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Ataque de Nikolas a Jair Renan expõe fissura no bolsonarismo

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) volta a confrontar a família Bolsonaro e chama Jair Renan, filho mais novo do ex-presidente, de “toupeira cega” em publicação no X nesta sexta-feira, 24. O ataque ocorre em meio à disputa por protagonismo na direita e aprofunda a divisão interna no PL às vésperas da corrida presidencial.

Provocações em série e racha à vista

A nova ofensiva começa de forma aparentemente banal, com uma crítica de estilo. O influenciador de direita Junior Japa questiona, em vídeo recente, o fato de Nikolas aparecer de camiseta branca, em contraste com a camiseta preta que marcou sua imagem de oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No mesmo conteúdo, insinua que o deputado teria “sentido” críticas, trocaria apoio político por emendas e se afastaria da pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Nikolas reage horas depois, também no X, e eleva o tom. Afirma que enviará emendas para “internar” críticos em um hospício, numa resposta que mistura ironia e ameaça política. O comentário atrai outros nomes da direita, entre eles o influenciador Fernando Lisboa e Jair Renan Bolsonaro, vereador de Balneário Camboriú (PL-SC), que passam a ironizar o comportamento do deputado mineiro.

Em seguida, Nikolas publica uma captura de tela da interação entre os dois e escreve: “se juntar a capacidade cognitiva dessa dupla não alcança a de uma toupeira cega”. A frase, direcionada a um vereador de 26 anos ligado diretamente ao núcleo familiar de Jair Bolsonaro, rompe qualquer tentativa recente de reconciliação entre as alas do partido. O ataque, feito a 24 de abril de 2026, cristaliza uma disputa que há meses se desenrola em vídeos, podcasts e postagens.

Fernando Lisboa reage e tenta enquadrar o deputado. Afirma que Nikolas “passou o Eduardo Bolsonaro para trás” e, “não satisfeito, ainda deu um chega pra lá em Jair Bolsonaro”. Em tom de desdém, diz que o mineiro “vivia lá na porta do Alvorada, mendigando atenção” e que, após ganhar espaço, teria “entrado o rei na barriga”. A crítica mira um ponto sensível: a ascensão meteórica do deputado, eleito em 2022 com mais de 1,4 milhão de votos em Minas Gerais, supera a votação de figuras tradicionais do bolsonarismo.

Disputa por liderança na direita e desgaste no PL

O episódio desta sexta não surge isolado. Desde o início de 2026, Nikolas intensifica ataques públicos aos filhos de Jair Bolsonaro, em especial Eduardo Bolsonaro (PL-SP). No começo de abril, Eduardo afirma que não pode “aceitar ser humilhado” pelo colega de partido. Em um texto longo divulgado nas redes, o deputado paulista lembra que ajudou a impulsionar a carreira de Nikolas dentro do PL e cobra reconhecimento. A leitura de aliados é de que a relação se rompe de forma aberta.

Dentro do PL, a tensão preocupa. Em relatórios internos encomendados pela sigla, consultorias já apontam uma “dependência excessiva” da imagem de Nikolas nas redes e sugerem ajuste na comunicação. O partido, que tenta se organizar para 2026 em torno da figura de Jair Bolsonaro e de seus filhos, vê crescer uma liderança paralela que fala diretamente a um público jovem, conservador e digitalizado. A troca de insultos, gravada e compartilhada em tempo real, alimenta a narrativa de fragmentação.

A briga também expõe o dilema de influenciadores de direita que orbitam o bolsonarismo desde 2018. Muitos construíram audiência defendendo o ex-presidente, mas hoje testam graus variados de autonomia. Quando Junior Japa questiona a cor da camiseta de Nikolas, toca em um símbolo: a ideia de que o deputado estaria “amaciando” o discurso em troca de espaço institucional, em especial por meio de emendas parlamentares. A acusação, ainda que sem números concretos apresentados na discussão, ecoa um sentimento de parte da base bolsonarista, que teme a “normalização” de antigos opositores radicais.

O ataque a Jair Renan também fragiliza um personagem politicamente menor, mas simbolicamente importante. O filho mais novo de Bolsonaro, vereador de primeiro mandato em Santa Catarina, serve como termômetro da lealdade ao clã. Quando vira alvo direto de um deputado em ascensão, a mensagem é lida como um desafio frontal ao patriarca e à hierarquia construída desde o Planalto, entre 2019 e 2022.

Efeitos eleitorais e próximos capítulos

O confronto público tende a redesenhar alianças à direita. Setores do PL já trabalham com ao menos duas frentes claras: a ala ligada diretamente à família Bolsonaro, que tenta preservar capital eleitoral para 2026, e o grupo que enxerga em Nikolas uma liderança capaz de dialogar com eleitores mais jovens. Nas redes, onde o deputado acumula milhões de seguidores distribuídos entre X, Instagram e TikTok, o custo político de recuar é alto. Cada postagem rende milhares de comentários, curtidas e compartilhamentos, estimulando a escalada retórica.

Para a família Bolsonaro, o risco é duplo. A insistência em confrontos públicos desgasta a imagem de unidade que o PL tenta vender como trunfo eleitoral e abre espaço para adversários de centro e de extrema direita. A exposição de brigas internas, com expressões como “toupeira cega” e “mendigar atenção”, reduz o debate político a ataques pessoais e pode afastar parte do eleitorado conservador que busca discurso mais programático, focado em economia, segurança e costumes.

No curto prazo, dirigentes do PL devem ser pressionados a agir como bombeiros. A legenda precisa definir até junho, prazo considerado estratégico por caciques do partido, o desenho de palanques estaduais e o grau de protagonismo de cada liderança nas campanhas proporcionais. A continuidade de ataques entre Nikolas e os Bolsonaro pode complicar acordos em estados-chave como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina, onde a sigla disputa não apenas prefeituras, mas também espaço para 2026.

No médio prazo, permanece a dúvida sobre quem falará em nome da direita radical nas eleições presidenciais. Jair Bolsonaro segue inelegível até pelo menos 2030, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, e seus herdeiros políticos ainda não consolidam candidatura própria. Nikolas, por outro lado, refina seu discurso nacional e testa limites dentro do próprio campo. A ofensiva contra Jair Renan funciona como demonstração de força, mas também como aposta arriscada.

As próximas semanas devem indicar se o PL conseguirá conter o fogo amigo ou se o episódio desta sexta se tornará ponto de inflexão no campo bolsonarista. A dúvida que se impõe, para aliados e adversários, é se a direita sairá de 2026 mais unida em torno de um projeto comum ou fragmentada em feudos digitais que se atacam em público enquanto o calendário eleitoral avança.

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