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Messias adota estratégia conciliadora para assegurar vaga no STF

Às vésperas da sabatina no Senado, marcada para 29 de abril de 2026, o advogado-geral da União Augusto Aras Messias intensifica a articulação política para assegurar votos para o Supremo Tribunal Federal. Ele aposta em reuniões reservadas, diálogo com opositores e um discurso de pacificação entre os Poderes para reduzir riscos na votação.

Ofensiva discreta no Senado

A agenda de Messias, escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a cadeira aberta no Supremo, gira em torno de gabinetes, telefonemas e encontros discretos em Brasília. A avaliação entre aliados é de que ele já ultrapassa o mínimo de 41 votos necessários para aprovação, mas o indicado insiste em ampliar a margem de segurança e evita qualquer clima de já ganhou.

O movimento se intensifica na semana que antecede a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça. Messias procura senadores da base, do centrão e também da oposição, num esforço para reduzir surpresas tanto na CCJ quanto no plenário, onde a votação é secreta. O histórico joga a seu favor: o Senado não rejeita um indicado ao STF desde 1894, levantamento lembrado por congressistas que veem a confirmação como provável.

Nos últimos dias, o advogado-geral da União cruza a avenida das divergências políticas e busca diálogo inclusive com quem já declarou voto contrário. Ele se reúne com o líder do PL no Senado, Carlos Portinho, embora a bancada tenha fechado posição contra o nome enviado por Lula. No dia seguinte, encontra o senador Eduardo Girão, crítico da indicação. O parlamentar descreve a conversa como “cordial” e “respeitosa”, mas reafirma que mantém a decisão de votar contra.

Entre auxiliares, Messias resume a própria estratégia com uma fórmula que tenta desarmar o clima de confronto. Ele diz que pretende adotar uma postura “paz e amor” na sabatina da CCJ, evitar embates diretos e não reagir a provocações. O plano, contado a interlocutores, é se apoiar em três pilares: serenidade, sobriedade e linguagem técnica, sempre amparada em precedentes e no texto da Constituição.

Equilíbrio entre Poderes e temas sensíveis

O discurso que ele prepara mira um ponto sensível da relação entre Senado e Supremo. Messias promete, segundo aliados, reforçar o respeito às competências de cada Poder e sinalizar que não pretende ampliar o alcance da Corte sobre decisões do Congresso. A mensagem tenta responder a críticas repetidas por senadores de diferentes partidos, que veem o STF avançando sobre prerrogativas legislativas.

Os temas que devem surgir na sabatina ajudam a explicar o cuidado com cada palavra. Assuntos de forte impacto social, como aborto e fraudes no INSS, aparecem entre as principais preocupações dos parlamentares que o procuram. Evangélico, o indicado conta com o apoio de colegas religiosos, que apostam em uma atuação conservadora na chamada pauta de costumes. Parte dos senadores, porém, relativiza o peso da religião e insiste que a decisão passa mais pela leitura institucional do candidato do que pela fé pessoal.

Um parecer recente da Advocacia-Geral da União deve aparecer como ponto de atrito. A AGU se posiciona contra a resolução do Conselho Federal de Medicina que proibia a assistolia fetal após 22 semanas de gestação, procedimento ligado a casos de aborto legal. Senadores críticos à indicação enxergam no episódio um foco de desgaste e prometem explorar a contradição entre o apoio de grupos conservadores e a atuação jurídica do órgão chefiado por Messias.

O resultado da votação pode alterar o equilíbrio interno do Supremo num momento em que a Corte julga temas de alto impacto econômico e social. Um ministro com trânsito político mais amplo tende a influenciar o tom da interlocução com o Congresso e com o Executivo, especialmente em pautas que envolvem gastos públicos, políticas sociais e regras eleitorais. A aposta dos defensores de Messias é que uma postura conciliadora no Senado antecipa um mandato marcado pelo diálogo entre instituições.

Disputa de votos e próximos passos

Os números projetados nos bastidores revelam a distância entre discursos públicos e cálculos reservados. Aliados do indicado estimam que o placar final deve ficar entre 48 e 52 votos favoráveis, margem confortável acima da maioria absoluta da Casa. Oposição e críticos internos traçam cenário mais apertado e calculam que ele não alcançaria 35 votos, numa tentativa de manter a pressão sobre indecisos até o dia da sabatina.

O rito no Senado segue roteiro conhecido, mas cada etapa esconde variáveis próprias. Na CCJ, marcada para 29 de abril, Messias responde a questionamentos durante horas, diante de câmeras e galerias cheias. Ao fim, a comissão vota um parecer sobre a indicação. Se o relatório for aprovado, o nome segue ao plenário, onde todos os 81 senadores podem se manifestar em votação secreta. A combinação de voto fechado e disputas regionais torna o trabalho de contagem mais delicado, mesmo com a tradição de confirmação dos indicados.

O desfecho da semana não se limita à biografia do advogado-geral da União. Uma aprovação robusta tende a reforçar a ideia de reaproximação entre Legislativo e Judiciário, após anos de tensão e embates públicos envolvendo o Supremo. Uma votação mais apertada, ao contrário, expõe resistências, alimenta a narrativa de interferência do STF sobre o Congresso e pode cobrar um preço político ao governo Lula.

O Senado entra na reta final do processo com olhos voltados a temas que extrapolam o próprio Palácio do Congresso. A sabatina promete acender debates sobre direitos reprodutivos, combate a fraudes em benefícios sociais e os limites da atuação de juízes em decisões com forte impacto político. Ao fim da sessão, permanece uma pergunta central: o novo ministro conseguirá, de fato, cumprir a promessa de pacificar a relação entre os Poderes ou chegará ao Supremo carregando as mesmas fraturas que tenta, agora, amenizar nos corredores do Senado?

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