Embate com Gilmar turbina Zema, que ganha 494 mil seguidores
O embate público entre Romeu Zema e o ministro Gilmar Mendes transforma a pré-campanha de 2026. Em menos de uma semana, o ex-governador ganha 494 mil seguidores e lidera o engajamento nas redes.
Vídeo satírico acende confronto com o STF
O ponto de partida é um vídeo humorístico publicado por Zema na semana do dia 25 de abril de 2026. Batizado de “Os intocáveis”, o esquete usa dois fantoches para representar os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes e simula uma conversa telefônica sobre supostas trocas de favores em decisões judiciais.
No diálogo, o boneco associado a Toffoli pede que o colega anule quebras de sigilo aprovadas pela CPI do Crime Organizado no Senado. O personagem que remete a Gilmar aceita, em troca de uma cortesia no resort Tayayá, empreendimento do qual Toffoli teve participação acionária. O ministro nunca admitiu qualquer irregularidade, e o vídeo reforça insinuações já exploradas em redes bolsonaristas.
Gilmar reage de imediato. Pede ao ministro Alexandre de Moraes a inclusão da peça no inquérito das fake news e requer a abertura de investigação contra Zema. Afirma que o conteúdo “atinge a honra e a imagem do STF e de seus integrantes ao simular diálogos inexistentes sobre supostas trocas de favores”, segundo despacho tornado público.
A ofensiva do decano do Supremo, no entanto, dá a Zema o combustível político que faltava. A consultoria Bites, especializada em análise de dados digitais, registra que o pré-candidato do Novo salta 494 mil seguidores em poucos dias e passa a dominar a conversa política nas principais plataformas.
Zema dispara no engajamento e redes viram palco da disputa
Os números mostram a dimensão do salto. Entre Facebook, Instagram e X, Zema soma 7,7 milhões de interações na semana do confronto, de acordo com a Bites. São curtidas, comentários, compartilhamentos e respostas a pelo menos 14 novos vídeos em que o ex-governador ataca o que chama de “farra dos intocáveis” no Judiciário.
No mesmo intervalo, outros presidenciáveis crescem bem menos. Renan dos Santos, do partido Missão, forte entre eleitores jovens, adiciona 129 mil seguidores. O senador Flávio Bolsonaro, do PL, conquista 114 mil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganha 39 mil novos seguidores. Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e nome do PSD, fecha a lista com 1.900.
Em engajamento, Zema também assume a dianteira. Lula registra 3,9 milhões de interações, Flávio Bolsonaro chega a 3,7 milhões, Renan dos Santos a 1,3 milhão, enquanto Caiado fica em 104 mil. A diferença, para analistas, traduz o potencial eleitoral do choque frontal com o Supremo em um ambiente digital já polarizado.
“A resposta do ministro Gilmar Mendes ao STF acabou conferindo a Zema a legitimidade que seus críticos buscavam nesse conflito institucional”, escreve a Bites em sua análise. Na avaliação da consultoria, o ex-governador converte um impasse jurídico em ativo político e tração digital, em um movimento raro pela velocidade e pela escala.
O efeito prático aparece também dentro do partido Novo. Zema, que circulava como possível vice na chapa de Flávio Bolsonaro, passa a ser tratado como cabeça de chapa. Pressões internas para que abrisse mão de uma candidatura própria diminuem à medida que os dados digitais chegam à cúpula partidária.
Liberdade de expressão, STF sob ataque e disputa de narrativas
O episódio reacende o debate sobre o alcance da liberdade de expressão em ano eleitoral e o papel do STF na regulação do discurso político. Zema sustenta que faz “crítica legítima” à atuação da Corte e insiste em enquadrar o inquérito das fake news como instrumento de censura. O entorno do ex-governador vê no embate uma oportunidade de consolidar seu nome entre eleitores antipetistas e antibolsonaristas que desconfiam do Supremo.
Gilmar, por sua vez, se lança em uma rodada de entrevistas para defender a linha dura da Corte. Afirma que o Supremo é alvo de “ataques orquestrados” e fala em “indústria de difamação” contra ministros, alimentada por páginas anônimas, influencers e políticos em pré-campanha. O ministro diz que não vai recuar de medidas que considera necessárias para proteger a integridade da instituição.
Em uma dessas entrevistas, porém, o decano cruza outra fronteira. Ao tentar explicar o que considera um ataque à honra, afirma que, se alguém produzisse um boneco de Zema como homossexual, isso também seria ofensivo. A fala, recebida como homofóbica por entidades e políticos de diferentes campos, provoca reação imediata. Diante da repercussão negativa, Gilmar pede desculpas públicas e classifica a formulação como “infeliz”.
O conflito ultrapassa o terreno simbólico quando o líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto Silva, do PL da Paraíba, protocola um pedido de impeachment contra o ministro. O parlamentar acusa Gilmar de abuso de autoridade ao pedir a inclusão de Zema no inquérito das fake news. A chance de avanço do processo é pequena, mas o gesto ajuda a manter o caso em evidência e reforça a narrativa de perseguição adotada pelo ex-governador.
Pré-campanha em ebulição e incertezas até a eleição
O ganho expressivo de seguidores em tão pouco tempo não garante votos, mas altera o tabuleiro da pré-campanha presidencial. Zema entra de vez no bloco dos nomes competitivos à direita, com presença digital comparável à de Lula e de figuras do bolsonarismo. A explosão de interações o credencia como uma das principais vozes do campo crítico ao STF em 2026.
Analistas ouvidos reservadamente por partidos e consultorias veem risco de um efeito cascata. A leitura é de que, diante do prêmio em visibilidade, outros pré-candidatos podem intensificar ataques ao Supremo como atalho para crescer nas redes. A tendência reforça a tensão entre Poderes e empurra o STF para o centro da campanha, em vez de mantê-lo na função de árbitro distante.
No curto prazo, a expectativa recai sobre os próximos movimentos do ministro Alexandre de Moraes no inquérito das fake news e sobre a reação interna no STF ao pedido de impeachment de Gilmar. No campo político, dirigentes do Novo medem se o pico de engajamento de Zema se sustenta nas próximas semanas ou se se trata de um fenômeno passageiro.
À medida que a eleição se aproxima, a disputa entre Zema e Gilmar tende a servir de teste para os limites entre crítica política e desinformação, além de medir a disposição do Supremo em suportar o desgaste público. A dúvida, por enquanto, é se o conflito inaugurado por um vídeo de fantoches se esgota como episódio de pré-campanha ou se inaugura um padrão duradouro de enfrentamento entre candidatos e a mais alta Corte do país.
