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Ciclone extratropical intenso traz frio, chuva e vento de 100 km/h ao Cone Sul

Um ciclone extratropical muito intenso se forma entre sábado (25) e segunda-feira (27) no Atlântico Sul e modifica o tempo no Cone Sul. O sistema provoca rajadas de vento que podem passar de 100 km/h, chuva forte e impulsiona uma massa de ar frio que derruba as temperaturas na Argentina, no Uruguai e no Sul do Brasil.

Ciclone nasce na Patagônia e ganha força ao chegar ao Prata

O ponto de partida do fenômeno é uma área de baixa pressão na costa da Patagônia argentina, que começa a se aprofundar neste sábado. À medida que o centro de baixa avança em direção ao Norte e ao Nordeste, pela altura do litoral da província de Buenos Aires e da foz do Rio da Prata, o sistema se organiza como ciclone extratropical e passa a ganhar intensidade rapidamente.

Modelos numéricos usados por centros de previsão, como o europeu ECMWF, indicam que a pressão central do ciclone atinge cerca de 970 hPa no início da semana, valor considerado muito baixo para as latitudes médias da América do Sul. Essa queda brusca de pressão cria um forte contraste com áreas vizinhas e abre caminho para ventos muito intensos em alto-mar e também na faixa costeira.

Na Argentina, o litoral da província de Buenos Aires sente os primeiros impactos entre o fim de domingo e a segunda-feira (27). Trechos entre Bahía Blanca e Mar del Plata registram chuva, temperatura baixa e rajadas perto ou acima de 100 km/h, cenário típico de temporal de vento com risco de danos. Ao mesmo tempo, o Uruguai entra na zona de maior influência do sistema, com vento forte a muito forte em departamentos do Sul e do Leste.

Montevidéu, San José, Canelones e Maldonado estão entre as áreas mais expostas, com previsão de rajadas entre 75 km/h e 100 km/h. Em pontos da Costa de Oro e na região de Punta del Este, meteorologistas não descartam rajadas isoladas superiores a 100 km/h, suficientes para derrubar árvores, danificar estruturas frágeis e provocar cortes de energia elétrica.

Frio avança ao Sul do Brasil com geada e impacto na rotina

Enquanto o ciclone se afasta para Leste e Sudeste, já em mar aberto, a circulação de ventos passa a canalizar ar gelado de Sul para Norte. Uma “língua” de ar frio se forma entre as Ilhas Malvinas, a região de Geórgia do Sul e o Sul do Brasil, abrindo um corredor que leva a massa de ar frio para o continente.

No Rio Grande do Sul, o ar frio ingressa primeiro pelo Oeste e pelo Sul, entre a tarde e a noite de domingo (26). Na segunda-feira, o ar gelado já avança sobre grande parte do Sul do Brasil. As madrugadas mais frias ocorrem entre segunda e quarta (28 e 29), quando temperaturas mínimas em muitas cidades ficam entre 5°C e 10°C, com marcas abaixo de 5°C em diversos municípios.

Em áreas mais altas, como a Serra do Sudeste, os Campos de Cima da Serra e o Planalto Sul Catarinense, os termômetros podem registrar valores ao redor de 0°C e até negativos. O cenário favorece geadas em diferentes regiões do Rio Grande do Sul e em parte de Santa Catarina, sobretudo na terça e na quarta. Para agricultores, o sinal de alerta é imediato: cultivos sensíveis ao frio, como hortaliças e algumas frutas em estágio de floração, podem sofrer perdas em poucas horas de temperatura próxima de zero.

“O ciclone atua como uma espécie de engrenagem que suga o ar frio das altas latitudes e empurra essa massa gelada para o continente”, explica a MetSul Meteorologia em sua análise. O resultado combina vento forte, mar agitado, chuva localizada e um episódio de frio intenso, mas de curta duração, no começo da última semana de abril.

No litoral e no Sul do Rio Grande do Sul, o vento também chama atenção. A partir do fim de domingo, rajadas se intensificam na Metade Sul e na Campanha, acompanhando a chegada do ar frio. Na segunda-feira, o Sul e o Leste do estado registram rajadas entre 50 km/h e 70 km/h, com possibilidade de picos entre 80 km/h e 90 km/h no Litoral Sul. O vento forte em mar aberto deve gerar ressaca na costa gaúcha ao longo da semana, com risco de avanço do mar sobre áreas de praia e danos em estruturas costeiras mais vulneráveis.

Risco de danos, alívio rápido do frio e atenção redobrada

Os efeitos combinados de vento acima de 100 km/h, chuva por vezes forte e mar agitado aumentam o risco de transtornos em diferentes frentes. Em áreas urbanas de Buenos Aires, cidades litorâneas uruguaias e regiões costeiras do Sul do Brasil, o cenário é favorável a queda de árvores, destelhamentos, interrupções no fornecimento de energia e bloqueio de vias por galhos e estruturas arrastadas pelo vento.

Em zonas rurais, o avanço do ar frio preocupa produtores que se aproximam do período de colheita de culturas de outono ou mantêm lavouras em desenvolvimento nas áreas mais elevadas. Geadas em sequência, mesmo por apenas duas ou três madrugadas, podem comprometer plantas mais sensíveis e exigir medidas emergenciais, como irrigação noturna e proteção física em pequenas propriedades.

A população também sente o impacto na rotina. Viagens em rodovias costeiras exigem atenção redobrada, por causa de rajadas laterais e possível acúmulo de água em pontos de chuva mais intensa. Em cidades litorâneas, atividades náuticas e de pesca artesanal sofrem interrupções durante a passagem do sistema. Voos podem enfrentar turbulência e atrasos, principalmente em aeroportos próximos ao litoral, como Montevidéu e Porto Alegre.

Apesar do frio intenso, os meteorologistas destacam que o episódio é breve. As tardes já se tornam mais amenas ao longo da semana, e a partir de quarta-feira o ar começa a aquecer de forma gradual. Entre quinta e sexta-feira, as temperaturas sobem de novo e encerram a incursão mais forte de ar frio, abrindo espaço para a chegada de novas frentes frias e episódios de chuva nas semanas seguintes.

Luiz Fernando Nachtigall, meteorologista da MetSul e formado em 1985 pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), ressalta que a população precisa acompanhar os avisos oficiais. O histórico recente de ciclones extratropicais intensos no Atlântico Sul, com registros de danos em 2023 e 2024, mostra que episódios curtos podem ter impacto duradouro em infraestruturas frágeis e na renda de comunidades vulneráveis.

Nas próximas horas, a atenção se volta para o deslocamento do centro do ciclone e para a força das rajadas na costa. A sequência de sistemas previstos para o fim do outono mantém em aberto uma questão que já preocupa serviços de meteorologia e defesas civis: até que ponto cidades costeiras e áreas agrícolas estão realmente preparadas para um regime de extremos climáticos cada vez mais frequentes?

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