhamento do sono, que em 2022 eram serviço de nicho, passam a constar de propostas enviadas a empresas da região com valores que variam de R$ 50 mil a R$ 200 mil ao ano, dependendo do tamanho da equipe executiva. Em paralelo, apps de monitoramento relatam crescimento de dois dígitos no número de usuários com faixa de renda acima de R$ 20 mil mensais, grupo que coincide com parte relevante da elite financeira da Faria Lima.
O discurso do alto escalão também muda. Se há uma década o orgulho estava em contar jornadas de 14 ou 16 horas de trabalho, hoje o elogio sob medida é outro. “Dormir menos de seis horas virou mau exemplo, não mais prova de comprometimento”, afirma um consultor que assessora conselhos de administração e ouviu de um presidente de companhia listada que o único dado que ele agora checa antes de entrar em reunião de conselho é o relatório de sono da noite anterior.
Essa nova mentalidade começa a influenciar políticas internas. Departamentos de recursos humanos avaliam flexibilizar agendas matinais para reuniões estratégicas, deslocando encontros de 8h para 9h30, para não punir quem tenta cumprir as tais 7 a 8 horas de descanso. Empresas do entorno estudam investir em salas de pausa, programas de acompanhamento psicológico e campanhas de comunicação que desestimulem o envio de mensagens fora do horário comercial. Em algumas casas, a orientação já é explícita: e-mails depois das 22h devem ser exceção, não regra.
O que muda na cultura corporativa e o que ainda está em disputa
A disputa pelo melhor sono não é apenas vaidade mascarada de autocuidado. Na prática, interfere em decisões que vão de alocação de bônus a desenho de metas anuais. Um executivo que dorme sistematicamente menos de seis horas, apresentam estudos internos citados por gestores, tem probabilidade maior de se envolver em conflitos, cometer falhas de julgamento ou atrasar entregas. Nos relatórios, isso se traduz em riscos operacionais, perdas de oportunidade e impacto financeiro real.
Empresas que saem na frente podem capturar ganhos de produtividade e redução de custos médicos nos próximos três a cinco anos. Números de seguradoras consultadas por especialistas indicam que quadros de ansiedade, depressão e distúrbios do sono respondem por cerca de 30% dos afastamentos prolongados de profissionais de alta renda em grandes centros urbanos. Se parte desses casos é mitigada pela mudança de hábitos, o benefício é duplo: mais horas de trabalho de qualidade e menos despesas com planos de saúde.
Nem todos aderem com entusiasmo. Há quem veja na nova onda um risco de transformar o descanso em mais uma métrica de cobrança. “Se o KPI vira quem tem o melhor gráfico de sono, perdemos o sentido do bem-estar e criamos outra pressão”, comenta uma executiva de tecnologia que circula pela região, mas mantém distância da “competição”. A crítica encontra eco em especialistas em saúde mental, que alertam para o perigo de transformar uma necessidade básica em ranking corporativo.
Apesar das resistências, o movimento avança. Eventos corporativos agendados para o segundo semestre de 2026 na região já reservam painéis inteiros para temas como higiene do sono, descanso ativo e uso responsável de tecnologia fora do expediente. Organizadores relatam que, entre as palestras mais procuradas, estão justamente aquelas que abordam estratégias para reduzir o uso de telas após as 21h e técnicas para “desligar” a cabeça em até 30 minutos após sair do escritório.
Da moda à política de longo prazo?
Para além do modismo, o teste real dessa nova cultura acontece nos próximos ciclos de estresse do mercado. Em períodos de forte volatilidade, oferta pública bilionária ou negociações de fusões complexas, a tentação de voltar à maratona de madrugadas em claro permanece. É nesse momento que se verá se a conversa sobre sono vira política ou volta a ser apenas assunto de bastidor.
Nos próximos meses, empresas da Faria Lima têm a oportunidade de transformar a competição informal em compromisso formal. Isso pode significar metas claras de redução de horas extras, barreiras objetivas ao excesso de reuniões e incentivo a lideranças que consigam entregar resultados sem sacrificar noites de sono. Se o sono de qualidade, descrito por muitos executivos como “sonho de consumo” no mundo contemporâneo, de fato se converte em prática consolidada, a principal revolução não estará nos gráficos de aplicativos, mas na forma como o poder econômico brasileiro escolhe administrar o próprio tempo.
